Diário de viagem

por Jorge Coli 16/01/2017

Paris, 22 de dezembroIphigenie en Tauride de Gluck na Ópera de Garnier. Depois da inauguração do teatro da Bastilha (1989, arquiteto uruguaio Carlos Ott), ficaram relegadas obras do século 18, ou anteriores, à magnífica sala de Garnier iniciada em 1861. Ou seja, aquelas que pedem recursos discretos. Contrassenso, porque o edifício de Garnier foi concebido para abrigar as pompas do Grand Opéra, como as de Os Huguenotes ou Aida. Hoje, estabeleceu-se uma nova escala. No velho teatro, produções íntimas; no outro, moderno, os efeitos espetaculares.

É assim que Iphigenie, datada de 1779, ressurgiu entre os veludos e ouros do teatro antigo. A protagonista, Véronique Gens, é uma das cantoras mais requintadas de nosso tempo. A voz, luminosa, se exprime em musicalidade fina. Perfeito sentido do teatro. Foi secundada por brilhante elenco, e Betrand de Billy regeu com a eloquência dramática que a música exige.

A montagem retomou uma produção de 2006. O diretor de cena é Krzysztof Warlikowski, polonês. A concepção foi vaiada há 10 anos, hoje ninguém mais se importa. Tudo se passa num asilo de velhas, que vão e vêm. Detalhes da música e da tragédia não mereceram a atenção do diretor. Aqui e ali, momentos fortes. Em todo caso, por felicidade, Iphigenie não atingiu o nível de indignidade do Rei Roger, de Karol Szymanowski, que o mesmo Warlikowski inventou, em 2009, no teatro da Bastilha.

Não se pode ir à sala Garnier sem visitar a Pítia, em sua caverna debaixo das escadarias. Bronze de tamanho natural, é uma sublime escultura. Sua autora foi Adèle d’Affry, condessa de Castiglione Colonna, “leoa” na corte de Napoleão III. Tinha Marcello como pseudônimo.

Paris, 23 de dezembro. Na ópera da Bastilha, Cavalleria Rusticana, de Mascagni. Requintes insuspeitados na regência de Carlo Rizzi para uma partitura que já foi tão brutalizada. Bela distribuição, montagem original, eficaz e bonita de Mario Martone. Poucos cenários. Durante a ação, ocorre um ofício religioso no fundo do palco. Martone cria um clima de repressão sexual, preludiando Sancta Susanna, ópera raríssima de Hindemith, que se sucede às paixões sicilianas de Mascagni.

Hindemith criou um mundo pós-psicanálise, com freiras em delírio erótico. Anna Caterina Antonacci encarnou uma Susanna arrebatada. Martone concebeu uma pequena cela branca, envolvida por sombras onde rastejava monstruosa aranha.

Toulouse, 27 de dezembro. Pura felicidade no Teatro do Capitole. Candide, de Bernstein, por uma companhia norte-americana. Regente James Lowe, diretora de cena, Francesca Zambello. A agilidade dos dispositivos no palco, a qualidade dos cantores/atores, a vivacidade espirituosa associada à perfeição musical faziam lembrar, por contraste, a triste apresentação da mesma ópera há alguns anos em São Paulo. Candide, cantado pelo tenor Andrew Stenson, era de fato comovente, e a Cunegonde de Ashley Emerson, muito poética. Por que ópera não pode ser feita sempre assim, com o princípio de que é preciso servir à obra, e não pô-la ao serviço de vaidades pretensiosas e desastradas?

Toulouse, 11 de janeiro. No salão vermelho do museu des Augustins, diante do mais nobre Delacroix, o Moulay Abd-er-Rahman, sultão do Marrocos, ao lado de alguns Toulouse-Lautrec, Corot, Ingres, Manet, recital do Quarteto Modigliani. Conjunto jovem e já célebre, simpático e entusiasta. Perfeita combinação entre qualidades individuais e resultado coletivo. Irradia unidade na diversidade, e projeta o som com um imperioso relevo. Fabulosa dinâmica, sentido infalível de nuances, imaginação nos fraseados: difícil encontrar hoje maior força de convicção.

Desde as primeiras notas do Quartettsatz de Schubert, são sons febris que emergem do silêncio, como enxame de insetos perturbadores chegando de longe. A evolução dramática toma o ouvinte por inteiro.

Quarteto nº 1 de Shostakovitch vem banhado por uma luminosidade feliz. Finura aérea como renda, como dança de elfos.

Enfim, o Quarteto nº 13 de Mendelssohn, um monumento que atinge alturas vertiginosas de beleza expressiva. Paixão, desespero, que os intérpretes animam com sentimento de revolta. No movimento final, marcado por recitativo do primeiro violino, a tensão não se resolve nunca. O lamento volta e volta, exposto por esses músicos como se fosse um momento entre a vida e a morte.