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Um grande concerto na Sala São Paulo (30/5/2016)
Por Jorge Coli

Enfim Bartók!!! Se o grande compositor húngaro está presente no repertório das formações de câmara e é por elas apresentado com certa regularidade, os maestros o esquecem. Preferem os brilhos, por vezes as lantejoulas, de compositores que transformam a orquestra num espetáculo cinemascope, technicolor e 3D, como Mahler ou Richard Strauss, para, voluptuosamente, navegarem num suntuoso oceano de brilhos e de efeitos eletrizantes.

Bartók é o oposto disso. Sua orquestração é a mais discreta, em que seu gênio, com doses ínfimas e pensadas, cria coloridos tão íntimos, tão inesperados. Foi com grande entusiasmo, portanto, que me dirigi à sala São Paulo para o concerto da Osesp nesta sexta-feira de Corpus Christi. Ele anunciava o Concerto para violino nº 2 desse admirável gênio.

Havia mais, está claro, que um concerto só não faz uma noitada musical. Antes de Bartók, seria interpretado o balé Khamma, de Debussy. Obra rara, sua orquestração foi completada por Koechlin, sob a direção do compositor, que abandonara a tarefa. E, mais ainda, teríamos também as Métaboles de Henri Dutilleux, formidável obra-prima.


À esquerda, o violinista Thomas Zehetmair; e à direita, o maestro Heinz Holliger [Fotos: divulgação]

O maestro foi o lendário oboísta Heinz Holliger. De precisão absoluta, faz os sons da orquestra flutuarem na leveza, ao mesmo tempo que injeta delicada vida nas obras, nas belas cores transparentes.

Khamma se desenrola como uma paisagem exótica – a referência ao Egito antigo é apenas um pretexto para esse pitoresco maravilhosamente impreciso – muito luminosa, que se desdobra cheia de surpresas. Há ecos de La mer, anúncios de El amor brujo e do que mais se quiser. Fluiu maravilhosamente, preparando para as Métaboles por vir.

Metábole é um recurso retórico baseado na repetição: a mesma ideia repetida com palavras diferentes, ou ditas em outra ordem. Significa, se se quiser, o mesmo transformado: está na raiz de metabolismo, que implica em metamorfose e permanência.

Creio que nunca as Métaboles de Dutilleux corresponderam tanto ao que disse dele Jean Roy: um sinfonista que não compõe sinfonias, mas antes “polifonias para grande orquestra”. Porque as qualidades de Holliger – transparência, clareza, e um sentido de vida orgânica – permitiu florescer plenamente essa “alegria do som” tão própria a Dutilleux, concebida num profundo amor metamórfico, embora encerrada numa perfeita unidade. Datada de 1964, a obra se impôs no repertório das grandes orquestras.

Enfim, o Concerto para violino nº 2 de Béla Bartók. Thomas Zehetmair foi o solista: som de belo espectro harmônico, caloroso. Momentos de devaneios melancólicos alternam-se com ritmos que se desencadeiam, ásperos. Amigo e parceiro do compositor, Zoltán Székely, violinista, foi quem encomendou a obra. Bartók inventou para ele uma partitura de tremenda dificuldade, cujo virtuosismo nunca se exibe com vaidade, mas só existe por necessidades intrínsecas e rigorosas. O concerto é lírico, mas sem a menor pitada de sentimentalismo; e, como para quebrar qualquer dúvida a esse respeito, o compositor faz irromper momentos de poderosa rudeza. Há também um gosto marcado pelo princípio das variações, o que se combina muito bem com a obra precedente, de Dutilleux. O clima de integração entre o solista e a orquestra foi tanto, que a obra soou quase como uma sinfonia para violino.

No final do concerto, apesar de todos os dissabores que existem no quotidiano, a vida parecia uma bem bela coisa.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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