Noite de domingo na Sala São Paulo, com obras de Brahms e Strauss, foi para lá de especial. Concerto bom deixa lembrança; concerto excelente deixa legado
Há experiências estéticas que agem sobre os órgãos de percepção e modificam a própria concepção de arte do espectador. Foi o caso da apresentação da Filarmônica de Berlim no último dia 18, em São Paulo, dentro da série Concertos Internacionais da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer). Para além dos endinheirados que podiam pagar os estratosféricos preços dos ingressos, havia na Sala São Paulo também jovens músicos e estudantes, que (conversei com alguns) saíram dali transformados após presenciarem um fazer musical deste quilate, por profissionais de qualidade superlativa.
Muitos deles não eram nem nascidos da última vez que a Filarmônica tocou por aqui, em 2000, no Theatro Municipal, sob regência de Claudio Abbado (quem ouviu aquela Nona de Mahler não esquecerá nunca mais). Claro que todos conheciam a orquestra pelas inúmeras gravações de referência. Mas ao vivo é diferente. E ainda mais impactante.
Desde o dramático tutti que abre o primeiro concerto para piano e orquestra de Brahms, a sensação era de ouvir sons como jamais ecoaram no palco da Sala São Paulo. Espécie de expansão titânica dos concertos de Beethoven, seguindo e dobrando a aposta do páthos do nº 3 e da grandiosidade do Imperador, o Concerto nº 1 de Brahms requer um pianismo majestoso e bravio para dialogar com a imponente sonoridade do corpo orquestral. Foi bonito ver o islandês Vikingur Olafsson, que cativara a Sala São Paulo há dois anos, com as Variações Goldberg, de Bach, demonstrar musculatura e rigor intelectual numa obra tão distinta do repertório bachiano no qual se celebrizou. A sinergia entre solista e orquestra ficou ainda mais clara no bis, quando tanto Vikingur quanto os filarmônicos modificaram completamente sua sonoridade para uma execução contida e intimista do lírico Largo do Concerto BWV 1056, de Bach, em que o piano emula um clavicórdio para ser acompanhado apenas pelas primeiras estantes das cordas em pizzicato.
O melhor, contudo, viria depois do intervalo. Sob a direção segura de Kirill Petrenko, um maestro que não precisa exagerar nas coreografias no pódio para obter resultados exuberantes, a Filarmônica inebriou os sentidos do público com o poema sinfônico Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, baseado na obra homônima do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.
Escrita entre 1883 e 1885, o livro que traz conceitos célebres como “eterno retorno” e “super-homem” parecia andar nas cabeceiras dos principais compositores austro-germânicos na década seguinte: Mahler musicou um trecho na sua Sinfonia nº 3, de 1896, e Strauss transformou-o numa ambiciosa partitura orquestral no mesmo ano.
Diferentemente de outros poemas sinfônicos desse compositor, como Don Quixote e Till Eulenspiegel, que narram quase graficamente as aventuras dos personagens literários retratados, Zaratustra não tem uma trama. Strauss divide a peça em nove seções de caráter sobretudo abstrato, e que Berlim transforma numa verdadeira dramaturgia de ideias.
Cada naipe da orquestra possui uma individualidade muito marcante. Devo confessar ser especialmente apaixonado pelas madeiras, que talvez possua os melhores nomes do mundo em seus instrumentos. Mas como não se render ao veludo das cordas e ao caráter dos metais? Se os fortíssimos (grandiloquentes, porém não estridentes) eram de um volume sonoro que dava a impressão de se projetar muito além das paredes da sala de concertos, os pianíssimos no limite do inaudível só não impressionavam mais do que a aparentemente inesgotável gama de dinâmicas que a orquestra conseguia manejar entre esses dois extremos.
Evitando tanto os riscos de uma junção desconexa de egos exibicionistas quanto o de robôs tocando de forma pasteurizada, Berlim colocou-nos diante de uma espécie de utopia democrática, na qual as vozes individuais fundem-se a serviço de um ideal coletivo. Para tomar emprestados conceitos caros a Nietzsche, a perfeição apolínea até podia se manifestar, mas a busca era sobretudo pela extasiante beleza dionisíaca. A orquestração de Strauss nessa obra é para lá de densa, o palco fica superpovoado, mas o que se ouve são milagres de transparência, de clareza de planos sonoros. Mesmo em meio à mais espessa massa sonora, fazem-se perceber, com culminâncias de refinamento e bom gosto a cada fraseado, cada um dos pequenos temas que constituem a intricada tapeçaria straussiana. O elaborado jogo de contrastes sugera a entrada e saída de cena de personagens invisíveis, porém perfeitamente audíveis, em um drama sem palavras que envolve a plateia a cada instante.
Terminasse a noite assim e voltaríamos todos para casa como nefelibatas a pairarem nas esferas do sublime. Porém Petrenko e seus filarmônicos resolveram nos brindar com um bis de assinatura: a Dança húngara nº 1. Puro júbilo, para aquecer os corações e imprimir nos rostos um sorriso que se recusa a se apagar. Mesmo para quem já ouviu a filarmônica ao vivo algumas vezes nas últimas três décadas, tanto na mítica Philharmonie quanto no Festival de Salzburgo, a noite do domingo foi para lá de especial. Concerto bom deixa lembrança. Concerto excelente deixa legado.
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