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Theatro São Pedro faz excelente “Albert Herring” (22/6/2016)
Por Jorge Coli

A qualidade nos espetáculos de ópera não é forçosamente baseada em dinheirama e estrelas internacionais. A ópera exige mais do que isso e, ao mesmo tempo, pode exigir menos.

A ópera requer vibração, entusiasmo, investimento sincero de quem participa. Por vezes, apresentações modestas resultam melhores, mais convincentes, do que espetáculos prestigiosos. Quantas vezes já não me perguntei, em teatros ilustres, com elencos de estrelas e concepções faustosas, o que raio estava eu fazendo ali? Rotina, tédio, bocejos.

Albert Herring no Teatro São Pedro foi o exato oposto disto. É difícil imaginar uma produção mais econômica do que aquela (por sinal, que vergonha para um estado como o de São Paulo destinar migalhas ínfimas para a ópera!).


Cena da ópera Albert Herring  [Divulgação / Heloisa Bortz]

Os cantores eram os alunos da Academia de Ópera do São Pedro. Os cenários bem reduzidos.

Mas o milagre ocorreu. Albert Herring, que nem faz parte dos espetáculos “oficiais”, da temporada do São Pedro, deve ser marcado com uma pedra branca na história daquele teatro.

Cenários enxutos, mas excelentes, na autoria de Giorgia Massetani: uma grande janela recurvada e transparente, que lembravam as do último andar do próprio teatro, criava uma rua nos fundos, e interiores na frente. Iluminação de Luciano Paes impecável. Direção cênica de Caetano Pimentel que, mesmo podendo diminuir o lado de graça sublinhada, mais apropriada ao teatro infantil, por vezes, foi de grande eficácia.

A orquestra é reduzida, e Britten a explora com humor e muita finura, exigindo precisão e ânimo. André dos Santos regeu com justeza, sem perder o entusiasmo, revelando todas as belezas de uma partitura cuja inspiração não falha.

Albert Herring é uma ópera de conjunto: todos os personagens são importantes. Fora a cena de Albert no segundo ato, que é mais longa, outros solos e duetos são relativamente breves. É preciso, portanto, homogeneidade e fusão do elenco.

No domingo, dia 19, quando assisti ao espetáculo, a distribuição foi excelente. As três crianças, em particular Bruno de Sá como Harry, eram hilariantes e ótimas no canto. Ana Beatriz Machado interpretou Miss Wordsworth, a professora: voz esplendidamente luminosa. Marcela Rahal e Miguel Egwuagu formaram harmoniosamente o simpático casal de namorados Nancy e Sid, que desencaminham o puro Herring. Se Laís Assunção tem voz adequada para Lady Billows, autócrata que encarna a repressão, a moral, o super ego da comunidade, faltou-lhe talvez um pouco da autoridade cênica necessária – sem que isso comprometesse o fluxo da apresentação. Sua pequena corte – o vigário, o prefeito, o policial, mais a professora – (Eduardo Fujita, Wesley Rocha, Anderson Barbosa), assim como a mãe de Albert (Catarina Taíra), todos atuaram e cantaram perfeitamente. O que permitiu fazer sobressair os belos conjuntos que Britten concebeu para sua ópera.

Albert Herring, mesmo que não seja a obra mais popular de Britten, é uma de suas mais inspiradas e originais. Traz um sopro de sexualidade libertária, bandeira que Britten levantava com a discrição que a época exigia. Surgiu na sua beleza, na sua graça, no seu frescor admirável no palco do São Pedro graças a esses excelentes artistas.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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