Os quartetos de cordas e a reavaliação da obra de Villa-Lobos

por Camila Frésca 30/10/2017

Foi sem alarde que o Selo Sesc lançou, há alguns meses, uma caixa com a integral dos quartetos de cordas de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Não se trata de novas gravações, mas de uma reunião de registros feitos por dois quartetos importantes: o Quarteto Bessler-Reis e o Quarteto Amazônia, no final da década de 1980 e início de 1990. Ambos os grupos não existem mais, mas Cláudio Cruz (primeiro violino do Amazônia) e Alceu Reis (que foi violoncelista dos dois conjuntos) integram hoje o Quarteto Carlos Gomes.

Uma integral dos quartetos de Villa-Lobos é algo a se comemorar. Antes, a maratona das peças já havia sido gravada pelo Cuarteto Latinoamericano e, mais recentemente, pelo Quarteto Radamés Gnattali (em DVD e Blu-Ray). Chama atenção não só o alto nível da interpretação, mas igualmente a bem cuidada caixa com seis CDs e um livreto que, além de informações sobre as gravações, traz um texto analítico de Paulo de Tarso Salles.

Villa-Lobos deixou um impressionante número de 17 quartetos de cordas. O que, ao lado de Dmitri Shostakovich (1906-1975) e Darius Milhaud (1892-1974) o coloca como um dos mais prolíficos autores do gênero no século XX. Mas além da quantidade, essas peças nos provocam algumas reflexões acerca de toda obra composicional do mestre carioca. “Ao escutar os 17 quartetos e 12 sinfonias compostos por Heitor Villa-Lobos, nos deparamos com uma série de contradições entre a produção real desse grande compositor e a apreciação crítica sobre sua obra”, afirma Salles na abertura de seu texto. E que contradições seriam essas? “Afinal, quartetos de cordas e sinfonias são gêneros extremamente caros à música de concerto europeia, cercados por convenções e tradições tanto no que diz respeito a sua criação como quanto a sua execução. No sentido oposto, o juízo crítico construído a respeito de Villa-Lobos o define como um compositor avesso a convenções de qualquer espécie, desinteressado em formalidades de qualquer assunto que não diga respeito à cultura e à natureza brasileiras”.

Paulo de Tarso Salles tem feito um trabalho importante a partir da análise das obras de Villa-Lobos, procurando desconstruir o senso comum de um compositor exclusivamente intuitivo, cuja inspiração fluía como um rio e que não se preocupava com formalidades ou que não se detinha na construção das obras. Se os dados biográficos conhecidos já nos revelam que Villa-Lobos era alguém que tinha plena consciência do que queria provocar com suas atitudes e que objetivos tencionava atingir, um estudo sistemático de suas obras por uma nova geração de musicólogos promete iluminar aspectos importantes de seu processo composicional e que permanecem pouco estudados.

Nesse sentido, as similaridades entre os quartetos e as sinfonias de Villa-Lobos vão além do volume ou do fato de serem gêneros tradicionais. Ambos os conjuntos foram escritos durante um arco de 40 anos que vai desde a sua primeira fase, na década de 1910, quando ainda tentava se firmar como compositor, até o final de sua carreira, quando já era um autor consagrado – os quartetos foram compostos entre 1915 e 1957 e as sinfonias, entre 1916 e 1957. Também nos dois casos, percebe-se uma produção inicial, uma pausa ao longo da década de 1920 (quando ele se dedicou à composição da série de Choros) e uma retomada principalmente a partir da década de 1940. Finalmente, há nesses conjuntos tanto a utilização da forma sonata quanto da estrutura tradicional das sinfonias e quartetos clássico-românticos (quatro movimentos, alternando-se partes lentas e rápidas).

Esse lançamento, portanto, nos permite ir além da mera fruição dos quartetos de Villa-Lobos em ótimas interpretações – o que já não seria pouca coisa – mas contribui para uma necessária atualização da discussão sobre seu legado musical.

[A integral dos quartetos de cordas lançada pelo Selo Sesc está disponível na Loja CLÁSSICOS – clique aqui.]



[Conheça as sinfonias de Villa-Lobos gravadas pela Osesp – clique aqui.]