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Pego no contrapé, o fenômeno Golijov curte um estranho silêncio criativo (1/12/2016)
Por João Marcos Coelho

Sempre fiquei muito intrigado com as histórias de silêncios criativos de compositores. Por que o sujeito para de repente de compor? Sinuca estética? Não sabe para onde ir?

O exemplo mais notável, claro, e que vocês já sacaram, é o do finlandês Jean Sibelius (1865-1957). Depois de escrever sete sinfonias e conquistar uma glória ambivalente – o mundo anglo-saxão o amava de paixão, os europeus o detestavam –, Sibelius curtiu um constrangedor silêncio criativo. O crítico do New York Times na época, Olin Downes, era seu fã de carteirinha e repetiu-lhe centenas de vezes a pergunta sobre a oitava sinfonia, que jamais se concretizou.


Osvaldo Golijov [Divulgação]
 
Algo parecido pode estar acontecendo com o compositor argentino Osvaldo Golijov, hoje com 55 anos. Ele surgiu, 40 anos ainda incompletos, como um meteoro superbrilhante no começo dos anos 2000, com uma arrebatadora Pasión segun San Marcos, uma das obras contemporâneas encomendadas na Alemanha para marcar a passagem dos 250 anos da morte de Johann Sebastian Bach. Dominou a cena contemporânea nos Estados Unidos. Passou a ser rapidamente um dos compositores mais requisitados para encomendas de obras, ganhou o seletíssimo prêmio MacArthur. Glória rápida e fulminante.

Pra vocês terem uma ideia, naquele período um pool de 35 orquestras sinfônicas se juntou, Osesp inclusive, para encomendar uma obra ao Hermano, que fez muito sucesso, fazendo uma mistura ralinha, ralinha, de música bem comportada com toquezinhos populares. Em 2011, entretanto, ele literalmente sumiu do mapa. Acusado de plagiar uma obra de terceiros, foi logo em seguida flagrado copiando uma melodia de “dois grandes compositores populares brasileiros vivos”, num quarteto de cordas supostamente novo e seu, por Lúcia Guimarães, correspondente do Estadão em Nova York. Superelegante, Lúcia não deu nome aos bois. Mas Alex Ross, na New Yorker, e o New York Times, entraram na parada. E Golijov sumiu – e parou de compor.

Nos últimos cinco anos, só aparecia virtualmente, para cancelar encomendas previamente recebidas. E adiar a ópera encomendada pelo Met. Ano passado, estreou no Festival de Tanglewood uma peça para violoncelo e cordas curta, pouco mais de 10 minutos.

E esta semana ele desistiu de vez da ópera. Ou melhor, o Met parece ter se cansado de esperar a ópera anunciada para a temporada 2018/19. “Conflito de agendas” foi a única explicação oficial do Met. “Conflito artístico”, foi a explicação do compositor.

Ao que tudo indica, o prodígio porteño seguirá um caminho silencioso daqui para a frente. Saudades de umas poucas obras do seu passado recente, como “Ainadamar” e Last Round para noneto de cordas, de 1996, obra que cheira demais a Piazzolla, mas tudo bem. E só. É pouco. Será que é tudo que Golijov tem a dizer como compositor?





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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