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E Cristian Budu, finalmente, tocou com a Osesp! (21/4/2017)
Por Irineu Franco Perpetuo

Demorou, mas enfim aconteceu. Três anos e meio depois de vencer o Concurso Clara Haskil, na Suíça, no já distante setembro de 2013, o pianista paulista Cristian Budu finalmente tocou com a principal orquestra de seu Estado – a Osesp.

Sim, ele já tinha se apresentado com a Orquestra de Câmara da Osesp, regida por Valentina Peleggi, em outubro do ano passado – em um ingrato domingo, que coincidia com as eleições municipais. Porém, com a sinfônica propriamente dita, a estreia foi agora, em abril de 2017. Tanto que o programa distribuído na Sala São Paulo afirmava, peremptoriamente: “primeira vez com a Osesp”. Não custa lembrar que, em 2014, logo após Cristian ganhar o Clara Haskil, a orquestra fez uma turnê nacional com um jovem pianista – a saber, o russo Dmitri Mayboroda, que tinha acabado de ser derrotado pelo brasileiro no certame suíço. Enquanto isso, no mesmo ano, a sempre atenta Filarmônica de Minas Gerais apresentava Budu a seu público, sob regência de seu regente titular, Fabio Mechetti. Afinal, iam-se 20 anos desde que um pianista brasileiro não vencia um concurso internacional desta magnitude – o último tinha sido Ricardo Castro, em Leeds, em 2013.

Pianista Cristian Budu [divulgação]

Mas, enfim, chegou a hora de Cristian tocar com a Osesp. Para esse encontro tão inexplicavelmente adiado, muita gente queria ouvi-lo a interpretar a obra que executou na final do Clara Haskil – o Concerto para piano e orquestra de Schumann, que ele tocou com a OSB, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em outubro do ano passado. Se as negociações com o selo Claves derem certo, é até possível que Budu grave este concerto com a orquestra paulista. Para seu début, contudo, a Osesp decidiu que ele deveria mostrar suas qualidades em um repertório raro.

O primeiro item era Mozart, mas um Mozart programado com bem pouca frequência: o Rondó em lá maior, KV 386. Antes de soar a nota inicial, a boa surpresa foi ver a Osesp adequadamente reduzida – no passado, havia ocasiões em que o palco da Sala São Paulo, na execução de obras do século XVIII, ficava tão atolado de gente como se fossem tocar uma sinfonia de Mahler.

O estilo clássico não apresenta dificuldades para Budu, que se desincumbiu da floreada escrita mozartiana com graça, senso de estilo e atenção aos ornamentos. Camerista por excelência, buscou o tempo todo interagir com a orquestra e o maestro Robert Treviño.

Após a breve criação mozartiana, outro mundo sonoro: Francisco Mignone (1897-1986), cujo 120º aniversário de nascimento é celebrado em 2017. A escolha recaiu sobre a Burlesca e Toccata, que a Osesp está gravando com Cristian. Escrita em 1958, a obra foi estreada apenas em 1975, por José Carlos Cocarelli, com a Orquestra Sinfônica Nacional, regida por Vicente Fittipaldi. A performance desses artistas está no YouTube [clique aqui para ouvir] e consta do CD A Orquestra Sinfônica Nacional interpreta Mignone e Gnattali, lançado pela Rádio MEC em 2006.

Com 15 minutos de duração, a obra emprega uma linguagem curiosamente híbrida: sua Burlesca (originalmente intitulada Passacaglia) começa com um tema dodecafônico, e traz uma atonalidade não muito comum de ouvir no compositor, enquanto a Toccata está vazada em um idioma “nacional” ao qual mais habitualmente o associamos.

De Mozart para Mignone, o salto estilístico é grande, e isso se podia notar não apenas nas dimensões da orquestra, como no próprio ajuste da altura do banco do piano. Antes de iniciar sua performance, Budu mexeu no assento, justificando: “aqui precisa de mais força”.

E quem não estivesse vendo, mas apenas ouvindo a apresentação, diria que um outro pianista tinha subido ao palco. Demonstrando versatilidade, Cristian deixou no camarim o pianista clássico, com um toque quase de fortepiano, e trouxe para o palco um virtuose de sentido rítmico preciso, a um só tempo pesquisando as cores mais misteriosas e lúgubres da Burlesca e produzindo, quando requerido, um volume sonoro capaz não apenas de não ser abafado pela sonoridade da orquestra, como de se fazer ouvir nos pontos mais acusticamente ingratos da Sala São Paulo. E, no tema de caráter nordestino da Toccata, ele demonstrou uma desenvoltura à qual talvez não seja despropositado creditar seus anos estudando com Antonio Nóbrega no Instituto Brincante.

Não parecia o programa mais destinado a arrancar arroubos do público, porém o talento superlativo e a capacidade de comunicação de Cristian levantou a plateia da Sala São Paulo e, no bis, ele homenageou novamente Mignone, com uma peça que toca com uma sutileza e uma delicadeza que talvez não tenha rivais: a Valsa de esquina nº 5.

Feitas as contas, se a Osesp tardou, e muito, Cristian Budu não falhou nem um pouco. Resta torcer para que este tenha sido apenas o primeiro de uma incontável série de encontros da orquestra paulista com esse talento musical exuberante.

[O concerto de Cristian Budu com a Osesp terá reapresentação hoje (dia 21) às 21h e amanhã (dia 22) às 16h30. Clique aqui para detalhes no Roteiro Musical.]





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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