Antonacci brilha em ótimo concerto da Osesp

por Nelson Rubens Kunze 03/07/2018

A soprano italiana Anna Caterina Antonacci demonstrou, no concerto com a Osesp, porque é uma das grandes cantoras da atualidade: emissão homogênea em toda a extensão de seu amplo registro e um timbre muito característico, de rara beleza, aliados a uma interpretação cuidadosa e consciente fizeram de suas intervenções momentos culminantes da apresentação da última sexta-feira, dia 29 de junho. Na primeira metade do programa, Antonacci cantou A morte de Cleópatra, de Hector Berlioz, escrita em 1829. Berlioz tinha 26 anos e compôs a obra em sua terceira tentativa para vencer o cobiçado Prix de Rome, mas Cleópatra foi rejeitada pelo júri; só no ano seguinte Berlioz acabou conquistando o prêmio, aí então com uma obra bem mais convencional, hoje esquecida. A “cena lírica” A morte de Cleópatra é uma bela partitura, com uma consistente construção retórica e inspirados trechos orquestrais. Foi espetacular a interpretação da cantora solista, contando o destino fatal da rainha com grande sensibilidade dramática.

Anna Caterina Antonacci [divulgação]
Anna Caterina Antonacci [divulgação]

Na segunda parte do programa, Antonacci voltou para cantar a canção A cativa, também de Berlioz, baseada em poema de Victor Hugo. A breve peça foi escrita em Roma, em 1833, justamente quando o compositor aí residia por conta do Prix de Rome. Em interpretação emocionante, a artista soube realçar o aspecto lírico e introspectivo da obra, que tem um caráter totalmente diverso do da anterior. A qualidade artística de Antonacci (que já havíamos testemunhado em suas apresentações de 2015, quando cantou na Sala São Paulo em promoção do Mozarteum Brasileiro) se evidencia na naturalidade com que canta, com seu timbre por vezes áspero, por vezes límpido, por seus vibratos de grande expressividade e pelo esmero de sua articulação. A ótima participação de Anna Caterina Antonacci no concerto foi potencializada por um desempenho muito bom da Osesp, dirigida com grande sensibilidade – e em perfeita interação com a solista – pela maestrina titular Marin Alsop.

O concerto já estava ganho, mas as obras apresentadas sem a solista mostraram uma Osesp em grande noite. Alsop regeu Don Juan, de Richard Strauss, e, na segunda parte, uma delicada orquestração de Clair de Lune, de Debussy, e a Suíte nº 2 de Daphnis et Chloé, de Maurice Ravel, esta acompanhada pelo Coro da Osesp. Foi um festival de cores e texturas com toda a energia e sofisticação que as obras exigem – das explosões sonoras de Strauss às paisagens impressionistas de Ravel. Equilibrada nos naipes e com grande virtuosismo instrumental – com destaque especial para a flautista Cláudia Nascimento em sua competente execução dos difíceis solos no Daphnis et Chloé –, a Osesp teve ótimo rendimento.

Para além do desempenho artístico, vale notar que desta vez a Osesp acertou na escolha do repertório. Confesso que entrei meio incrédulo pela junção de Strauss, Berlioz, Debussy e Ravel, mesclando poema sinfônico, “cena lírica”, orquestração, canção orquestral e uma suíte de dança. Mas o resultado foi redondo e absolutamente convincente, com um programa instigante e emocionante. Uma grande noite musical!