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“Lady Macbeth” de Shostakovich, obra-prima absoluta (18/7/2016)
Por Jorge Coli

Formidável fim de semana em que pude ver duas vezes, no sábado e no domingo, com distribuições diferentes, Lady Macbeth do distrito de Mtsensk, ópera de Shostakovich.

A obra é inspirada de um romance escrito por Leskov, autor russo do século XIX, tão genial quanto seus grandes compatriotas contemporâneos, mas menos conhecido e lido do que eles.

A história é formidável, uma reação à Mme. Bovary: insatisfação e tédio de uma esposa na província. Katerina Ismailova – o nome dessa Macbeth russa – é muito mais violenta, porém, que a pequena Emma de Flaubert. Ela mata sem hesitar. Há também como um eco de Manon Lescaut, romance do Abade Prevost, sobretudo no final. E ainda parece anunciar a futura Anna Karenina, de Tolstoi. Mas no caso de Leskov, o amor que cega leva a situações finais muito sórdidas e bem pouco românticas.


Cena da ópera “Lady Macbeth” [Foto / divulgação]

Estou convencido que James M. Cain, escritor americano, deve ter lido a novela de Leskov antes de escrever seu O destino bate à sua porta (The Postman Always Rings Twice): história de uma jovem casada com um marido idoso, que se apaixona por um serviçal; ambos assassinam o esposo; a heroína, Cora, morre num acidente, e o namorado termina executado. O livro teve muitas adaptações para o cinema; as mais conhecidas sendo Obsessão (Ossessione), de Visconti, em 1943; O destino bate à sua porta (The Postman Always Rings Twice, com Lana Turner), de Tay Garnett, em 1942; mesmo título, com Jack Nicholson e direção de Bob Rafelson em 1981.

Fico impressionado com seguinte coincidência: tanto o romance de John M. Cain quanto a ópera de Shostakovich datam do mesmo ano: 1934. Ambos, de algum modo, ressuscitam Leskov em anos de crise para denunciar a mesma quimera de duas utopias: o sonho americano e o sonho soviético. Ambos levam o crime para o lar de pessoas comuns, pondo em funcionamento os motores violentos de desejo que são sexo e dinheiro. Ambos renunciam a qualquer julgamento moral e, por isso mesmo, foram, ambos, censurados em seus países. Sinal de que o tema atingia pontos nevrálgicos da cultura e dos comportamentos daquela época.

Enfim, esses cruzamentos e ramificações que enunciei engendraram obras maiores, e a ópera de Shostakovich é, me parece, a mais alta entre todas elas. Nunca o sexo foi transposto para a música desse jeito, com brutalidade e violência sonoras, configurando quase um estupro. Nunca a sordidez mesclou-se ao desespero numa partitura com tamanha convicção. Obra-prima absoluta.

Lady Macbeth do distrito de Mtsensk estreou bem tarde no Brasil, em 2007 apenas, graças ao Festival Amazonas de Ópera que, como se sabe, não anda agora bem das pernas, infelizmente. A apresentação, que tinha Eliane Coelho como protagonista e Luiz Malheiro na regência, foi uma epifania. Caetano Vilella cuidou de sua montagem com tal inteligência para cada detalhe, e com tal intuição nas relações com a música, que deixou os espectadores atordoados, com o sentimento de uma experiência única. A cena na banheira, o afogamento final, ficaram na memória, poderosos.

O Teatro Municipal de São Paulo trouxe, desta vez, um produto pronto. Talvez o programa, muito cuidado por sinal, pudesse ter mencionado informações sobre a Helikon Opera, responsável pelo espetáculo. Trata-se de uma companhia moscovita de repertório, com artistas estáveis, que atua num pequeno teatro de 250 lugares, e que inclui óperas muito raras. Essa companhia também viaja pelo mundo inteiro, e o espetáculo que tivemos em São Paulo já havia se apresentado em Bolonha e em Moscou.

Uma produção com cenário único e simples, perfeitamente rodada. Excelentes cantores nas duas distribuições. Vladimir Ponkin é o regente titular da companhia, e revelou-se, em São Paulo, um esplêndido maestro. A Orquestra Sinfônica Municipal respondeu à altura: que precisão, que entusiasmo, que sonoridades brilhantes, alla russa! E o Coral Lírico! Cantando impecavelmente, atentos às nuanças e, mais ainda, atuando e dançando em situações bem complicadas! Foi, musicalmente, um esplendor.

Cada uma das apresentações, em qualquer teatro e com qualquer obra, nunca é igual à outra. No caso desta Lady Macbeth do distrito de Mtsensk do sábado e do domingo foi assim. As distinções de qualidade entre os cantores foram infimas e nem vale a pena assinalar aqui. A diferença estava no “espírito”, ou no “clima” de cada apresentação. No sábado, o ânimo estava mais frio, a comunicação menor. No domingo, ao contrário, último dia, havia uma vibração de incêndio solto. De modo que os problemas da montagem sobressaíram mais no sábado do que no domingo. Essas dificuldades eram um simbolismo evidente por demais (por exemplo, Katerina está presa pelo casamento, seu quarto é então uma jaula), e um grau tão alto de abstração e de incongruência em certas circunstâncias, que chegavam ao ponto de tornar incompreensíveis certas situações. Isso ocorreu, particularmente no último ato, de concepção muito desastrada. Outra dificuldade: o fato de que o primeiro e segundo atos foram interpretados sem intervalo: mais de hora e meia ininterrupta. Um alívio em meio àquela violência desencadeada seria bem vindo.

Mas, enfim, é melhor não estragar o prazer por causa desses defeitos menores. Apesar deles, o espírito de Shostakovich estava ali.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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