Diário de Jorge Coli no Festival Verdi de Parma

por Jorge Coli 18/10/2018

Jorge Coli, colunista da CONCERTO, foi até a Itália acompanhar um dos mais importantes festivais de ópera da atualidade, o Festival Verdi, que acontece nas cidades de Parma e Busseto e que está em sua 18ª edição.

Saiba o que ele viu e ouviu nessa viagem ao universo da obra de Giuseppe Verdi.

 

Quarta-feira, 3 de outubro
Un giorno di regno, no Teatro Giuseppe Verdi, de Busseto

No minúsculo e adorável Teatro Verdi, de Busseto, Un giorno di regno. Estar ali, nas terras verdianas, no lugar em que o grande mestre nasceu, comove. Ouvir sua segunda ópera, seu célebre e absoluto fracasso, constitui uma revelação.

Eu conhecia a ópera de gravações e vídeos. Nunca a tinha visto em cena. Ali, no teatrinho de Busseto (300 lugares, plateia com 70!), para cuja construção Verdi contribuiu, meio a contragosto, com a soma então enorme de 10.000 liras, a vitalidade dessa ópera vibrava como nunca.

Verdi, mais tarde, referiu-se a esse fracasso, invocando a triste situação em que se encontrava quando a compôs: havia perdido seus dois filhos pequenos e, enquanto trabalhava nela, morreu-lhe a esposa. Ele próprio foi atingido por uma terrível angina nesse período. O jovem compositor, com 27, sem dinheiro, com problemas para pagar aluguel, era obrigado, por contrato, a escrever uma ópera-bufa! No Scala, não passou da primeira noite, retirada de cartaz antes das seis récitas previstas. Os críticos de então escreveram que, de fato, foi apenas um dia de reino para a ópera. Verdi nunca mais comporia obras cômicas até sua última, 53 anos depois, quando, com 81 anos, dá sua sublime gargalhada final com Falstaff: uma desforra.

Mas, ao narrar a triste história, Verdi conclui, dizendo que foi certamente culpa da música, mas os cantores também tinham sua parte de responsabilidade no fracasso. E, em outro momento, lembra que obras piores, ou tão ruins quanto esse Um giorno di regno, não foram assim tão vaiadas.

No teatro de Busseto, de dimensões tão adequadas para uma ópera-bufa, o publicou ficou grudado na música e na história. Nem um segundo, sequer, de tédio, ou de desagrado. Tantos críticos assinalaram as referências a Rossini, Donizetti, Auber, esquecendo das espantosas novidades que a ópera traz.

Não apenas aquelas novidades, já notadas em vários lugares, de momentos precursores do Verdi futuro, como a passagem que prefigura a marcha triunfal de Aida. Mas a de um espírito novo. Há em Un giorno di regno uma energia musical invencível, uma convicção de impacto, uma força criadora que varre qualquer banalidade. É surpreendente a alma eloquente que aqueles personagens de convenção adquirem com a música.

Teve, em Busseto, intérpretes excelentes. A montagem retomou um projeto original para o Teatro Regio de Parma, assinado por Pier-Luigi Pizzi em 1997, adaptado para as dimensões da pequena cena, e atualizado por Massimo Gasparon. Elegante, fina, convencia com perfeição. Excelente performance da Orquestra e do Coro do Teatro Comunale de Bolonha, sob a regência do jovem maestro Francesco Pasqualeti, perfeitamente vernacular na música de Verdi.

Cantores todos jovens, de grande qualidade. Assinalo, entre eles, o tenor português Carlos Cardoso, no papel de Edoardo di Sanval: voz homogênea, natural, facilidade nos agudos. Um nome que desponta. Ouça-o aqui num dueto de Il viaggio a Reims, de Rossini.

Não há razão alguma para que Um giorno di regno não possa se incorporar ao repertório dos teatros de ópera. Com uma interpretação tão excelente como a de Busseto, é impossível não amar essa joia oculta.


Quinta-feira, 4 de outubro
Le trouvère, no Teatro Farnese, de Parma

Versão muito rara, Le trouvère que Verdi adaptou de seu Il trovatore para Paris. Foi apresentada em Parma, no Teatro Farnese, que não é bem um teatro: é antes uma sala para cerimônias e espetáculos festivos. Trata-se de uma construção de 1618, toda de madeira, que foi bombardeada na segunda guerra mundial e reconstruída. Um salão enorme, magnífico (87m x 32 x 22m), destinado a abrigar 3 mil espectadores em sua arquibancada que toma a forma de um U. Tem um enorme, monumental, arco do proscênio. Um sublime espaço. Dito isso, sua acústica é terrível: o som ecoa como numa enorme caverna.

Curiosamente, no entanto, o som reverberante serviu à notável montagem de Bob Wilson. Os personagens, com os gestos ultraprecisos e lentos, maquiados como no cinema expressionista (Fernand parecia um morto-vivo, e Ruiz, o Nosferatu de Murnau) surgiam como do além-túmulo, e o hieratismo intensificava as paixões, num paroxismo sobrenatural em que a música ressonante tinha algo de fantástico. Em áudio apenas, o som seria injustificável. Mas, ali, colaborava para a magia do espetáculo.

Verdi fez alterações importantes para adaptar sua ópera ao espírito francês: a cabaletta de Léonore, no primeiro ato; todo o primeiro quadro do terceiro ato, incluindo ali um balé de 25 minutos; o final, mais longo e solene. Interveio também no tecido geral da obra, com modificações por vezes microscópicas. Com isso, Le trouvère ganhou uma respiração mais ampla e cerimonial, que se adequava à concepção de Bob Wilson. Adquiriu nova inflexão, fazendo sobressair o papel de Azucena.

Roberto Abbado dirigiu com cuidado, devendo negociar com a lentidão imposta pela inércia dos ecos, mas atento aos detalhes. Foi um grande prazer ouvir o balé, talvez o mais belo escrito por Verdi – que não foi dançado, mas substituído por uma pantomima de lutadores de boxe. 

Manrique foi interpretado por Giuseppe Gipali com elegância, em sua voz clara, de jovem adolescente. Veja aqui na ária “Di quella pira”, num Il trovatore apresentado em Bari.

Franco Vassalo, no papel do conde de Luna, foi o cantor mais aplaudido. Sua voz possui timbre de barítono verdiano e seu personagem demonstrava evidente autoridade. Ouça-o na ária “Per me, ora fatale”, de Il trovatore, cantada no teatro alla Scala, em 2014. 

Nino Surguladze, mezzo soprano nascida na Georgia, com um timbre suntuoso, profundo, excelente atriz, soube encarnar a mais comovente das Azucenas. Ouça-a aqui numa ária de Samson et Dalila.

A soprano Roberta Mantegna assumiu uma sólida Léonore; sua voz se caracteriza por um metal presente no timbre e, sem dúvida, se impõe. Ouça-a aqui, num trechinho de Il Pirata, de Bellini.

Le trouvère foi uma escolha audaciosa do Festival Verdi, tanto pela versão quanto pelo diretor de cena, que deu uma nova percepção dessa grande obra.


Sexta-feira, 5 de outubro
Macbeth, no Teatro Regio, de Parma

A cada geração, volta o mesmo lamento: “não há mais grandes vozes”. A ópera Macbeth, apresentada no teatro Reggio – teatro mítico e de beleza transcendente – foi um desmentido a essa queixa. 

Raras vezes me foi dado ouvir um elenco tão extraordinário e tão adequado para os papéis. Distribuição toda italiana, outro fato raro. A começar pelo protagonista, o baixo Luca Salsi, de voz poderosa, timbre escuro e esplêndido, força interpretativa, arrasadora. É o grande barítono verdiano de hoje; o Macbeth de referência. Ouça a ária “Pietà, rispetto, amore”, dessa ópera, numa récita do teatro de Jesi.

 

Lady Macbeth foi confiada a Anna Pirozzi. Outra intérprete verdiana fenomenal. Volume, timbre de ouro velho, agudos insolentes, homogeneidade, força interpretativa, perfeição estilística. Ela certamente está entre as maiores intérpretes do papel. Para constatar, assista à entrada de Lady Macbeth, gravação feita em Piacenza. Assinalo que Pirozzi virá para o teatro Colón, em Buenos Aires, no início de dezembro, para uma Norma que tem tudo para ser memorável.

Os desempenhos menores tiveram também intérpretes da mais alta qualidade. O baixo Michele Pertusi, cuja carreira internacional confirma seus dotes excepcionais, encarregou-se de assumir Banco, doloroso e forte ao mesmo tempo. Ouça-o no monólogo de Felipe II, de Don Carlo.

Um maravilhoso jovem tenor, Antonio Poli, favorito de Muti, encarnou Macduff. Estilo, presença, sedução vocal: tudo estava ali. Ouça-o na ária desse personagem, sob a regência de Muti.

A direção da Filarmonica Arturo Toscanini e do coro do Teatro Regio de Parma coube ao francês Philippe Auguin, que passa, com a mesma felicidade, de Alban Berg a Henze, de Henze a Wagner e Verdi. Ofereceu, em Macbeth, uma leitura requintada, sem perder a energia necessária. Um Verdi de qualidades musicais verdadeiramente fora do comum. 

Resta a montagem de Daniele Abbado. Na Escócia chove bastante, como se sabe. E Abbado fez chover, muito, no palco. A chuva repetia-se tanto que o efeito chegou a provocar risos. Não havia visão coerente nessa montagem. Efeitos sucessivos, bem pouco originais e pouco articulados entre si. Para ser justo, é preciso dizer que, pelo menos, não atrapalhava a força do teatro e da música verdianos. 

Se quiser dar uma espiada num trechinho dessa montagem, clique aqui.

Em seu projeto de descobertas, o festival encenou a raríssima partitura da estreia, que ocorreu em 1847. Muito mais tarde, em 1865, quando a obra teve uma variante francesa, Verdi a modificou bastante. Levada de volta à Itália, é essa última edição, em italiano, que conhecemos.

Na partitura de origem, pode-se lamentar a ausência do trecho “La luce langue”, cantado por Lady Macbeth da última versão. Mas descobre-se a vibração original do primeiro momento.


Sábado, 6 de outubro
Attila, no Teatro Reggio

Último espetáculo. Uma formidável obra-prima, poderosa, atual, que é Attila; ópera de Giuseppe Verdi bastante ignorada, porém. Verdi investiu nela contra a tirania e criou um de seus raros personagens femininos capazes de vencer a opressão injusta dos homens. Odabella é realmente poderosa, à altura do Attila monstruoso, que ela termina por degolar.

O diretor de cena Andrea de Rosa concebeu um espetáculo expressivo, sem vergonha alguma de empregar efeitos melodramáticos eficazes, que acompanharam muito bem a trama. O início, memorável, mostrava mulheres e crianças escondendo-se da perseguição desencadeada pelos hunos. Tudo se encadeava, com um sentido firme da beleza e do teatro.

O veterano Gianluigi Gelmetti regeu a Filarmonica Arturo Toscanini em um modo perfeitamente vernacular, com sentido do fraseado e com a ciência do excelente acompanhador de cantores. Estes, porém, ficaram um grau abaixo dos espetáculos precedentes. Não estavam em grande forma: ouvi uma piada de um espectador: “será que eles ficaram na farra ontem à noite?”.

Essa observação era injusta para Riccardo Zanellato, que foi um poderoso Attila, dominando a distribuição. Voz sólida, autoridade, timbre bonito: ouça-o nesta mesma produção que comentamos, cantando “Mentre gonfiarsi l’anima”, da segunda cena do ato 1.

 

O barítono búlgaro Vladimir Stoyanov, cantor de bela carreira, emitia agudos inseguros no papel de Ezio. A tessitura de Foresto era evidentemente pesada demais para o tenor Francisco Demuro. E se o timbre da uruguaia Maria Jose Siri mostrou-se luminoso, se o personagem convencia pela veemência, a afinação, por vezes aproximativa, pôde ser constrangedora.

Mas repito: pode ter sido apenas uma noite menos feliz. E, de todos os modos, as restrições que faço são para cantores que não deixam de se situar em nível alto.