O balanço de um ano que não parece ter terminado

por João Luiz Sampaio 30/12/2015

Passei os últimos dias tentando escrever este último texto do ano, uma retrospectiva da ópera brasileira em 2015. É uma pauta inevitável e, vá lá, um exercício de reflexão interessante. Mas chegou o Natal, o Ano Novo vai se aproximando. E nada do texto ganhar forma. Uma, duas, três, quatro versões. Nada. Enfim, acontece. E dessa vez acho que entendi o motivo: talvez seja complicado fazer a retrospectiva de um ano que, no final das contas, não acaba amanhã. No cenário da ópera brasileira, de alguma forma, 2015 só terminará em 2016. Ou 2017, 2018…

 


Em sentido horário os teatros Municipal do RJ, São Pedro, Municipal de SP e Amazonas [imagens: divulgação] 
 
O ano começou com o cancelamento do Festival Amazonas de Ópera. O evento, há quase 20 anos, é um dos pilares da temporada lírica brasileira, serviu de base para o nascimento de uma vida musical em Manaus, incluindo a formação de uma nova geração de artistas; no palco, abrigou montagens importantes – seja pela qualidade da execução, seja pela diversidade de repertório. É, enfim, por tudo isso, um daqueles eventos que imaginávamos consolidado. E simplesmente não aconteceu, seja por verbas, seja pela antipatia do governador ao gênero. Mas a boa notícia é que ele voltará ao calendário, promete o governo do Amazonas. Em 2016.
 
Em São Paulo, o Theatro Municipal abriu 2015 colocando montagens interessantes sobre o palco, em especial Um homem só, de Camaro Guarnieri, e Eugene Onegin, de Tchaikovsky. Mas o tempo passou e, no segundo semestre, começaram a chegar as más notícias. A primeira foi o cancelamento de parte da temporada, deste e do próximo ano, por conta da falta de verbas de patrocínios; a última, a investigação sobre um suposto desvio de quase R$ 20 milhões, que recai por enquanto sobre o ex-diretor da fundação José Luiz Herencia. Ainda que o teatro tenha avançado em quesitos como a contratação via CLT de seus corpos estáveis, 2015 evidenciou um fato: a proposta de um novo paradigma institucional, anunciada em 2013, parece ainda bem distante e empalidece, ao menos neste instante, qualquer avanço artístico. Mas o teatro tem profissionais capacitados e um novo diretor geral. E, se for capaz de atacar com transparência questões como a problemática relação entre fundação e organização social, o Municipal pode ganhar no longo prazo um outro tipo de estrutura, integrada a um projeto artístico menos personalista, ou ao menos apontar um caminho nessa direção. Os próximos passos serão decisivos. Em 2016.
 
Já o Municipal do Rio concorre fortemente ao posto da boa notícia do ano, com a chegada de João Guilherme Ripper à presidência da fundação e de André Cardoso à direção artística do teatro. Em um mês, desenhou-se uma temporada como há muito não se via por lá. Não se tratou apenas de quantidade, mas principalmente do fato de que ela foi construída a partir de parcerias com outros palcos e dentro de uma ideia de que o Municipal precisa começar a produzir para compreender como se pode forjar uma nova – e mais saudável – lógica interna de trabalho. Boas notícias, todas elas, o que justifica certa euforia. Mas se há um lastro, dentro do governo do estado do Rio, para que esse seja um trabalho estruturante, a longo prazo, ainda não está claro. Será preciso aguardar. E acompanhar de perto como a estrutura arcaica do Municipal reage a uma tentativa de mudança de paradigma. Em 2016.
 
Um dos planos do Municipal do Rio é a criação de um Academia de Ópera. Em 2015, o Municipal de São Paulo também criou o seu Ópera Studio – e o Theatro São Pedro ampliou as atividades de sua academia. Os resultados obtidos até agora por esses projetos também fazem deles fortes concorrentes à boa notícia do ano. Até porque pela primeira vez nossas instituições produtoras de ópera começam a entender a formação como sua responsabilidade – o que, por si só, já sugere um olhar mais amplo a respeito de sua função e importância. Mas como será a ligação dessas escolas com os palcos a que pertencem? Mais: a profissionalização da formação nos levará a uma outra questão, que se tem evitado de forma inexplicável, que é a busca de alternativas e projetos que tenham como o objetivo a ampliação do mercado operístico no Brasil? É um caminho que deve começar agora. Em 2016.
 
Tudo bem, 2015 não foi um ano fácil para ninguém. Então, vamos deixar de lado essa história de que ele não termina amanhã às 23h59. No fundo, esse exercício de retrospectiva serve para relembrar que a ópera brasileira precisa parar de viver de ciclos, de projetos que nascem e desaparecem com a mesma facilidade, entregando projetos artísticos ricos e interessantes, mas sem lastro institucional que ajude a inserir o gênero de modo mais natural no cenário cultural brasileiro. Ainda que nos debates das redes sociais – e também em alguns fora delas –, a memória soe sempre seletiva e benevolente quando se olha o passado, é preciso ter a honestidade intelectual de reconhecer que, nos últimos 20 anos, ainda que sobre o palco tenhamos vivido grandes momentos, nos bastidores ainda não se encontrou uma forma de lidar com estruturas de trabalho atrasadas e resistentes à mudança.

Enquanto a ópera brasileira seguir correndo atrás do próprio rabo, não conseguirá levantar a cabeça para vislumbrar o mundo que existe lá fora. Um mundo complicado, em transformação, que não sabemos para onde vai, é verdade. Mas com o qual a ópera, em toda a sua complexidade, pode se relacionar – em especial se artistas, projetos e instituições dialogarem de verdade. E repensarem a urgência do presente à luz de um futuro possível e necessário. Veremos.
 
Até ano que vem.

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