Dois momentos: Cia. Minaz e Osesp

por Jorge Coli 28/07/2014

Ópera O basculho da chaminé, Ribeirão Preto
Uma delícia a apresentação da ópera composta por Marcos Portugal, O basculho de chaminé, pela Cia. Minaz em Ribeirão Preto.

 

A farsa é muito divertida. Foi estreada em Veneza, em 1794, na versão italiana do libreto escrito por Giuseppe Maria Foppa – que colaborava com os mais célebres compositores, entre eles Rossini – sob o título de Lo spazzacamino principe. Teve imenso sucesso, rodou por toda a Europa, conhecendo mesmo uma versão alemã (Der Schornsteinfeger Peter, oder Das Spiel des Ohngefährs) e, naturalmente também outra em português.


Cena da montagem de O baschulho da chaminé da Cia. Minaz [foto: Claudio Frateschi/divulgação]

Depois, caiu no esquecimento. Alceo Bocchino gravou alguns trechos dessa ópera na fabulosa coleção de LPs lançada pelo selo Angel/Odeon nos anos de 1960 intitulada Música na corte brasileira, riquíssima de preciosidades esquecidas – o que se está esperando para publicar essa coleção na íntegra em CD?

Retornou ao palco recentemente, com montagens na Itália e em Portugal. No Brasil foi retomada no ano passado graças à Cia. Minaz, em Ribeirão Preto, que repete agora o espetáculo.

A música é inventiva, cheia de vivacidade (ouça aqui o dueto entre Pieroto e Rosina, gravação ao vivo da representação em Ribeirão Preto, com Gabriel Locher e Mariana Cunha), toda digna de interesse.

Além disso, há uma importância suplementar. Marcos Portugal veio ao Brasil em 1811, ao apelo do príncipe regente Dom João. Foi rival de José Maurício na corte, professor do príncipe Dom Pedro – que era compositor mais que honroso (ouça aqui sua Abertura Independência) –, marcou a música que se fazia então nestas paragens, e é parte legítima da cultura brasileira. Morreu no Rio de Janeiro, em 1830.

A apresentação pela Cia. Minaz, repleta de energia e de entusiasmo, em montagem muito engraçada, empregando cantores ágeis, soube contaminar o público com o humor que a obra demanda. Foi um prazer suplementar ouvi-la no Teatro Minaz, antigo cinema adaptado para teatro, com impecável acústica, no qual o espectador se sente acolhido, confortável, e assiste ao espetáculo em condições perfeitas.

A Cia. Minaz, que tem mais de uma década, é um milagre: mantém viva no interior do estado de São Paulo uma programação musical de alto nível, sem excluir a ópera, gênero complexo, trabalhoso e caro, mas no qual a ela investe com tenacidade e vibração.

 


 

Basculho de Chaminé, de Marcos Portugual
2º Festival de Ópera de Ribeirão Preto, dia 11 de julho
Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto
Regência: Ricardo Bernardes
Elenco: Gabriel Locher (Pieroto ), Mariana Cunha (Rosina)
Direção musical: Ricardo Bernardes
Direção Cênica: André Cruz
Cenários e Figurinos: Núcleo de Montagens da Cia. Minaz

 


 

 

Osesp, São Paulo
No dia 18 de julho, a Osesp, sob direção de Marcelo Lehninger, estreou uma obra de Ronaldo Miranda, Variações temporais. Sou amigo, e fui parceiro de Ronaldo Miranda como libretista de sua ópera O menino e a liberdade. Mas não é minha admiração humana pelo compositor que me deixou seduzido pela qualidade de sua invenção, tão rica e tão fina ao mesmo tempo. Nesta sua obra mais recente, Miranda lembrou Beethoven por meio de algumas citações, inserindo-o com finura em seu mundo sonoro. Tais ecos pareciam ter algo de proustiano, de remoto, mas presente, dissolvidos na orquestra sedosa, que se alteia por vezes quando animada pelo emprego muito pessoal das percussões.


Marcelo Leningher e Kirill Gerstein com a Osesp na Sala São Paulo [foto: divulgação]

A composição foi saudada com entusiasmo pelo público. Julgue por você mesmo, ouvindo-a aqui.

Às Variações temporais seguiu o Concerto para nº 1 de Lizst, encarnado no virtuosismo do pianista Kirill Gerstein, de 35 anos, cuja carreira tem-se desenrolado nos termos mais brilhantes. Gerstein, que nasceu na antiga União Soviética, de pais judeus, é hoje cidadão norte-americano. Ouça aqui seu toque enérgico e firme no Carnaval de Schumann.

Enfim, na Pastoral, de Beethoven, Marcelo Lehninger desencadeou uma veemência que até então vinha contida.

 


 

Temporada 2014 da Osesp
Dia 18 de julho
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marcelo Lehninger, regente
Kirill Gerstein, piano
Programa: Variações temporais – Beethoven revisitado, de Ronaldo Miranda (encomenda Osesp, estreia mundial); Concerto para piano nº 1 de Franz Liszt; e a Sinfonia nº 6, Pastoral, de Beethoven

 


 

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