“Turandot” no Theatro Municipal de São Paulo

por Jorge Coli 27/11/2018

Grande, excelente, formidável notícia: ENFIM a gestão do Theatro Municipal de São Paulo decidiu tirar aquelas horrendas caixas de som dependuradas na frente da linda frisa de Alfredo Sassi, que coroa a moldura do palco! Fiquei um tempão, de binóculos, contemplando as figuras admiráveis. Mesmo as que ficam no fundo, em schiacciato (quer dizer, quase bidimensionais) mostram individualidades, que vão da volúpia à melancolia. Cada uma foi tomada de modelos diferentes.

E que genial música, Turandot! Puccini é um dos grandes, dos grandíssimos gênios musicais da história. E que maravilha ouvir a Sinfônica Municipal em tão bela forma, e com tão calorosa, entusiasta, regência! Minczuk, vibrante, fez soar a orquestra com amplidão e energia, sem perder a finura dessa composição complexa. E os coros! Bravos, bravos a todos os componentes do Coro Lírico, do Coral Paulistano, do Coro Infantojuvenil da Escola Municipal de Música de São Paulo; bravos ao maestro Mario Zaccaro, às maestrinas Naomi Munakata e Regina Kinjo. Homogêneos, com dinâmica perfeitamente controlada, belo fraseado. Em suma, um esplendor.

Quanto aos intérpretes, vou diretamente às duas fenomenais Liù: Gabriella Pace e Marly Montoni (distribuições 1 e 2). Sublimes, propriamente. A primeira, com seus sons filados, aéreos, angelicais; a segunda com a cor voluptuosa de seu timbre, seus belos graves e o controle dinâmico admirável nas notas longas. Ambas muito diferentes entre si, mas sempre comoventes, musicais, dignas de qualquer grande teatro do planeta.

Final da ópera "Turandot", no Theatro Municipal de São Paulo [Divulgação / Fabiana Stig]
Ópera "Turandot", no Theatro Municipal de São Paulo [Divulgação / Fabiana Stig]

Quanto às protagonistas das duas récitas: Elizabeth Blancke-Biggs, na primeira, catapultou seus agudos duros e nem sempre muito exatos por cima do coro e da orquestra. Ao contrário, Annemarie Kremer, na segunda, menos estentórea, foi muito mais sensível, com colorido equilibrado em todos os registros: sua “In questa reggia” provocou arrepios. 

Os dois Calaf foram bem diferentes, também. David Pomeroy, o primeiro, é um tenor experiente, com voz volumosa e segura, não muito sutil. Ao contrário, Eric Herrero, o segundo, fez um Calaf nobre, jovem, apaixonado, mais frágil e mais musical do que seu colega canadense.

Ping, Pang, Pong (Vinicius Atique, Geilson Santos, Giovanni Tristacci), ótimos cênica e vocalmente. Não enumero todos os outros componentes do elenco, que são brasileiros, e são de grande nível.

A montagem de André Heller-Lopes (cenários de Renato Teobaldo e Beto Rolnik, figurinos de Sofia Di Nunzio) resultou vistosa e colorida. Uma Turandot com o espírito kitsch de restaurante chinês – o que é escolha muito interessante. Uma estrutura transparente, em três andares, cercava o palco, cômoda para abrigar parte do coro. Três tablados funcionaram muito bem no primeiro ato, facilitando a ação, e uma escada móvel também foi eficiente no segundo e terceiro atos. Discos Ball, de tamanhos diferentes, substituíram a lua, e lançavam seus reflexos no cenário e na sala, seguindo o princípio da poética kitsch. Agitação em cena: dragão, chuva de prata, tecidos ondulando animaram a ação. Talvez o primeiro ato tenha resultado um pouco confuso, sobretudo a morte do príncipe persa; e, no terceiro, foi surpreendente a alteração no suicídio habitual de Liù que, em princípio, se mata com um punhal. Nesta produção, ela salta do alto da escada para o vazio, como a Tosca, do mesmo Puccini. Morte que funcionou dramaticamente, mas esperemos que nenhum diretor de cena tenha a ideia de fazer Tosca enfiar um punhal na barriga, Cavaradossi ser enforcado ou Scarpia envenenado.

Os cantores mostraram gestos nobres, no limite da estilização, dignificando a ação. Além disso, o diretor não os prejudicou, fazendo-os cantar quase sempre próximos do proscênio. Excelente a concepção do trono de Altoum que se eleva e paira no alto. Em Ping, Pang e Pong, perpassava o espírito ágil da commedia dell’arte.

Em suma, uma bela Turandot nas duas distribuições. É a quarta e última ópera do Municipal neste ano. Fico torcendo para que 2019 nos traga uma verdadeira temporada lírica, com vários títulos.

Veja outras fotos da ópera Turandot do Theatro Municipal de São Paulo:

[Divulgação / Fabiana Stig]
[Divulgação / Fabiana Stig]
[Divulgação / Fabiana Stig]
[Divulgação / Fabiana Stig]
[Divulgação / Fabiana Stig]
[Divulgação / Fabiana Stig]
[Divulgação / Fabiana Stig]
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