A música nova no centro, sem concessões

Evitando o contraste fácil com obras canônicas, programa Arquiteturas do Som no Theatro Municipal de São Paulo propôs uma escuta radical e impactante do início ao fim

Foi ímpar o último programa do Theatro Municipal de São Paulo, cuja segunda récita aconteceu no sábado, 25 de abril. Da primeira à última peça vimos a Orquestra Sinfônica Municipal expandir-se pelo palco, mostrando seu talento tanto para a sutileza camerística quanto para a força de sua formação completa, tudo sob a hábil direção de Ricardo Bologna.

Impossível não ser impactada por uma obra como Peaux, uma das partes de Pléïades, do compositor Iannis Xenakis. A dimensão física daqueles sons, projetados graças aos seis percussionistas no palco, fez vibrar o chão com gestos ora sincronizados, ora defasados, como é comum na obra deste compositor. Xenakis jamais decepciona. Creio ser o tipo de obra imune a qualquer indiferença. 

Depois, Paulo Álvares subiu ao palco para executar o Concerto para piano e orquestra, de Ligeti. Começou um degrau abaixo na escuta, mas a culpa foi da obra de Xenakis, que continuou reverberando. Foram poucos minutos, no entanto, até que o discurso de Ligeti se fizesse soar pelas mãos de Álvares e a regência de Ricardo Bologna. O domínio do repertório contemporâneo é sem igual nas mãos de Álvares, que mostrou como a interpretação dessa peça não passa só pelo virtuosismo, mas também por um entendimento específico do discurso, que exige uma paleta tímbrica única. Paleta que é novidade num instrumento tão tradicional quanto o piano, geralmente legado a simulacro de bel canto. Talvez um dos assuntos deste concerto de Ligeti seja o diálogo possível entre o piano e a percussão, com o piano também capaz de timbres percussivos e brilhantes.

Após essa primeira parte, o público teve 20 minutos para ir embora. Mas não foi.

De Olivier Toni, foram executadas as Três variações para orquestra. Como é singular a obra deste compositor, que tem sido homenageado em seu centenário de nascimento. Estas variações, compostas nos anos 1950, mostram como a dramaticidade pode, sim, permear a escrita serial, injustamente taxada de asséptica e “cerebral” (como se houvesse criação que não passasse pela racionalidade, mas essa é outra história). A primeira variação, um adensamento progressivo de 8 sons, cujo clímax marca a barra final; a bem-humorada repetição do motivo de quatro sons na segunda variação, mostrando como o motivo tem, ele também, uma potencialidade serial; e a variação sobre uma nota só, melhor que qualquer Jobim, cuja simplicidade torna-se complexa no momento em que se propõe como improvisação. A mesma conhecida nota, mas sempre em contextos diversos, indeterminados. Que bela ideia...

De Marcos Balter, Orun. Orun, do iorubá, significa o céu. Diferentemente do céu católico, que é uno, divide-se em nove (e me corrijam se eu estiver errada). É o “paraíso” para o qual toda vida material inevitavelmente se transmuta – não sem deixar de ser vida. E é bonito como essa ideia se traduziu, na obra de Balter, na continuidade dos sons das cordas, que, víamos, não eram as mesmas continuidades uníssonas, criando uma textura de fato meditativa. 

Este concerto do Theatro Municipal de São Paulo não limpou o paladar. Em vez disso, revelou em sons garrafais como a pluralidade de pensamentos estéticos é a marca do nosso tempo e não a exceção, não um mero ponto fora curva

Veio pontuar o final deste programa o Concerto para orquestra de Lutoslawski, curiosamente a peça mais tradicional do grupo. Em intensidade não deveu nada ao Xenakis que abriu o programa, mas veio com outra proposta, calcada em nomes como Mahler e Shostakovich em termos de densidade orquestral, e em Bartók em termos de material musical. No entanto, não é meramente derivativa. Mostrou a potência sonora da orquestra que encheu o palco entre um extremo e outro. 

Foi exigente este programa do Theatro Municipal de São Paulo? Sim. Mas foi absolutamente necessário, porque colocou a música nova de fato no centro. 

Tem sido um recurso comum na programação dos teatros unir o repertório dos séculos XX e XXI a obras antigas. Vemos ligetis sucedidos por beethovens, gubaidulinas de mãos dadas com tchaikovskis, e assim por diante. É bem-vindo, mas o tempero tradicional dessas refeições contemporâneas às vezes vem com sabor de desculpa, como quem diz “é mesmo, aquela música foi muito intensa. Talvez aqui caiba uma água com gás”. Infelizmente foi o que aconteceu com Gruppen, de Stockhausen, na abertura de temporada da Sala São Paulo. Sucedido pela Nona de Beethoven, acabou soando como um pesadelo do qual o público acordou tão logo soaram as primeiras notas daquele confortável tema em ré maior. Uma espécie de redenção às avessas.  

Este concerto do Theatro Municipal de São Paulo não limpou o paladar. Em vez disso, revelou em sons garrafais como a pluralidade de pensamentos estéticos é a marca do nosso tempo e não a exceção, não um mero ponto fora curva. Num mundo fragmentado, de que outra maneira a arte poderia responder? É a realidade. E se é realidade, que soe. Se a arte liberta, que seja pelas vias corretas. E se esse repertório deve comparecer, que compareça com protagonismo e sem concessões, como escutamos no sábado. 


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O maestro Ricardo Bologna [Divulgação]
O maestro Ricardo Bologna [Divulgação]

 

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