Cadê a cultura? (Este tema não existe na política brasileira.)

por João Marcos Coelho 27/07/2018

É absolutamente compreensível a falta de entusiasmo, ou mesmo de desconhecimento completo, da população em geral com relação ao processo eleitoral que, em princípio, o país deveria estar vivendo com plena intensidade a menos de três meses para as eleições de outubro próximo. Afinal, os últimos quatro anos foram desastrosos nos grandes temas relevantes da política e da economia. Todas as pesquisas indicam que o brasileiro percebe como seus maiores problemas aqueles que a gente já conhece de cor: combate à corrupção, melhor educação, saúde, segurança... 

Peço vênia – como se diz no STF – para o respeitável leitor continuar a ler este texto, que até agora só repete o que ronda nossa cabeça todos os dias. Minha intenção é uma só. Ressaltar que o tema da cultura simplesmente não comparece em nenhuma entrevista, em nenhum debate, em nenhuma manifestação dos pré-candidatos ao que quer que seja: deputados estaduais, deputados federais, senadores ou presidente da República.

Palco vazio da Sala São Paulo

A verdade pura e simples é esta: o tema da cultura não existe para a política brasileira. Porque ele não rende votos, repercute pouco na mídia, não fede nem cheira para a classe política. 

E a gente aceita bovinamente este silêncio perverso. Não há nenhuma voz falando do “desmanche” avassalador que vem sofrendo a vida cultural. E, se a Cultura, com “C” maiúsculo, está ausente das discussões da chamada “opinião pública”, que alguém já chamou de “opinião publicada”, o que dizer então da música clássica?

No nosso nicho, digamos assim, cometem-se as maiores “sacanagens”, com o perdão da má palavra, sem nenhum pudor. Os orçamentos vêm sendo fatiados e esvaziados a machadadas; o sistema das OSs, bem-vindo anos atrás, vem sofrendo uma dieta severa de emagrecimento de verbas, a ponto de inviabilizar grupos como a Banda Sinfônica ou então iniciativas já consolidadas há muito tempo (como o Projeto Guri, com a demissão absurda da coordenadora da área social Marta Bruno. Fiquei sabendo disso via facebook graças ao emocionado texto de Yara Caznok, da Unesp, que vale a pena ler).

Até o Festival de Inverno, que sempre foi de Campos do Jordão, virou Fissp, Festival de Inverno da Sala São Paulo, como bem apontou Nelson Rubens Kunze neste mesmo espaço há poucos dias (leia aqui). Desvirtuou-se completamente o sentido do evento. E a culpa não é da atual direção, mas dos profundos cortes no orçamento nos últimos anos.

Vão-se os anéis, ficam os dedos, costumamos nos consolar, raciocinando que, embora capengas, estropiados, esses e outros projetos ao menos continuam a existir. 

O meio cultural – e o meio musical clássico mais ainda – tem o péssimo hábito de não lutar por seus ideais, de acomodar-se argumentando “bem, podia ser pior”. Será que as manifestações gigantescas que acordaram o país anos atrás não serviram para nada? Se ninguém se manifesta, então está tudo bem para os políticos. Eles estão preocupados, neste infeliz 2018, em capturar votos a qualquer “custo”.

Ainda dá tempo de tentarmos incluir a agenda cultural e a vida musical clássica nos debates até agora chochos, desinteressantes, chatíssimo, dos pré-candidatos. Precisamos acordar logo da nossa longa letargia, aproveitar este momento para tentar incluir a cultura e a música na agenda pública.

Porque – não nos iludamos – escolher o próximo presidente da República e o Congresso equivale a determinar o nosso destino nos próximos anos.