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A Osesp, Villa-Lobos e o “voo de galinha” (23/3/2018)
Por João Marcos Coelho

Os economistas costumam dizer que, quando um país começa a se recuperar e dar sinais de revitalização, precisamos tomar cuidado com o fenômeno, que pode não ser sustentável, ou seja, continuado – pode desembocar no chamado “voo de galinha”. Voo de galinha é curto. Agora mesmo, sem resolvermos nossos problemas estruturais, corremos este risco no Brasil.

A expressão me veio à cabeça porque ela é, infelizmente, a regra nos domínios culturais. É muito difícil, quase impossível, conceber, planejar e – sobretudo – executar do começo ao fim um projeto mais ambicioso. Trocas políticas provocam a morte de ideias ambiciosíssimas, que acabam num efêmero voo de galinha.

Por tudo isso, quando uma instituição consegue o feito de realizar um projeto de médio, longo prazo, devemos soltar muitos fogos de artifício. Justíssimos.

A Osesp protagonizou, ao longo dos últimos sessenta anos, dois dos três projetos musicais de longo alcance mais bem-sucedidos em nossa história musical: na gestão Neschling, a gravação da integral das Bachianas e dos Choros de Heitor Villa-Lobos, que a projetou internacionalmente na primeira década do século 21. Várias décadas antes, a hoje agonizante Orquestra Sinfônica Brasileira ofereceu ao mundo a primeira integral decente das Bachianas. E isso a projetou como a única orquestra brasileira de prestígio internacional da segunda metade do século 20.


Heitor Villa-Lobos [Reprodução / Biblioteca Nacional]

A cereja neste bolo, sem dúvida, é a recém-concluída integral das 11 sinfonias de Villa-Lobos. Um músico esteve presente nestes três projetos: o maestro Isaac Karabtchevsky. De novo, a Osesp, que já tinha sido chancelada pelas Bachianas e pelos Choros dos anos 2000 como tendo feito a gravação de referência deste importante repertório, agora vê renovada esta chancela de paradigma em relação às sinfonias.

A plena maturidade do maestro contou muito para o êxito artístico desta empreitada, que incluiu também a revisão crítica e edição das partituras deste monumento até agora considerado o “patinho feio” na obra caudalosa de Villa-Lobos. Elas não se localizam no período preferencial de estudo dos musicólogos brasileiros e internacionais, a década de 1920. As primeiras foram escritas antes; as demais depois de seu período mais vanguardista (e original, dizem muitos). Mas constituem um documento imprescindível para entendermos melhor nosso maior compositor. Antes disso, conhecer é a palavra certa. Agora podemos ouvir e conhecer estas sinfonias em interpretações de qualidade.

Não adianta ensaiar voos de jatos supersônicos e ciscar em terreiros alheios – como gravar as sinfonias de Prokofiev, por exemplo. Quantas integrais existem por aí? Dezenas, muitas dezenas. Quantas integrais das sinfonias de Villa-Lobos? Uma, mal e porcamente executada não por causa dos músicos regidos por St. Clair, mas porque eles sequer dispuseram de partituras decentes.

Assim, nossas orquestras deveriam pensar em projetos semelhantes de médio, longo prazo. Como a Osesp, a Filarmônica de Minas Gerais tem porte para encarar uma integral das sinfonias de Claudio Santoro. Ou então a produção sinfônica de Guerra-Peixe.

Às vezes, um voo de galinha pode ser marcante. E fundamental para uma cultura musical ainda tão desapetrechada de gravações de referência, como a nossa.

[A caixa com as sinfonias de Villa-Lobos está disponível no site da Loja CLÁSSICOS. Clique aqui para mais informações.]





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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