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O violino criativo e sertanejo de Flausino Vale (27/11/2008)
Por Camila Frésca

Em 1908 o carioca Manuel Joaquim de Macedo [leia mais], já com mais de 60 anos, volta a viver na Bélgica para orquestrar sua ópera Tiradentes. É também nesse ano que o jovem baiano Marcos Salles [leia mais] parte para se aperfeiçoar ao violino na Real Academia de Bolonha, Itália. E é nele que o mineiro Flausino Vale, então com 14 anos, conclui os estudos de violino com seu tio, João Augusto de Campos, executando os Estudos de Paul Gaviniés e os Caprichos de Paganini. O ano é portanto um marco imaginário a ligar estes três importantes compositores-violinistas brasileiros dos quais estamos tratando.

A data serve mais como uma fotografia a mostrar o momento de desenvolvimento da carreira dos três músicos - Macedo, um artista realizado e encerrando sua veia criativa; Salles, um jovem de 23 anos que já possuía uma base considerável de estudos e se arriscava na composição; e Flausino Vale, um adolescente talentoso mas ainda inexperiente, e que após quatro anos de aulas seguiria aprimorando sua arte de forma autodidata. Muito mais forte a ligar a produção dos três é o fato de que Macedo foi o professor de violino do tio de Flausino, e que este por sua vez era amigo de Marcos Salles, com quem trocou correspondência e a quem dedicou um de seus prelúdios.

O fato de ter se aperfeiçoado sozinho é algo que viria caracterizar fortemente a obra de Flausino Vale (1894-1954). Como tenho tratado do artista em diversos artigos (clique aqui para ler o texto que publiquei na edição de janeiro/fevereiro de 2008 da Revista CONCERTO), vou me ater aqui menos aos dados biográficos e mais a duas características de sua obra que se entrelaçam: a criatividade da técnica violinística aplicada a melodias sertanejas.

O mais importante conjunto de obras de Flausino são os 26 prelúdios característicos e concertantes para violino só, escritos de 1922 até sua morte. São pequenas peças de alta dificuldade técnica, que a todo momento fazem referência ao universo popular-rural, como a viola caipira (no prelúdio "Viola destemida", entre outros), festividades ("Folguedo campestre", "Viva São João" ou a quadrilha "Ao pé da fogueira"), animais ("Asas inquietas" e "Tico-tico", esta dedicada a Salles) ou então por meio da utilização de melodias folclóricas. As peças procuram caracterizar o que é expresso nos títulos a partir de procedimentos imitativos.

Procurar imitar sons da natureza ou determinadas situações é algo bastante recorrente na literatura internacional do violino. Quem teve a oportunidade de ver o recente recital de Shlomo Mintz em São Paulo pôde comprovar isso quando ele interpretou A ronda dos duendes, peça célebre de Antonio Bazzini, ou ainda ouvindo o "canto dos pássaros" nos concertos das Quatro estações, de Vivaldi.

Pois Flausino Vale fazia o mesmo em suas peças. No entanto, provavelmente por não possuir uma técnica tradicional sólida - mas tendo um grande talento natural - criava as soluções que lhe pareciam adequadas para atingir seus objetivos. Assim, abre o prelúdio "Pai João" pedindo uma inusitada batucada no tampo do violino ou escreve um glissando que deve ser executando com força, criando um som "sujo", que remeta a um portão em "A porteira da fazenda". Procedimentos técnicos usuais também podiam ser utilizados para se obter um resultado curioso, como um glissando descendente em harmônico que acaba num pequeno toque no tampo e sugere um fogo de artifício, ajudando a criar o clima de um "Casamento na roça".

Quase um experimentador - embora de forma involuntária - Flausino ainda se utilizou de quartos de tom ou de adaptações de técnicas alheias como o "processo da chave". Arranjando para violino solo a canção Noite feliz, ele sugere que seja colocado "um pedaço esférico ou quadrangular, de relativo tamanho, de mármore ou cristal, uma faquinha de sobremesa ou principalmente um prego", ou ainda "um pequeno caramujo, de 2 ou 3 polegadas, atrás do cavalete, por baixo das cordas" para que, ao tocar-se duas cordas simultaneamente, soasse um terceiro som, grave, harmonizado com o acorde. Também desenvolveu uma espécie de "glossário" de sons de animais, determinando que ritmos ou constâncias melódicas numa peça sugeririam grilos, aranhas, siriema, perdiz, araponga ou pombinha do campo.

Toda essa riqueza de invenção pode ser ouvida nas peças aparentemente simples, melodiosas e "caipiras" que integram sua coleção de prelúdios. Apesar de embebidas pela cultura local em que Flausino cresceu, os prelúdios acabaram ganhando conotação universal ao despertar o interesse de alguns dos mais importantes violinistas do último século, como Jascha Heifetz, Itzhak Perlman e Isaac Stern.

Os leitores podem conferir na seção Podcast 15/11/2008 [clique aqui] dois destes prelúdios - "Repente" e "Batuque" - numa gravação de 1932 que ainda evidencia o intérprete altamente virtuoso que foi Flausino Vale. Ainda haveria muito o que falar sobre obra e autor, mas para não mais me alongar paro por aqui. Sugiro porém aos que desejem saber mais sobre o compositor uma consulta ao excelente site do violinista e professor mineiro José Maurício Guimarães [clique aqui].





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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