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O grande “Anão” (24/8/2016)
Por Jorge Coli

Nelson Kunze, o diretor desta revista, publicou uma crítica sobre O anão, de Zemlinsky. Foi severo.

Eu, por mim, ao contrário, saí atordoado com a qualidade musical. Já me servi várias vezes da palavra “milagre” para qualificar as atividades do Theatro São Pedro. É que, a cada vez, as apresentações me impressionam, sempre melhores. Milagre, proeza, porque tudo é feito com a miséria que a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo concede a sua programação, um orçamento ínfimo e indigno. Mas o que falta em dinheiro sobra em entusiasmo e competência. A liderança de Luiz Malheiro, a personalidade de Paulo Esper e a fibra de todos os que trabalham ali, concorrem para criar uma atmosfera de colaboração harmônica e de prazer sincero.

A Academia de Ópera, formando jovens cantores, associa-se ao o elenco estável, entrosando-se em verdadeira equipe. Os espetáculos se sucedem em revelações surpreendentes.

Foi assim com O anão, de Zemlinsky, ópera bem rara e muito difícil. As soluções cênicas de William Pereira mostravam-se econômicas, mas razoavelmente eficazes. Talvez os figurinos pudessem ter sido mais cuidados: havia mistura de século 19, 18, com golinhas fraise para lembrar um pouco século 16 ou 17: uma salada destinada a simular um “antigo” sem ponto de referência no tempo, supondo que o público não vá notar mesmo esses descompassos. As perucas, em particular, eram bem feias, bem detestáveis.

Talvez também o cuidado com a direção de atores pudesse ter sido maior, embora as movimentações de grupo funcionassem bem. Somenos, no entanto, essas implicâncias minhas, pequenos senões largamente compensados por uma execução musical impecável e de altíssimo nível.

A partitura de Zemlinsky é um esplendor, mas é também de grande dificuldade. Ora, o que se ouviu foi uma interpretação bem próxima do ideal. A orquestra, dirigida por André dos Santos (espetáculo do dia 21 de agosto), precisa, transparente, intensa, expressiva, ofereceu uma alta ideia de suas capacidades.

Os cantores foram dignos dos melhores teatros profissionais. Foi um regalo ouvir as três servas, Raquel Paulin, Marli Montoni, Andreia Souza, tanto pela qualidade das vozes quanto pelo entrosamento demonstrado. Gustavo Lassen afirmou a autoridade de Don Esteban, o mordomo, e Raissa Amaral personificou uma Ghita, a dama de companhia, com sensibilidade terna e voz precisa.



A soprano Maria Sole Gallevi, como Dona Clara, a infanta [foto: divulgação / Heloisa Bortz]

Os protagonistas levaram o público ao delírio. Maria Sole Gallevi, jovem, bonita, tem em seu canto precisão, alcance e, ainda mais, uma cor dourada e fresco. Era impressionante ouvir como os sons que emitia se projetavam na sala do São Pedro com grande presença, sem nunca perder a beleza do timbre.



Mar Oliveira, o anão da ópera de Zemlinsky [foto: divulgação / Heloisa Bortz]

Mar Oliveira encarnou o mais tocante Anão que se possa imaginar. A plasticidade de seu fraseado, o espantoso poder que possui em nuançar com perfeita musicalidade, seus dotes de ator (o personagem exigiu que ele cantasse de joelhos!) mereceram largamente os bravos entusiastas do público. Ele foi convincente, comovente, doloroso.

Dois grandes artistas.

Uma coisa bonita: o Theatro São Pedro e sua Academia não formam apenas cantores. Formam público também. Para uma ópera tão rara, tão confidencial, podia se esperar a deserção. Ora, o teatro estava cheio: é que o público se habituou a confiar nos espetáculos ali oferecidos. Bom constatar, entre os velhos amadores de ópera, quantos jovens estavam ali, ávidos por descobrir essa obra! Reparei em algumas crianças que seguiam o espetáculo com atenção fixa, imóveis, sem um ruído sequer. Talvez seja este o melhor cumprimento que se pudesse oferecer a toda equipe!

[Clique aqui para ler também a crítica de Nelson Rubens Kunze]





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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