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Inspiração Bartók e Wagner sem força (27/6/2016)
Por Jorge Coli

Não tenho a menor ideia do que seja um compositor transversal. É esse adjetivo que vem acompanhando as obras de Béla Bartók nos programas da Osesp. Pelo que entendi, significa que ele vem programado com frequência nos concertos e recitais. É o que está acontecendo – viva! – com o grande húngaro.

Pude ouvir seu Concerto para violino há algumas semanas [leia aqui]. Mais recentemente foi a vez do Concerto para viola. Há dele outras obras ainda, que já foram ou serão executadas.

Bartók é, atualmente, um mal amado dos maestros, que preferem partituras mais exuberantes, fazendo a orquestra brilhar. No entanto, que magnífico orquestrador ele é! Não no sentido dos grandes coloristas, como Rimsky-Korsakov, mas na miraculosa precisão das dosagens combinadas, econômicas, ou isoladas, dos timbres. Não são joias, são diamantes. A escolha “transversal” da Osesp foi, assim, particularmente feliz.


A Osesp na Sala São Paulo [Divulgação / Alessandra Fratus]

O concerto na Sala São Paulo, do dia 17 passado, abriu-se com a Fantasia sobre um tema de Thomas Tallis, de Ralph Vaughan Williams. Quem dirigia era o maestro Robert Spano, atualmente responsável pela Orquestra de Atlanta.

A obra é uma combinação alquímica das cordas, mostrando a maravilhosa qualidade desses naipes na Sinfônica do Estado. Serena, mas cheia de sentimento grave nos seus reflexos acetinados, abriu a noite em grande estilo.

Como é sabido, o Concerto para viola não foi terminado por Bartók, e existem dele versões diferentes. Mas tal como está, na sua edição mais conhecida, a que foi tocada na estreia, é poderoso de rigor e de invenção. Sem entrar em debates musicológicos, é forçoso constatar que o espírito do autor está ali.

O violista britânico Lawrence Power foi o solista e trouxe uma novidade: um Estudo pentatônico de Esa-Pekka Salonen para seu instrumento, escrito em 2008. É uma peça para violino solo, construída a partir de material (pentatônico) extraído do 1º movimento do concerto de Bartok. Serviu como uma bela introdução para a obra maior, um prelúdio violístico que se fundiu naturalmente com o concerto.

Musicalidade calorosa que não abandonava o rigor, e que expunha, malgrado sua orquestração em épura, o expressionismo poderoso. O desenvolvimento rapsódico e amplo da parte solista pôde se expandir com grande beleza. Supremo instante o do segundo movimento, que passa da imobilidade meditativa para a vivacidade e retorna à contemplação.

Lawrence Power ofereceu, como bis, Kaddish, de Maurice Ravel. O compositor não era judeu (apesar de uma brincadeira que foi feita pelo crítico Roland-Manuel, ao dizer que Ravel derivava de um sobrenome judaico, Rabbele, e que alguns levaram a sério), mas impressionou-se com a religiosidade de duas melodias hebraicas, que compõem um díptico, do qual Kaddish é o primeiro painel. Power a interpretou acompanhado pelo pedal das cordas graves da orquestra: foi um brinde de primeira grandeza.

A bela qualidade da primeira parte não se repetiu, hélas!, na segunda. O Robert Spano escolheu uma sequência de peças orquestrais extraídas de O anel do Nibelungo.

O maestro compreendeu as partituras de maneira compassada, aplicada, escolar. Começou com a “Cavalgada das Valquírias”, que pareciam antes o trote do pangaré. Quem viu 8 ½ de Fellini lembra-se da cena em que veranistas idosos avançam em fila, caricaturalmente acompanhados por um Wagner de coreto: era nisso que a interpretação fazia irresistivelmente pensar.

(Cedo aqui ao desejo de trazer seu exato oposto: a Cavalgada pelo miraculoso cavaleiro Wilhelm Furtwängler: https://www.youtube.com/watch?v=V92OBNsQgxU).

O restante da sequência foi assim também, correto, por vezes com belas cores, mas sem espírito, sem força. Ao que parece, Robert Spano dirigiu a Tetralogia em Atlanta. São aproximadamente 17 horas de música, se não erro. Esperemos que o maestro estivesse mais inspirado por lá.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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