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Novas iniciativas para a edição de partituras no Brasil (21/5/2009)
Por Camila Frésca

Lendo o artigo de meu colega Irineu, que falou do lançamento do estojo com os três concertos para violino de Camargo Guarnieri [clique aqui para ler], me lembrei de um assunto relacionado e que parece estar ganhando mais atenção nos últimos tempos. Acho que Irineu não mencionou, mas o CD-Rom incluso no lançamento também traz as partituras dos concertos de Guarnieri editadas em finale-pdf para livre impressão e execução.

A edição de partituras de música brasileira tem sido uma questão fundamental a se resolver para a difusão de nossa música – não apenas no exterior mas entre nós mesmos. Sabe-se que hoje é impossível fazer circular uma obra que não esteja editada: as orquestras estrangeiras só tocam obras publicadas, principalmente por questão de direitos autorais. Isso, claro, sem falar na dificuldade de se ler manuscritos, que ainda têm a possibilidade muito maior de virem cheios de erros. Em conversa recente com a violinista Maria Vischnia, ela ainda me revelou outro dado curioso (na verdade, até mesmo engraçado) da desvantagem de se ter obras em manuscrito. No caso de um compositor vivo, quando uma peça não foi editada, ela está quase sempre nas mãos do próprio autor. Se um intérprete ou conjunto que está procurando repertório quer conhecê-la, tem que ir tratar diretamente com o compositor. “Acaba ficando uma situação desagradável, pois você não tem o direito de não gostar da obra; quer dizer, é chato você ir atrás de um compositor, pedir uma peça e depois não tocar. Então você tem que tocar mesmo se não gostou. Isso aconteceu algumas vezes comigo, e acabei parando de pedir aos compositores para conhecer obras não editadas”, revela a experiente artista.

Hoje, há no Brasil cerca de dez editoras que lançam partituras de música clássica, a maioria criada exclusivamente com essa finalidade. Elas se localizam nas regiões sul (Partituras E. M. Mayer & Cia, em Porto Alegre) e sudeste (In Pauta, no Rio de Janeiro, Presto e Irmãos Vitale, em São Paulo) e na cidade de Brasília (Musimed, Assunto Grave e Sistrum, do compositor Jorge Antunes). Embora muitas das grandes universidades brasileiras possuam editoras que eventualmente publiquem música, nenhuma delas têm uma linha com lançamentos regulares dedicados à edição de partituras. E o engraçado é que, se a música de concerto é maciçamente patrocinada com dinheiro público, uma expressiva parte dessas editoras são privadas, em geral pequenas iniciativas individuais – como quase todas as mencionadas acima. Elas têm uma atividade tímida, o que acaba fazendo com que a edição musical no Brasil seja bastante restrita. Há também duas editoras no exterior que têm linhas regulares voltadas para a edição de música brasileira: a Ponteio Publishing, em Nova York, criada e dirigida pelo pianista Max Barros e especializada em música brasileira; e a série Antonio Eduardo Collection, publicada pela New Consonant Music, de Bruxelas, que edita obras de autores brasileiros e é coordenada pelo pianista Antonio Eduardo.

Nos últimos tempos, no entanto, algumas iniciativas vêm colaborando para uma mudança nesse panorama. Uma delas é a editora Criadores do Brasil, da Osesp, que desde que foi criada tem lançado regularmente obras sinfônicas e de câmara de compositores brasileiros. As edições não se restringem a autores clássicos mas abordam também nomes como Zequinha de Abreu, Ary Barroso e Chico Buarque (é possível baixar o catálogo da editora por meio desse link: www.osesp.art.br/download/criadores_do_brasil.pdf).

Outra grande contribuição é a da Academia Brasileira de Música, que há alguns anos tem editado obras de câmara e sinfônica de compositores como Marisa Rezende, Mário Tavares, Nestor de Hollanda Cavalcanti e Leopoldo Miguez, entre muitos outros, num catálogo com mais de cem obras à disposição (que podem ser consultadas pela internet, em http://www.abmusica.org.br/). Mas o grande projeto da ABM no momento diz respeito a Villa-Lobos. Num acordo com a Max Eschig, que detém os direitos de boa parte da obra sinfônica de Villa, a ABM realizará uma edição crítica das peças, revisando o material – muitas vezes precário – que está nas mãos da editora francesa. A Academia oferecerá o material revisado gratuitamente para a Max Eschig, que por sua vez cederá a ela a exploração de partituras de Villa na América do Sul.

Voltando ao início desse texto, um outro meio que vem sendo encontrado por alguns para superar a dificuldade em publicar obras tem sido editar partituras junto com projetos culturais contemplados por editais de fomento à cultura. Assim aconteceu com o estojo de Camargo Guarnieri, patrocinado pela Petrobras, e assim tem acontecido com alguns outros projetos, como o “Música plural: som e diversidade pela nova geração de compositores brasileiros”, que começa a ser lançado no próximo mês e que tem entre seus coordenadores outro colega e colaborador do Site CONCERTO, o compositor Leonardo Martinelli. Também contemplado pela Petrobras, o “Música plural” vai disponibilizar a partitura (e as gravações) das quinze obras registradas em CD duplo num website a ser lançado em breve.

Considerando que o registro fonográfico de obras fica cada vez mais comprometido com a possibilidade de downloads na internet, e que isso faz com que a música executada ao vivo cresça cada vez mais em importância, essas novas iniciativas chegam num momento mais que oportuno.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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