Cultura à baiana

por Nelson Rubens Kunze 02/01/2021

Filme “Abraço no tempo”, realizado pela Orquestra Sinfônica da Bahia em conjunto com o Balé do Teatro Castro Alves, une Beethoven e Caetano Veloso em um emocionante registro do momento em que vivemos

Edgard Santos (1894-1962) foi um homem visionário, um médico baiano que, em 1946, foi um dos criadores e primeiro reitor da Universidade da Bahia. Além de trilhar uma carreira brilhante – chegou a ser, por um breve período, ministro da educação no último governo de Getúlio Vargas –, Edgard Santos era um humanista com grande sensibilidade para as artes. Isso o levou a travar contato com Hans-Joachim Koellreutter, nos anos 1950, e junto com ele realizar em Salvador os seminários de música da Pró Arte. (Dirigida por Koellreutter, a Pró Arte tinha surgido em Teresópolis alguns anos antes, e mantinha em São Paulo, desde 1952, a Escola Livre de Música. A Pró Arte representou uma das mais importantes ações de formação e de difusão da música clássica daqueles tempos.)

Sob direção de Koellreutter, os seminários da Pró Arte na Bahia contaram com músicos de grande expressão, como Sebastian e Lola Benda, Damiano Cozzella, Ernst Widmer, Walter Smetak e muitos outros. Foram eles o embrião da Escola de Música da Universidade da Bahia, fundada por Edgard Santos naqueles anos e, salvo engano, a escola de música em curso superior mais antiga do país. 

Desde então, a Bahia tem se destacado no cenário musical brasileiro, formando gerações de importantes músicos e compositores (Walter Smetak, Lindembergue Cardoso, Fernando Cerqueira, Jamary Oliveira, Ilza Nogueira, Paulo Costa Lima, Wellington Gomes, Guilherme Bertissolo...) e contribuindo para a difusão da música clássica.

Dentro desse caldo cultural foi fundada, em 1982, a Orquestra Sinfônica de Bahia, a Osba. Mantida pelo estado da Bahia, ela é gerida, desde 2017, pela Organização Social Associação Amigos do Teatro Castro Alves e tem direção executiva de Fabiana Pimentel. O diretor artístico e regente titular é o maestro Carlos Prazeres, que há anos vem experimentando novos projetos para a conquista de públicos mais diversificados, e que tem demonstrado grande habilidade em propor programas de intersecção de linguagens e gêneros artísticos. Em entrevista à Camila Fresca publicada na Revista CONCERTO em 2018, Prazeres, que é carioca, afirmou: “Cheguei aqui com uma mentalidade típica do Sudeste brasileiro, procurando copiar os modelos que encontrei no Rio de Janeiro, em São Paulo ou mesmo em Berlim. Conviver com os baianos, participar ativamente de suas festividades, foi algo que mudou radicalmente meus alicerces. Ainda mais nos períodos de maior dificuldade da orquestra, quando precisava manter a fé de que as coisas dariam certo, busquei saber como a Bahia vive a cultura e como a orquestra pode servir a essa sociedade tão especial, tão mística, tão sábia. Que a Osba jamais seja apenas um reduto de confraternização das elites. Que ela chegue a todas as raças, todas as classes sociais, todas as faixas etárias. Esse foi meu pedido, e acho que estamos no caminho certo”. 

Com certeza essa abertura e flexibilidade do maestro, que naturalmente se reflete em todo o trabalho da orquestra, serviu também para enfrentar o ano da pandemia, em que a Osba chamou a atenção por suas ações marcadas pela criatividade e compromisso social. Entre os projetos mais significativos estão os vídeos “Osba em Casa #Virtual”, o “São João Sinfônico Virtual” (com Gilberto Gil), o “Osbacuri” (projeto de imersão musical infantil) e o “Osbatalá”, para o dia da consciência negra (todos disponíveis no canal de YouTube da orquestra). Já no segundo semestre, a orquestra criou a sua primeira Academia Virtual de Música, que ofereceu aulas para 84 alunos de todo o Brasil e que teve o ineditismo de reservar 40% das vagas a mulheres, negros ou indígenas em situação de vulnerabilidade econômica.

Osba
Osba em cena do filme Abraço no tempo (reprodução do YouTube)

Finalizando a temporada, a Osba e o Balé do Teatro Castro Alves acabam de lançar o filme “Abraço no tempo”. É um emocionante registro do momento em que vivemos. O trabalho áudio visual propõe uma reflexão poética sobre o tempo, alternando músicas e depoimentos de Caetano Veloso com obras de Beethoven, que servem de trilha sonora para evoluções coreográficas do balé, realizadas em espaços externos do Teatro Castro Alves e em cenas sobre o palco.

Dividido em três partes, “O passado é grave”, “O presente é nervoso” e “O futuro é aqui”, o filme traz a Osba interpretando o primeiro movimento do Concerto para violino de Beethoven (com solos da ótima Priscila Rato), o último movimento da Sétima e um arranjo que mescla o famoso tema da Nona com melodias de Caetano Veloso. Não é um concerto, é um filme artístico. Um trabalho que expõe dilemas de nossa existência por meio da dança, da inteligência poética musical de Caetano e da música de Beethoven. E que mostra, mais uma vez e com toda naturalidade, a atualidade e potência sensorial da música clássica.

O trabalho é coeso, marcado pela criatividade e pela compreensão de cada uma de suas linguagens. Beethoven não é só trilha sonora, ele é a própria essência da música em diálogo com a dança, que vai muito além da coreografia em uma potente expressão corporal. Do mesmo modo, Caetano vale por si, com sua poesia, seu depoimento e sua singela interpretação, voz e violão, da “Oração ao tempo”. Um completa o outro que completa o outro, em um todo artístico que não estabelece hierarquias. E nem certezas. É a busca de um sentido... 

Quem sabe o que é o tempo?

Assista abaixo ao filme "Abraço no tempo"

 

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