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Professores e grandes intérpretes do violino no Brasil (26/1/2009)
Por Camila Frésca

Venho tratando neste espaço de uma tradição pouco conhecida mesmo dos amantes de nossa música: a trajetória e legado de importantes violinistas brasileiros. Por ser um assunto pouco explorado, vou me alongar nele ainda um pouco.

No mesmo período em que Marcos Salles e Flausino Vale desenvolviam suas carreiras - a primeira metade do século XX - outros tantos violinistas estavam na ativa, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nesta cidade, eles se reuniam em torno da Escola Nacional de Música (ENM), à época o mais importante polo formador de músicos no país. Um de seus professores foi Francisco Chiafitelli (1881-1954), violinista e compositor que estudou em Bruxelas com Eugène Ysaÿe. Além de lecionar na ENM de 1911 até 1946, formando importantes instrumentistas, escreveu uma série de obras para violino e piano. O italiano Ernesto Ronchini (1863-1931) é outro que permaneceu na ENM por mais de trinta anos. Foi igualmente professor e compositor, não apenas de peças para violino mas também de poemas sinfônicos e até uma ópera. A Escola Nacional de Música contava ainda, nesse período, com professores como Edgard Guerra, Nicolino Milano e Orlando Frederico.

Também merece menção os nomes de Raul Laranjeira, violinista e professor paulista; George Marinuzzi e José Martins de Mattos, professores e violinistas com importante atuação em Belo Horizonte; os irmãos Leônidas e Zacarias Autuori; Santino Parpinelli, formado pela ENM e que em 1952 fundou o Quarteto Pró-Música.

Se ao falar de Salles e Vale destacávamos, além da destreza como intérpretes, a importância das obras para violino que nos deixaram, estes outros profissionais devem ser lembrados sobretudo como professores e performers, a despeito de alguns terem também sido compositores. Aliás, há dois nomes importantíssimos quando pensamos nestas vertentes do violino no Brasil nesse período: a paulistana Paulina d'Ambrosio (1890-1976) e o carioca Oscar Borgerth (1906-1992).

Aluno de Orlando Frederico, Oscar Borgerth aos 18 anos já conquistava o primeiro prêmio da Escola Nacional de Música. Depois foi para a Europa aperfeiçoar-se, e voltando ao Brasil formou o Quarteto Borgerth, conjunto de relevância em sua época e prestigiado por público e crítica. Era apreciador de formações camerísticas, tendo integrado várias delas, e também atuou como spalla da Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e da OSB. Em 1944, ingressou na Escola Nacional de Música como professor de violino.

Violinista completo e dono de excepcional técnica, Borgerth interpretava um repertório extenso que incluía muita música brasileira, tendo estreado diversas obras a ele dedicadas. É provavelmente o violinista brasileiro que mais se destacou no exterior, despertando atenção internacional ao apresentar-se como solista da Fantasia de movimentos mistos, de Villa-Lobos, frente à Orquestra Sinfônica de Boston, regida por Eleazar de Carvalho, em 1950. A partir daí passa a ser frequentemente requisitado como solista e concertista, tocando com as maiores orquestras da Europa e dos EUA.

Também Paulina d'Ambrosio cedo mostrou incomum aptidão ao violino. Aos 15 anos partiu para a Europa para estudar no Conservatório Real de Bruxelas, na Bélgica, centro internacional do instrumento e difusor da escola franco-belga. Retornou ao Brasil em 1907, e logo voltou sua atenção para o ensino, ingressando na Escola Nacional de Música, onde lecionou por 42 anos. Manteve, embora em segundo plano, carreira como intérprete, participando da Semana de Arte Moderna, em que interpretou entre outros autores Villa-Lobos - que a considerava sua violinista predileta e a quem afetuosamente chamava de "generala de meu exército".

Segundo Paulo Bosisio, que foi seu aluno, "Paulina d'Ambrosio formou mais gerações de bons violinistas que qualquer outro professor do instrumento no Brasil (...) implantando definitivamente o que havia de mais moderno no momento, em termos instrumentais e artísticos". Tendo lecionado por mais de 60 anos, foram seus alunos, além de Bosisio, os já citados Santino Parpinelli e José Martins de Mattos, bem como Guerra-Peixe, Natan Schwartzman, Henrique Morelembaum e Ernani Aguiar.

Entre tantos alunos que orientou, Paulina d'Ambrosio foi professora de uma estrela do violino brasileiro, cuja longevidade nos serve como uma ligação entre a geração nascida até a segunda década do século XX e as posteriores, que serão abordadas em nosso próximo texto: Mariuccia Iacovino (1912-2008). Outra criança prodígio, iniciou a carreira aos cinco anos de idade, diplomando-se na ENM em 1927 com medalha de ouro. Aperfeiçoou-se na Europa, também desenvolvendo carreira internacional em que se apresentava com conjuntos de câmara - sua grande paixão - como o duo Iacovino-Estrella, formado com seu marido, o pianista Arnaldo Estrella. Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Mignone, Almeida Prado e Radamés Gnattali dedicaram-lhe obras.

De grande longevidade artística, apresentou-se dos cinco anos até pouco antes de seu falecimento, ocorrido em 16 de maio de 2008, quando contava com 95 anos. Uma pequena mostra de seu talento pode ser ouvida clicando aqui, interpretando o início da Sonata op. 14 para violino e piano de Leopoldo Miguez.

[Clique aqui e leia a parte 2 desta matéria.]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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