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Artista e humanista: o centenário de Yehudi Menuhin (1916-1999) (25/7/2016)
Por Camila Frésca

O mundo musical comemora em 2016 o centenário de um dos maiores violinistas que se tem notícia: Yehudi Menuhin. Mas, numa arte em que não são poucos os que ficaram para a história por sua extrema virtuosidade, por que o nome de Menuhin se impõe entre os maiores do olimpo violinístico?

A trajetória de Yehudi Menuhin se inicia como a de muitos prodígios, segue como um veículo de realização pessoal e termina transcendendo os limites artísticos. Primeiro filho de imigrantes judeus de origem bielorrussa, Menuhin nasce em Nova York em 22 de abril de 1916. Suas primeiras aulas no instrumento se dão aos quatro anos de idade e, em 1923, passa a estudar com um dos principais professores da primeira metade do século XX: Louis Persinger (1887-1966). Aos 7 anos, ele se tornava uma celebridade, sendo comparado a Mozart. Aos 10, segue com a família para mostrar seu talento à Europa: estreia em Paris e passa a ter aulas com o violinista e compositor romeno George Enescu. Em 1927, faz sua estreia no Carnegie Hall e, no ano seguinte, as primeiras gravações para a Victor e uma turnê pelos EUA. A essa altura, a vida do jovem prodígio consistia numa intensa agenda de concertos, e seguiria assim nos anos seguintes até sofrer uma reviravolta durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele passa a se apresentar para os soldados aliados.


Yehudi Menuhin [Foto: reprodução] 

Se sua agenda era intensa até então – ele dava em média 60 apresentações por ano – entre 1942 e 1945 deu mais de mil – às vezes três concertos por dia – , indo do Alasca à Bruxelas, cruzando o Atlântico durante bombardeios. Em sua última apresentação, teve como pianista acompanhador Benjamin Britten; tocaram para os presos do campo de concentração de Bergen-Belsen uma semana após sua libertação. Muitos anos depois, Britten confessou a seu companheiro Peter Pears que o que ele e Menuhin tinham visto havia sido tão terrível que nenhuma das obras por ele composta posteriormente estava isenta dessa recordação. Para Menuhin, a experiência foi igualmente devastadora. Em 1947, contudo, ele estava de volta à Alemanha para tocar com a Filarmônica de Berlim, sob regência de Wilhelm Furtwängler – para surpresa de muitos. Justificou a atitude como um ato de reconciliação, sendo o primeiro músico judeu a fazê-lo.

Essa experiência durante a guerra deixou marcas não apenas sob o ponto de vista humano: o excesso de trabalho comprometeu sua performance ao instrumento. E, aparentemente, algumas lacunas em sua formação também cobravam seu preço: “Eu assisti a mim mesmo num filme e percebi que há 30 anos estava segurando o arco errado”, afirmou.


Yehudi Menuhin com Benjamin Britten [Foto: reprodução]

De qualquer forma, a passagem pela guerra transformou o músico – que até poucos anos antes era um prodígio rechonchudo que andava de limusine pelas grandes cidades – num artista preocupado com questões humanistas e com uma curiosidade musical para além das fronteiras da chamada música “clássica”. Em 1952, Menuhin conhece e se torna amigo do mestre iogue Bellur Iyengar. Antes do indiano se tornar conhecido e respeitado fora de seu país, Menuhin consegue levá-lo para a Europa e fazer com que ele dê aulas em Londres, Paris e outras cidades. Era a primeira vez que grande parte dos ocidentais tinha contato com a yoga, e o próprio Menuhin tornou-se um grande adepto. Foi a yoga, combinada com uma prática de estudos cuidadosa, que o ajudou a superar a maioria dos problemas com o violino.

Durante o final da década de 1950 e os anos de 1960, Menuhin funda escolas e estabelece programas de ensino, além de continuar a encomendar e estrear obras, dirigir festivais e participar de júri de concertos. Em 1966, seguindo sua descoberta da cultura indiana, estabelece uma feliz parceria com o músico Ravi Shankar, e, em 1970, é a vez de explorar o jazz e a música popular ao lado do também violinista Stéphane Grappelli.

[Vídeo com Ravi Shankar]

Mas as últimas décadas de sua vida também foram marcadas por uma atuação humanista. Em 1989, por exemplo, Menuhin participou pela primeira vez do Fórum Econômico Mundial em Davos e conduziu no Kremlin O Messias pouco depois da queda do regime comunista; em 1991, ao receber o prestigiado Wolf Prize, fez um discurso criticando a contínua ocupação israelense na Cisjordânia; realizou um concerto em comemoração à libertação de Nelson Mandela na África do Sul, em 1995. E em 1996, ao completar 80 anos, fez sua última aparição como violinista e conduziu mais de 100 concertos, entre eles um em Sarajevo.

Ao morrer, em 12 de março de 1999, Sir Yehudi Menuhin (título que havia adquirido em 1985, quando se naturalizou cidadão britânico), possuía dezenas de títulos honoríficos, além de uma indicação ao Nobel da Paz. Entre seus evidentes legados estão a fundação, a escola, o festival e a academia Yehudi Menuhin, além de organizações de caridade e concursos. Mas, sobretudo, Menuhin deixou o exemplo de como um grande músico pode utilizar a arte para além do mero deleite estético-artístico, transformando-a em ferramenta de participação e mudança da sociedade.

O acervo de Menuhin foi adquirido pela Royal Academy of Music em 2014. Neste ano, a escola está sediando uma vasta exposição sobre o músico, na qual coloca à disposição do público parte do acervo. [Para maiores informações, clique aqui]

E, para mergulhar na vida e legado do músico, vale assistir ao documentário “Who’s Yehudi?” produzido pela BBC e disponibilizado na rede em março:





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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