Para além do movimento: a dança como direito e transformação social

por Redação CONCERTO 01/10/2026

Por Renata Faila [é relações-públicas e atua como coordenadora de Comunicação e Marketing da São Paulo Companhia de Dança (SPCD)]

Existe algo profundamente potente quando a dança encontra um corpo que vive à margem de tantas oportunidades. Longe de ser apenas um passatempo ou uma ação assistencial para ocupar horas vagas, o acesso à arte no ambiente comunitário atua como uma ferramenta de acolhimento, cidadania e emancipação. Quando a sala de ensaio abre suas portas aos projetos sociais, o que se apresenta é uma oportunidade real de construir novos caminhos.

Essa transformação se consolida justamente quando o acolhimento humano caminha lado a lado com o rigor e a excelência técnica. Manter a exigência no ensino não significa rigidez ou criar barreiras, mas sim a afirmação de que todo jovem, independentemente de sua origem, merece o compromisso com uma formação de alto nível, onde a disciplina se torna a base para a construção do próprio repertório e da autonomia.

Em São Paulo, a fundadora e diretora do Ballet Paraisópolis, Mônica Tarragó, acompanha esse movimento há 14 anos. “A condição social não deve determinar o nível de formação artística que um jovem pode receber”, afirma Mônica. Ela destaca que a disciplina e o rigor do aprendizado ultrapassam a sala de aula: “Ao longo do percurso, o aluno percebe que é capaz de superar desafios pelo próprio esforço. Ele passa a reconhecer novas possibilidades para sua caminhada, dentro ou fora da dança”.

Weverton Aguiar, Monica Tarragó, e Christian Casarin com alunos do Ballet Paraisópolis (divulgação, Vitoria Andregueti)
Weverton Aguiar, Monica Tarragó, e Christian Casarin com alunos do Ballet Paraisópolis (divulgação, Vitoria Andregueti)

Essa mudança de comportamento é percebida inclusive pelas equipes pedagógicas das escolas de ensino formal da região, que relatam transformações na atitude e no compromisso dos estudantes após o ingresso no projeto. Para que o fim da formação não se tornasse um caminho sem perspectiva, o projeto criou em 2022, a Cia Ballet Paraisópolis, oferecendo aos bailarinos a oportunidade real de atuar profissionalmente na dança e devolver essa bagagem à comunidade dando aulas no próprio projeto. Paralelamente, parcerias para bolsas de estudo com o Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro garantem que eles também possam se graduar em diferentes áreas de interesse. Dessa forma, constrói-se um ciclo contínuo de autonomia, aonde o conhecimento retorna para a comunidade e novas possibilidades profissionais se abrem dentro e fora da dança.

Companhia Ballet Paraisópolis (divulgação, Marcelo Machado)
Companhia Ballet Paraisópolis (divulgação, Marcelo Machado)

A RETRIBUIÇÃO E O TRABALHO PROFISSIONAL

A transição entre o aprendizado comunitário e a conquista do mercado de trabalho ganha corpo na história de Giovana Guimarães. Formada pelo projeto Ballet Paraisópolis e hoje bailarina de seu elenco profissional, a virada de chave aconteceu no final do processo formativo, quando decidiu obter o registro profissional (DRT) e viver da arte. Hoje, além de participar dos ensaios das criações da companhia, Giovana retribui o aprendizado atuando como assistente nas aulas dos novos alunos da comunidade. “É uma troca muito gostosa, pois já estive desse lado um dia. A responsabilidade aumenta, mas vem junto com a satisfação de trabalhar com o que sempre sonhei”, conta. Ao pisar no palco, ela reafirma o impacto do acesso à formação: “Não venho de um lugar de privilégios, mas, quando estou no palco, provo que é possível realizar um sonho quando se tem vontade e determinação”.

Giovana Guimarães em cena com a Companhia Ballet Paraisópolis (acervo pessoal)
Giovana Guimarães em cena com a Companhia Ballet Paraisópolis (acervo pessoal)

Essa mesma força de reescrita social fundamenta o trabalho do Instituto Sonhe, que articula suas ações entre os desafios do centro da capital paulista e as comunidades rurais do Sertão de Pernambuco. A presidente da instituição, Joana Machado, revela que a dança consegue fazer pontes únicas porque “o corpo é uma linguagem que antecede muitas outras”. Em territórios marcados por tantas ausências e distâncias, a arte oferece um porto seguro onde cada criança encontra o direito fundamental de ser vista e reconhecida. “Existe um professor que sabe o seu nome, percebe sua ausência e celebra suas conquistas. A autoestima não é trabalhada apenas dizendo a criança que ela é capaz, mas quando ela experimenta ser capaz, quando consegue executar um movimento difícil depois de semanas tentando, quando veste um figurino ou mesmo quando sua família a vê no palco”, reflete Joana. Para o instituto, o investimento contínuo e a parceria com a sociedade civil são indispensáveis para garantir a permanência das ações, pois “sonhar também precisa ser aprendido”: amplia-se o repertório para que a criança perceba que existe muito mais nela do que aquilo que as circunstâncias imediatas dizem a seu respeito.

Joana Machado, presidente do Instituto Sonhe (acervo pessoal)
Joana Machado, presidente do Instituto Sonhe (acervo pessoal)

O DIREITO DE IMAGINAR O FUTURO 

Em Belo Horizonte, esse compromisso com a democratização do acesso fundamenta a história do Corpo Cidadão, projeto nascido da proximidade com o Grupo Corpo e idealizado por Miriam Pederneiras. A instituição atua sob a premissa de que a formação artística em territórios de vulnerabilidade não pode oferecer uma experiência de qualidade inferior. "O primeiro compromisso é o acolhimento; cada criança chega com seu ritmo, sua história e suas inseguranças. Mas acreditamos que esses jovens têm direito ao melhor que pudermos oferecer: bons professores, referências importantes e vivências estéticas capazes de ampliar seus horizontes", afirma Miriam.

Crianças do projeto Corpo Cidadão (acervo pessoal)
Crianças do projeto Corpo Cidadão (acervo pessoal)

A vivência contínua nas oficinas e no Grupo Experimental de Dança (GED) desenvolve a disciplina, o trabalho coletivo e a atenção ao outro, fatores que se traduzem na transformação da autoimagem e da permanência escolar. Para a diretora, a experiência nos palcos é apenas a dimensão mais visível de uma conquista cidadã muito mais profunda: “Preservamos valores como generosidade e compromisso com a excelência, que é dar o melhor de si. A cidadania passa por uma criança compreender que tem direito à cultura, à expressão, à cidade e o direito de imaginar um futuro para si, seja na dança ou em qualquer outra escolha profissional”, conclui.

A ESTRUTURA PÚBLICA COMO PONTE DE PERMANÊNCIA E OPORTUNIDADE

A ampliação das oportunidades na dança exige também políticas públicas estruturadas para que o talento acesse e permaneça no ambiente de formação. Criada pelo Governo do Estado de São Paulo e gerida pela Associação Pró-Dança, a São Paulo Escola de Dança (SPED) atua como um centro de formação profissional e continuada 100% gratuito. Além do rigor técnico em múltiplos estilos, a instituição se destaca por políticas afirmativas, bolsas de permanência e pontes diretas com a cena profissional e acadêmica.

Vinda de Mogi das Cruzes (SP), Ana Heloísa Souza Silva enfrentou a rotina diária de deslocamentos de trem para cursar Técnicas da Dança aos 16 anos. Ao longo da formação, ingressou no Projeto Especial, que funcionou como um grupo de dança da escola, participou de apresentações e viveu a experiência de dançar com a São Paulo Companhia de Dança na Sala São Paulo. O aprendizado abriu portas internacionais: Ana Heloísa foi aprovada para estudar em Marselha, na França. “A São Paulo Escola de Dança me ensinou muito a ir atrás e acreditar que a carreira na dança é possível. Ver uma escola dessa estrutura, gratuita, com contatos diários, inspira e mostra que não é um sonho distante”, relata.

Para a maranhense Dallyyla Amazzymba, que se mudou para a capital paulista para cursar Dança e Performance, o acesso à bolsa de permanência foi decisivo para sua manutenção na cidade. Na SPED, o incentivo à pesquisa artística abriu portas para o mercado profissional – como o convite para integrar a Cia Diário – e impulsionou sua aprovação no vestibular da Unicamp. Dallyyla defende a importância do compromisso institucional com a diversidade: “Não é só abrir a porta, é ter políticas afirmativas que permitam que a gente continue aqui. Escancarar as portas para o público preto, para povos originários e LGBTQIAPN+ é garantir que a galera não só acesse, mas consiga iniciar e ir até o final”.

A VISÃO DA BASE: CIDADANIA, BEM-ESTAR E REDE COMUNITÁRIA

Essa visão de acolhimento e perspectiva de futuro fundamenta a atuação de Nelma Darzi, fundadora e diretora da Petite Danse e do projeto Dançar a Vida, no Rio de Janeiro. Ao longo de mais de 16 anos de trajetória, a iniciativa demonstra que a formação em dança gera impactos que ultrapassam a busca pelo palco profissional. “A dança trabalha muito a autoestima, muda a imagem corporal que os jovens têm de si mesmos e abre uma perspectiva maior de vida, mesmo para aqueles que não querem viver da arte no futuro”, explica Nelma. Ela destaca que o aprendizado da disciplina e a convivência comunitária impulsionam a mobilidade social: “Muitos ex-alunos me relatam que são os primeiros dentro da família a cursar uma faculdade, em áreas como administração, fisioterapia e recursos humanos. A dança desperta essa ambição legítima de buscar um futuro melhor”.

Espetáculo “O Pássaro de Toda Cor” do Projeto Dançar a Vida (RJ) (acervo Petite Danse)
Espetáculo O Pássaro de Toda Cor do Projeto Dançar a Vida (RJ) (acervo Petite Danse)

Na estrutura da instituição, a busca pela alta performance não é tratada como um filtro excludente, mas como uma consequência natural para quem assim o deseja. A prioridade do projeto permanece voltada à saúde mental e ao equilíbrio emocional dos alunos. “Ninguém precisa ser o primeiro bailarino para ser feliz na dança; pode-se atuar em companhias menores, no corpo de baile, ou seguir como professor e coreógrafo. Nosso maior propósito é que eles conquistem sua autonomia financeira e tenham uma condição de vida superior à que a família pôde proporcionar”, pontua a diretora.

Essa rede de emancipação estende-se também aos familiares dos estudantes. Como o projeto não possui patrocínio integral para cobrir todos os custos individuais, a instituição orienta e estimula mães e pais a desenvolverem iniciativas próprias de trabalho e renda – como a venda de refeições, transporte e prestação de serviços – transformando a necessidade de custear figurinos e viagens em um exercício de autonomia e empreendedorismo local. “Orientamos os pais para que não criem uma dependência de que o projeto tem que dar tudo. Essa mobilização mostra a eles que são capazes, gerando uma verdadeira corrente do bem dentro da comunidade”, conclui Nelma.

OPORTUNIDADE – O caminho entre a primeira oportunidade no projeto social e o topo da cena internacional se reflete na trajetória de Mayara Magri, hoje primeira bailarina do consagrado The Royal Ballet, em Londres. Formada pelo projeto Dançar a Vida, mencionado acima, Mayara ingressou no balé aos oito anos por meio de uma bolsa de estudos. “Foi absolutamente decisivo”, relata a bailarina. “Eu era apenas uma menina que gostava de dançar e tive acesso a professores, disciplina e a um universo que foi abrindo os meus sonhos. Essa foi a primeira porta que precisou ser aberta para que todas as outras – o Prix de Lausanne, a Royal Ballet School e o Royal Ballet – fossem possíveis. Nunca consigo separar aonde cheguei de onde comecei”. 

Nelma Darzi e Mayara Magri (acervo pessoal)
Nelma Darzi e Mayara Magri (acervo pessoal)

Mayara defende que um projeto social jamais deve reduzir a régua da exigência técnica: “O mundo profissional é extremamente exigente. Se queremos dar a um jovem a possibilidade real de seguir carreira, precisamos oferecer ferramentas e excelência para que ele dispute em igualdade de condições nos maiores palcos do mundo”. Aos jovens que estão dando os primeiros passos nas comunidades brasileiras, a bailarina deixa uma mensagem de paciência e perseverança: “Sonhem grande, mas não tenham tanta pressa de chegar. Aproveitem a formação, escutem seus professores e entendam que nem todo caminho vai ser linear. E nunca se esqueçam de quem ajudou a abrir as primeiras portas”.

Mayara Magri em O Lago dos Cisnes, na Royal Opera House, em Londres (divulgação, Andre Uspenski – Royal Opera House)
Mayara Magri em O Lago dos Cisnes, na Royal Opera House, em Londres (divulgação, Andre Uspenski – Royal Opera House)

Esse percurso de superação de barreiras territoriais e sociais se reflete também na caminhada de Layne Lins, hoje bailarina do elenco da São Paulo Companhia de Dança (SPCD), sob direção artística de Inês Bogéa. Sua história começou em Teresina (PI), quando, ainda aluna da Escola Municipal Porfírio Cordão, ingressou no Cordão Grupo de Dança. “Eu mesma fui lá, sem ter uma roupa adequada para fazer uma aula de balé, e de alguma forma o professor viu um potencial em mim. Aquilo me acendeu uma vontade imensa de me dedicar”, relembra. A certeza da vocação veio aos dez anos, ao ouvir de um jurado, em um festival em Fortaleza (CE), que ela brilhava no palco.

Layne Lins em cena com a SPCD (divulgação, Manoela Belinello)
Layne Lins em cena com a SPCD (divulgação, Manoela Belinello)

O amadurecimento técnico de Layne foi construído na sua rápida adequação a palcos diversos – de praças no interior a grandes teatros –, bagagem que ela carrega para a rotina de exigência da SPCD. Para a bailarina, integrar a Companhia representa a realização de um caminho que antes parecia inalcançável. “Toda a minha entrega é para a minha criança interior de dez anos, por todas as pessoas que me motivaram e por nunca esquecer tudo o que passei para me tornar a bailarina que sou hoje. Eu sei o poder que a dança faz na vida das pessoas e levo isso como uma responsabilidade. Não necessariamente fazer com que alguém se torne um bailarino, mas entregar uma arte que transforma. Ninguém sai o mesmo depois de um espetáculo”.

As experiências reunidas nessas diferentes realidades comprovam que investir em projetos sociais de dança não é uma ação assistencial, mas um compromisso real com o fomento e o futuro da cultura no Brasil. A verdadeira força dessas iniciativas está em permitir que cada jovem descubra e reivindique a dimensão do seu próprio talento. Garantir estrutura, permanência e afeto a esse trabalho é assegurar que o ponto de partida de um indivíduo jamais limite as suas escolhas.

Clique nos links abaixo para saber mais sobre os projetos e companhias:

Ballet Paraisópolis

Instituto Sonhe

Petite Danse

Projeto Dançar a Vida

Grupo Corpo

Corpo Cidadão

São Paulo Companhia de Dança

São Paulo Escola de Dança
 

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