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Notas cariocas (7/11/2016)
Por Jorge Coli

Lo Schiavo, no Rio de Janeiro, fez unanimidade. A música de Carlos Gomes pôde revelar toda sua grandeza sob a batuta do Maestro Roberto Duarte e a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, que deu o melhor de si. Os protagonistas masculinos Iberê e Americo foram interpretados por Rodolfo Giuliani e Fernando Portari. Ambos são familiares dos papéis, e os levaram, nessa récita a que pude assistir, dia 26 de outubro, a um grau de excelência verdadeiramente excepcional.

Portari ofereceu a seu Americo a beleza de seu timbre, os pianíssimos mais suaves, a musicalidade admirável que lhe é própria. A voz amadurece, adquire uma cor dourada, e seu instinto dramático tornou denso esse personagem jovem e frágil.


Cena da ópera Lo Schiavo [Divulgação / Júlia Rónai]

Rodolfo Giuliani que, salvo erro de minha parte, cantou seu primeiro Iberê no Festival Amazonas de Ópera, em 2010 (digo salvo erro, porque o Operabase desse notável artista, que tem percurso internacional, está inteiramente desatualizado e ele sequer possui uma página própria na Internet! Impossível controlar). Sua interpretação foi marcante. Lo Schiavo cresce em força nos dois últimos atos, quando se centra nos conflitos de Iberê e o conduz ao supremo sacrifício. Giuliani tornou a eloquência romântica dos versos, da música, perfeitamente convincente, e a verdade do personagem se impôs. Lo schiavo se configurou assim como uma exaltação da liberdade: liberdade dos oprimidos contra os opressores, liberdade do amor contra a guerra.

Adriana Querioz, se não foi a melhor Ilara possível (vibrato que se acentura, timbre áspero, ao contrário do que exige o personagem), assegurou dignamente o papel, como o fez Cláudia Azevedo na parte difícil da Condessa de Boissy. Saulo Javan, como Conde Rodrigo e Leonardo Páscoa contribuíram com grande classe para o conjunto.

Resta a montagem, que certamente foi também motivo de entusiasmo do público. Não quero estragar o prazer de ninguém, muito menos o meu próprio, que foi grande. Mas trago algumas observações.

Pier Francesco Maestrini tem uma sólida carreira internacional. Em São Paulo, foi, em 2013, o autor de três montagens francamente excelentes: Don Giovanni, Cavalleria Rusticana e Jupyra. Neste Schiavo, escolheu permanecer fiel ao princípio de um espetáculo pictural. Tudo se passou por trás das transparências no primeiro plano, que receberam projeções, às vezes animadas (cascatas, ondas, etc.), na fronteira do kitsch. Isso criava certa irrealidade pictórica nas cenas. A referência à pintura afirmou-se desde o primeiro ato, que evocava a Primeira missa no Brasil de Victor Meirelles.

Com estas escolhas, Maestrini vinculou-se assim às montagens do século XIX, não apenas por ser “de época”, mas por instaurar um teatro da ilusão e do maravilhoso, com efeitos aparatosos, como exige o gênero do “Grand Opéra”, ao qual Lo schiavo pertence. Mas vinculou-se também à tradição menos desejável de largar os cantores por conta própria, sem dar grande importância à direção de ator, permitindo gestos convencionais e sem força.

Os cenários tiveram momentos felizes, e menos felizes. Saturação um pouco confusa de projeções no ato de Niterói, falésias calcárias incongruentes, irlandesas, no último ato. A Alvorada fez o sol nascer, como se deve, mas a noite voltou imediatamente depois!

São pecadilhos, no entanto. Carlos Gomes foi dignamente celebrado no Rio .

******

Muito menos digna é a situação da Orquestra Sinfônica Brasileira. Como se sabe, com rombo financeiro e desamparada, ela cortou muitos concertos de sua temporada de 2016. Voltou ao Municipal do Rio no dia 28, para uma apresentação, tirando dinheiro de onde pôde, neste caso o Bradesco. Mas a miséria é tanta que não houve sequer recursos para transportar os instrumentos da Cidade das Artes na Barra da Tijuca, e os músicos da Orquestra Sinfônica Municipal tiveram que emprestar seus instrumentos para os colegas da Brasileira! Com generosidade, o brilhante pianista Cristian Budu renunciou ao seu cachê, e também o compositor Rodrigo Ciccheli, que renunciou aos direitos autorais para a estreia de obra sua (“À Noite, um Homem Sozinho Procura se Recordar”). Budu tocou uma peça apenas para piano – Arabesque e, nas condições em que estava, a orquestra fez o melhor que pode no concerto de Schumann e na quarta de Brahms, regida pelo juveníssimo maestro Lee Mills. Bravos a todos pelo espírito de resistência, e grandes vaias para os responsáveis desse estado miserável de coisas.

[Leia também o texto de Nelson Rubens Kunze sobre a ópera Lo Schiavo.]





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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