Alcina: O Barroco Contra-Ataca

por João Luiz Sampaio 03/07/2018

Na porta do Theatro São Pedro, durante o intervalo da ópera Alcina, de Händel, dois jovens do público conversavam animadamente sobre o que acabavam de assistir. “É aí que entra o Anakin.” “O barbudinho?” “Não, se bem que poderia ser, mas talvez seja o que chega com o cara que parece o Obi Wan.” “Aquela outra não lembra a Rainha Amidala?” Pausa. “Eu estou adorando a música também.”

Talvez seja preciso ter, como os dois, familiaridade com as situações da série Star Wars para estabelecer paralelos entre os filmes e os figurinos de Fábio Namatame para a produção dirigida por William Pereira de Alcina, que narra a história da feiticeira que transforma seus ex-amantes em feras e de Bradamante, a heroína que parte em busca de seu amor Ruggiero, antes que ele receba destino semelhante.

Não é o meu caso. Mas talvez o recurso sirva a um outro propósito: reforçar na mente do público a ideia de que estamos no espaço – não para encontrar entre as estrelas uma linearidade narrativa e sim para ressaltar que, nesta história de amor e ciúmes, não há tempos ou locais exatos, apenas sensações e emoções que, contrastantes, podem simbolizar mundos internos dos mais diferentes.

É um ponto de partida que neste caso se reforça pela própria ausência de indicações precisas no libreto a respeito do tempo e do espaço da ação. E pela própria natureza dessa representante do estilo barroco que é Alcina: a sequência quase ininterrupta de árias parece sugerir um senso de evolução dramática ou de narrativa pouco relacionada à ação em si, uma ação que menos do que provocar o sentimento intenso dos personagens, parece ser resultado deles. É a somatória desses sentimentos, que vão sendo apresentados um a um, ora se combinando, ora se afastando, que vai dando consequência ao que se vê no palco.

Cena da ópera Alcina no Theatro São Pedro [Divulgação / Sergio Ferreira]
Cena da ópera Alcina no Theatro São Pedro [Divulgação / Sergio Ferreira]

Estamos também nesse sentido em um mundo diferente, que pouco tem a ver com a ideia de evolução dramática do repertório do século XIX, que tanto impacta nossa sensibilidade. E dar forma a ele é o grande desafio do diretor, desafio que William Pereira encara com imaginação e preciosa carpintaria teatral.

A começar pelo cenário, uma enorme caixa branca, pontuada por todos os lados por formas simétricas, resultando em um senso de ordem que potencializa a intensidade e a força dos sentimentos – e nela coloca o foco da ação, fazendo também um uso sutil e quase coreográfico das cores. Outro aspecto importante diz respeito à direção de atores, à atenção ao gesto quase estilizado e ao posicionamento, em boa parte das árias, dos solistas como parte de um quadro mais amplo, em diálogo com os demais personagens sobre o palco. Recursos como esses dão fluidez e variedade ao espetáculo, o que é particularmente importante em Alcina, onde, como aponta Lauro Machado Coelho, em A Ópera Barroca Italiana, a ação se resolve já no segundo ato – neste sentido, por sinal, é interessante a ideia de inserir o intervalo logo após a primeira grande ária de Alcina, deixando parte da resolução para a segunda metade do espetáculo.

Mas de pouco valeria o discurso narrativo fluente da encenação se a direção musical não seguisse ao seu lado, retratando as emoções descritas e trabalhando de maneira sensível a evocação de coloridos e contrastes por meio dos quais tudo aquilo que acontece no palco ganha de fato vida. Não se trata só da capacidade de Luis Otávio Santos de criar paisagens sonoras para cada ária, extraindo uma sonoridade especial da Orquestra do Theatro São Pedro; mas, junto a isso, de trabalhar as repetições de forma a ampliar o significado do texto. Em uma leitura como a dele, Alcina é quase uma aula a respeito dos caminhos que regem a união entre palavras e sons – o que só reforça a importância da presença do barroco nas nossas temporadas como parte de uma compreensão mais ampla do que é a ópera.

E há, claro, o elenco. Alcina tem um significado especial para a soprano Marília Vargas. Em uma entrevista, ele comentou que, ao ser chamada para a produção, imaginou cantar o papel de Morgana. “Quando Luis Otávio falou que era para a Alcina, levei um susto”, ela conta. O susto vem da percepção a respeito da própria evolução e maturação da voz, que abre a ela uma nova gama de papéis e repertórios, desafio para o qual sua Alcina, tomada de humanidade e presença musical, mostra que ela está pronta. Carolina Faria, por sua vez, constrói uma Bradamante tocante, feita de introspecção, de tensão dilacerante no gesto e no olhar até o momento em que, em “Crudel, tu mi discacci”, ela começa a se revelar em seus questionamentos mais íntimos. Já o tenor Caio Duran soube com habilidade encontrar o tom correto para Oronte, com uma urgência que não sacrifica o cuidado com o texto, assim como Norberto Seidl emprestou autoridade a Melisso e Thayana Roverso fez de Morgana uma personagem tão ingênua quanto contraditória. Em um elenco como esse, fez falta ao contratenor David Feldman maior cuidado com a articulação do texto e, cenicamente, a habilidade de estabelecer um arco de transformação que, nas mãos de um grande intérprete, pode fazer de Ruggiero quase um protagonista.