Morre, aos 94, Edino Krieger 

por Redação CONCERTO 06/12/2022

Membro da Academia Brasileira de Música, o compositor estava internado desde os primeiros dias de novembro

Morreu na noite desta terça-feira, 6 de dezembro, uma das maiores figuras da música brasileira, o catarinense Edino Krieger, aos 94 anos. Compositor, regente, dirigente cultural, elaborador de políticas públicas para a música, a ópera e a educação das artes, crítico, radialista, professor, formador de público e de artistas, Edino era o último dos integrantes do grupo Música Viva, também formado por Hans-Joachim Koellreutter, Claudio Santoro, Eunice Catunda e Guerra-Peixe. 

Para além do talento criador – sua obra tem um arco fenomenal, da experiência dodecafônica dos anos 1940 a trilhas, balés, sinfonias, do neoclássico ao serialismo –, sua importância vai muito além das práticas e funções que exerceu em instituições como a Funarte, a Sala Cecília Meireles, a Rádio MEC e a Escola de Música da UFRJ. Em reportagem para O Globo na passagem dos 90 anos, disse: “Meu pai adorava seresta e choro, foi mestre de banda e formou em 1929 uma jazz band. Dobrados, marchinhas de carnaval, marchas-rancho, Lamartine e Nazareth estão nos meus ouvidos junto com Schumann, Corelli, Bach”.

Ocupava a cadeira 34 da Academia Brasileira de Música, da qual foi presidente em vários mandatos. Criou orquestras, festivais, bienais, valorizou das bandas à música contemporânea de concerto. 

“Perdemos o maior defensor da música brasileira de concerto, cuja presença ficará marcada para sempre na história e instituições culturais. Perdi o querido amigo; meu mentor e mestre, que me trouxe para a Sala e cujas digitais estão em todas as minhas iniciativas”, disse o compositor e diretor da Sala Cecília Meireles João Guilherme Ripper.

Edino estava internado na Casa de Saúde São José desde os primeiros dias de novembro. Casado desde 1969 anos com a produtora Neném Krieger, tinha três filhos – os músicos Eduardo e Fabiano e o pesquisador e curador Fernando. 

[O velório de Edino Krieger será na será nesta quarta-feira, dia 7, entre às 14h e 17h, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro.]

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Entidades culturais e artistas brasileiros lamentam a morte do compositor:

“A Cultura Artística lamenta o falecimento de Edino Krieger, gestor público, crítico, compositor e produtor musical. Referência na música contemporânea brasileira, Krieger atuou na criação de novos paradigmas, seja em suas composições solo, seja no Grupo Música Viva, do qual participou ao lado de nomes como Guerra Peixe e Claudio Santoro.  Suas composições fizeram parte de recitais históricos da Cultura Artística, como o de Antonio Meneses, em 1995, no qual o violoncelista interpretou Pequena Seresta para Bach, ou 30 anos antes, em 1965, quando a Orquestra Pró-Música de São Paulo incluiu Ronda Breve em seu programa.” Sociedade de Cultura Artística

“Edino Krieger deixou-nos no início desta noite chuvosa e triste no Rio de Janeiro. A música brasileira de concerto despede-se de seu maior defensor, que dedicou a vida à composição, direção de instituições culturais, crítica musical, ações de formação, criação e coordenação de festivais dedicados à música contemporânea, entre outras iniciativas que fazem de Edino um personagem monumental e incontornável da cultura brasileira.” Sala Cecília Meireles

“O país perdeu Edino Krieger, um dos nomes mais importantes da nossa música contemporânea. Respeitado internacionalmente, levou uma existência dedicada à música: aos sete anos iniciou os estudos de violino com seu pai, maestro Aldo Krieger. Compositor, produtor, crítico, maestro e grande gestor musical brasileiro, ocupou diversos cargos ligados ao setor cultural na administração pública, tendo sido presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro de 2003 até 2006. Neste período foi assinado o convênio entre o MIS e o Instituto Jacob do Bandolim para preservação, catalogação e digitalização do precioso acervo de fitas de rolo da Coleção Jacob do Bandolim. Nossas sinceras condolências aos familiares.” Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro

“Lamentamos o falecimento de Edino Krieger, compositor, produtor cultural, maestro, crítico musical e querido amigo da Osesp. Dentre as partituras que escreveu, três delas foram dedicadas a nós (o que muito nos honra!): a Fanfarra sobre motivo do Hino Nacional (2010), a Fantasia Concertante (2016) e a Passacalha para o Novo Milênio. Composta em 1999 e estreada em 2000, sob regência do maestro Roberto Minczuk, a Passacalha... nos acompanhou em turnês pelos Estados Unidos e Europa, foi registrada por nós no disco Danças Brasileiras, lançado pela BIS em 2011, e é um dos primeiros títulos a integrar o catálogo da Editora Osesp. A música de Edino também nos acompanhou em nossa última visita aos Estados Unidos, em outubro deste ano. Em North Bethesda e no Carnegie Hall, em Nova York, tocamos o Monólogo das Águas, parte de seu Canticum Naturale (1972), sob regência de Marin Alsop e com a soprano Camila Titinger como solista.” Fundação Osesp

“Sua obra é única, revestida de personalidade, inspiração e, acima de tudo, vida! Tivemos o privilégio de conviver com um ser humano iluminado, que promoveu um bem incomensurável a diversos entes culturais e mobilizou a arte brasileira de forma extremamente pujante. Seu legado vai além de suas composições e sua contribuição para o fomento e difusão da cultura nacional. Ficarão conosco exemplos de dignidade, cordialidade, retidão e muita entrega ao ofício que abraçou de corpo e alma! Somos e seremos sempre gratos por tudo e levaremos seu legado adiante, com a mesma bravura e excelência que dedicou ao propósito de engrandecer nossa arte e sociedade.” Orquestra Petrobras Sinfônica

“É com imenso pesar que a Funarte se despede de um de seus maiores amigos e colaboradores. Um músico ímpar, dedicado, talentoso, incomparável. Um mestre na defesa da música brasileira de concerto, sua maior paixão. Edino dedicou a vida à composição, direção de instituições culturais, crítica musical, ações de formação, criação e coordenação de festivais dedicados à música contemporânea, entre outras iniciativas que fazem de Edino um personagem monumental e incontornável da cultura brasileira.” Funarte

“Edino Krieger partiu nessa noite triste e chuvosa. Meu querido amigo, mentor e mestre, figura monumental e incontornável de nossa música, compositor e gestor brilhante! Fui estagiário da Funarte no início dos anos 80, quando ele era Diretor do Instituto Nacional de Música. Depois tornei-me seu auxiliar na coordenação das Bienais da Música Brasileira Contemporânea. Aprendi muito pela sua generosidade e confiança. Foi Edino quem me trouxe para a Sala Cecília Meireles e suas digitais estão lá e ficarão para sempre, por toda parte, em todas as minhas iniciativas. Edino seguirá vivo através de sua música, de sua obra, de seu exemplo e da legião de amigos e admiradores.” João Guilherme Ripper, compositor e diretor da Sala Cecília Meireles

“Foi-se o grande Edino Krieger — a quem devo a enorme alegria de ter me dedicado um concerto para violoncelo e orquestra de sua autoria, que estreou comigo e a Orquestra Sinfônica Brasileira em 2005. Vá em paz!” Antonio Meneses, violoncelista

“Edino foi homem generoso e amado por todos, amoroso esposo, pai e amigo. Como compositor é criador de obras dentre as mais relevantes da história da música brasileira. Dentre suas inúmeras realizações como gestor destaca-se a criação, em 1975, da Bienal da Música Contemporânea Brasileira, longevo evento que tem sido decisivo na projeção de várias gerações de compositores brasileiros. Deixo os meus mais profundos sentimentos a sua esposa Nenem Krieger, aos seus filhos, familiares e amigos. Que tenhamos todos força espiritual para lidar com tão grande perda.” Dimitri Cervo, compositor

“Um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, Edino Krieger. Tive a honra de encomendar e estrear a Passacalha para um novo milênio (Osesp), Ritmetrias (Festival Internacional de Campos do Jordão), Abertura carioca (OSB) e reger também a estreia do seu Concerto para violoncelo com Antônio Meneses e OSB. Artista único, Pessoa integra e maravilhosa!!! Sua alma e sua música viverão para sempre! Obrigado, grande Edino!" Roberto Minczuk, maestro, regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo 

"Perdemos Edino Krieger. Nosso grande compositor e administrador musical partiu aos 94 anos, deixando um legado incomensurável para a música brasileira. O autor do Canticum Naturale, do Ludus Symphonicus, da Ritmata para violão, das Sonâncias para violino e piano e tantas outras peças emblemáticas da nossa criação musical, nos ofereceu não apenas um primoroso catálogo de obras mas também o exemplo de alguém que trabalhou a vida inteira pela difusão da música do seu país. O selo Pro-Memus na Funarte (um precioso celeiro de edição de partituras e gravação de obras brasileiras) e o Banco de Partituras na Academia Brasileira de Música foram dois projetos com que Edino contribuiu imensamente para a difusão da música brasileira de concerto, no presente e no passado. A criação dos Festivais da Guanabara (1969/70) e posteriormente das Bienais de Música Brasileira Contemporânea (a partir de 1975) proporcionou a consolidação de gerações de compositores brasileiros. Edino tinha enorme prazer em ajudar um jovem compositor. Eu me incluo na extensa lista de compositores por ele ajudados, que inclui Marlos Nobre, Almeida Prado, Aylton Escobar, Tim Rescala, Guilherme Bauer, Nestor de Holanda, Ernani Aguiar, João Guilherme Ripper e Arthur Kampella, entre muitissimos outros, inclusive mais jovens. Conheci Edino na década de 1960. Eu trabalhava no Jornal do Brasil e ele na Rádio JB, onde comandava o Programa Primeira Classe. Aos poucos nos aproximamos. Eu, um estudante de composição, ele um compositor renomado. Com pouco tempo de conhecimento, dele fui recebendo demonstrações de confiança e apreço. (...) Em 1985, quando fui afastado do Jornal do Brasil depois de 19 anos, Edino mais uma vez me prestigiou. Tornou-me seu Coordenador de Música Brasileira e em seguida seu vice-diretor, no Instituto Nacional de Música da Funarte, época em que vimos nascer o Ministério da Cultura. Primeira tarefa: produzir em quatro meses (junho a outubro de 1985) a VI Bienal de Música Brasileira Contemporânea. A coordenação desse importante evento se repetiu sob a minha responsabilidade em 1987 e 1989. Após cinco anos, deixei a Funarte. Novas tarefas me levaram à UFRJ, a um breve retorno à crítica, à Sala Cecilia Meireles e à USP. Mas a amizade com Edino prosseguiu sólida nos anos 1990 e nas duas primeiras décadas de 2000. O meu respeito e admiração por ele, notável compositor e excelente gestor musical, permaneceram em crescente processo de solidificação. Creio que Edino pôde colher em vida os frutos de tudo quanto semeou. Não encontro paralelo, no nosso meio musical, de uma figura tão solidária e tão generosa.” Ronaldo Miranda, compositor

“Hoje perdemos Edino Krieger, esse gigante incomparável da música brasileira. Um coração extremamente generoso, e uma pessoa que revolucionou a história de nossa música.” Alexandre Dias, pianista e criador do Instituto Piano Brasileiro

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Edino Krieger (1928-2022) (divulgação)
Edino Krieger (1928-2022) (divulgação)

 

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