Theatro Municipal de São Paulo vai manter programação; Fabio Mechetti será diretor musical

por João Luiz Sampaio 04/06/2026

À frente do teatro desde a última segunda-feira, Instituto Baccarelli mantém Roberto Minczuk como regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal e Luiz Fernando Bongiovanni assume o Balé da Cidade de São Paulo

A programação anunciada no início do ano para o Theatro Municipal de São Paulo será mantida, o que inclui as óperas. Além de Jorge Takla como novo diretor artístico, o maestro Fabio Mechetti será agora diretor musical da Orquestra Sinfônica Municipal, que segue tendo Roberto Minczuk como regente titular. Luiz Fernando Bongiovanni é o novo diretor do Balé da Cidade de São Paulo e Maíra Ferreira e Hernan Sanchez Arteaga seguem à frente do Coral Paulistano e do Coro Lírico Municipal. As informações foram confirmadas à Revista CONCERTO por Edilson Ventureli, CEO do Instituto Baccarelli, organização social que desde o dia 1º de junho gere o Municipal. Em entrevista realizada nesta quarta-feira, Venturelli, que assume como diretor geral do Municipal, falou também sobre os planos para a gestão e suas prioridades, como a defesa e a valorização dos corpos estáveis, e a relação do teatro com a vida política.

Uma questão que tem sido colocada pelo público diz respeito à manutenção ou não da programação previamente anunciada para 2026. Em julho, por exemplo, está prevista uma montagem da ópera Tristão e Isolda, de Wagner. A programação será mantida? Há questões orçamentárias a serem consideradas?
Tristão e Isolda será realizado em julho, como já estava anunciado. Estamos estudando algumas questões, mas ainda não tomamos nenhuma decisão. Nossa intenção é manter a programação como ela está, tentando inclusive enxergar na agenda se há como ampliar um pouco o número de concertos sinfônicos. Mas são os primeiros dias, ainda estamos nos inteirando. Na sexta-feira, logo cedo, já temos reuniões sobre isso, pois estamos colocando muita atenção na questão da programação para tomar algumas decisões. Não há questões orçamentárias, mas, sim, operacionais, talvez possamos pensar em substituir um título, mas sem mudar o cerne daquilo que já está programado. 

Seria, então, a troca de um título de ópera, mas sem mexer no número de produções, é isso?
Não, nas óperas não, vamos manter tudo como está. Nos concertos, há um programa cujo título podemos mudar, mas sem mexer no que está programado. 

Tristão e Isolda será realizado em julho, como já estava anunciado. Nossa intenção é manter a programação como ela está, tentando inclusive enxergar na agenda se há como ampliar um pouco o número de concertos sinfônicos

Você teve no começo da semana a primeira conversa com os artistas dos corpos estáveis. Como foi esse primeiro contato?
Na segunda-feira, nós reunimos todos os artistas, técnicos e colaboradores, convidamos quem quisesse conversar conosco. Eles tinham acabado de fazer uma ópera no domingo à noite, mas eu acho que era necessária a conversa. Fiquei bastante feliz com a receptividade dos artistas, até porque trouxemos alguns posicionamentos que vêm ao encontro dos anseios deles, como a valorização dos corpos artísticos, a ideia de voltar a fazer ópera dentro da tradição da ópera. Não se trata de criticar o que foi feito antes, o passado não é nosso. Mas, quando convidamos Jorge Takla para ser diretor artístico, é uma sinalização do que a gente espera, do que a gente pretende como programação. Eu tenho uma relação pessoal com muitos dos artistas, tenho muito tempo de estrada. Muitos dos cantores do Coro Lírico e do Coral Paulistano cantaram comigo no Coral Baccarelli, crescemos juntos. Além disso, na Orquestra Sinfônica Municipal há hoje 13 ex-alunos do Instituto Baccarelli, e uma quantidade de outros músicos que são ou já foram nossos professores. Então, o Baccarelli não é novo para eles. E teve uma coincidência muito bacana porque o Lírico, o Paulistano e o Quarteto da Cidade de São Paulo foram nesses últimos meses se apresentar no nosso teatro. Eles puderam conhecer quem nós somos lá, em Heliópolis. Ali eu já coloquei a minha forma de ser, porque, quando eles foram se apresentar no nosso teatro, eu estava lá para recebê-los. Ontem, assisti a Intolleranza 1960, foi a primeira récita de ópera na nossa gestão. E, antes do espetáculo, fui na sala dos músicos, no camarim do coral. Um músico virou para mim e falou: é a primeira vez que um diretor do Complexo Theatro Municipal desce na nossa sala. Eu sou assim, eu sou chão de fábrica, não sou um cara que fica trancado na sala. Agora há pouco mesmo, diagnosticamos uma questão no próximo concerto do quarteto, que estava marcado para o dia 11 de junho, quando haverá um evento de abertura da Copa do Mundo no Anhangabaú. Eles estavam ensaiando aqui com o Quaternaglia e eu fui até lá, conversar com eles, falamos e mudamos o concerto para o dia 10. É assim que pretendo fazer. Eu pretendo, principalmente nesse início, tratar pessoalmente, para escutar as pessoas. 

Eu não vou mudar texto, música de ópera, eu não vou trocar momentos de lugar. Isso não significa não inovar, não trazer o moderno, mas, sim, respeitar as obras como elas foram escritas e pensadas. Não há passo para trás, não há retrocesso

Quando você fala em uma visão dentro da tradição da ópera, você está se referindo a que exatamente? À escolha de repertório, ao caráter das montagens?
O que a gente quer dizer? Por exemplo, que não pretendemos mudar o que o compositor escreveu. Eu não vou mudar texto, música, eu não vou trocar momentos de lugar. Isso não significa não inovar, não trazer o moderno, mas, sim, respeitar as obras como elas foram escritas e pensadas. Nesse sentido, não há passo para trás, não há retrocesso, não significa uma opção por um conservadorismo. Queremos escolher títulos que sejam bacanas, que o público queira assistir, o que também não nos impede de trazer provocações, de trazer títulos não muito apresentados, mas com um olhar curatorial que busca a excelência artística em tudo. Tem dois pilares básicos do Baccarelli, dos quais a gente não abre mão: a excelência e o respeito ao ser humano. Quando eu falo de excelência, não é só excelência artística, é em tudo que a gente vier a fazer. Eu quero uma casa bonita, bem cuidada, um teatro do qual as pessoas sintam orgulho por estar lá dentro, um teatro bem pintado, bem mantido, bem limpo. Isso é excelência. E respeito ao ser humano, o que quem conhece a gente sabe que é fundamental.

Na nossa gestão, não cogito de forma alguma aceitar nenhuma ingerência no sentido de desmobilização dos corpos artísticos. Pelo contrário, eu vou trabalhar incansavelmente pela valorização dos corpos artísticos

Como fica o organograma do teatro? Você assume a direção geral? Os regentes dos corpos estáveis permanecem nos cargos?
Eu assumo a direção geral do teatro, estarei aqui, eu sou a linha de frente. Eu trago comigo, ao meu lado, o Jorge Takla como diretor artístico, um cargo que na gestão anterior não havia. Estamos fazendo uma mudança no Balé da Cidade de São Paulo, que será dirigido agora pelo Luiz Bongiovanni, que já foi bailarino da casa e estava nos últimos anos no Teatro Guaíra. Houve muitas informações falsas, no sentido de que nós tínhamos a intenção de transformar o grupo em uma companhia clássica. Isso não é verdade. Mas nós vamos, sim, ampliar o repertório do Balé da Cidade de São Paulo. A gente não vai negar o contemporâneo, que é a principal característica do Balé, uma força enorme da companhia, mas a gente pretende, nos próximos tempos, também revisitar programas diferentes daqueles do balé contemporâneo. Não é mudar o modelo, mas ampliar o repertório. Nesse momento, estamos mantendo os maestros do Coral Paulistano e do Coro Lírico. E estamos mudando a estrutura da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. O maestro Roberto Minczuk continua como regente titular, a Priscila Bomfim segue nesse momento como regente adjunta. Mas estamos trazendo o maestro Fabio Mechetti para assumir a direção musical da OSM. É o modelo que estamos colocando, vamos testar. E o tempo vai dizer como fica. O maestro Mechetti tem uma relação muito profunda com o Municipal. O avô dele fundou o Coro Lírico, o pai foi regente do coro. O primeiro trabalho artístico do Mechetti foi com cinco anos de idade, no coro infantil em uma ópera no Municipal. Veja, uma das coisas que já ouvi dos artistas do Lírico, por exemplo, é que eles não tinham com quem conversar sobre o repertório que iam fazer, não tinham ninguém que ouvisse. Agora, vamos ter o Takla, um diretor experiente e capaz de alinhar, conversar com todo mundo. Acredito que vamos, em pouquíssimo tempo, trazer algumas mudanças importantes. Obviamente, estamos assumindo uma programação que já estava pensada, mas vamos buscar melhorar cada vez mais, o máximo possível. A nossa escuta aqui no Municipal vai ser muito ativa, o que não quer dizer que vamos atender tudo o que for solicitado, mas queremos ter uma relação muito próxima com os artistas. Eu quero estar perto da turma, quero sair da minha sala e ir ver um ensaio do Paulistano, do Lírico, ir até o balé, ver a Sinfônica Municipal ensaiando. Minha função, em especial agora, vai ser essa. O Lírico, em especial, está muito machucado, se sentiram subutilizados. A orquestra também. Eu disse a eles: daqui a pouco talvez vocês venham reclamar que estão trabalhando muito. Assumi um compromisso público com eles: na nossa gestão, não cogito de forma alguma aceitar nenhuma ingerência no sentido de desmobilização dos corpos artísticos. Pelo contrário, eu vou trabalhar incansavelmente pela valorização dos corpos artísticos.

A turma da direita talvez hoje fique mais feliz com o fato de a gente estar na gestão. Mas não é porque nós somos da direita, é porque nós não temos uma ideologia

No ano passado, o Municipal se viu em meio a uma disputa política, que mobilizou músicos, público, vereadores. Por um lado, a Sustenidos foi alvo de críticas por fazer o que para  alguns era uma programação “identitária”. Ao mesmo tempo, houve a leitura de que uma ala conservadora da Câmara não pretendia tirar a política da vida do teatro, mas, sim, mudar a orientação da programação em direção a suas próprias crenças. O Baccarelli ainda não geria o teatro, mas chega com essa questão ainda muito recente. Como pretende lidar com ela?
Eu falei na minha reunião com os colaboradores do teatro que o Instituto Bacarelli é uma instituição apolítica. O Bacarelli se relaciona muito bem com as três esferas de governo. E não haverá espaço para ideologia política na nossa gestão, nem para um lado, nem para o outro. Viemos aqui para fazer arte, para fazer música, como ela é. O equipamento Theatro Municipal pertence à cidade de São Paulo, quem gerencia é a prefeitura da cidade de São Paulo. É claro que quem foi eleito para pensar política pública é quem está na cadeira de prefeito, na cadeira de secretário. Eles determinam a política que deve ser executada e a nós cabe executar da melhor forma. Mas ideologia você não vai ver, nem para um lado, nem para o outro. No Baccarelli, eu nunca contratei uma pessoa por causa do seu posicionamento político. Todo mundo é contratado pelo seu caráter e pela sua capacidade. Eu falo para a turma que a gente tem sim um partido político, é o PIB, Partido Instituto Baccarelli. Nesse sentido, eu vou falar com quem eu precisar falar para fazer o Baccarelli crescer, principalmente Heliópolis, que é o nosso coração, é o nosso DNA, é para o que nós surgimos. Eu posso te garantir, aliás, que o fato de estarmos agora na gestão do Municipal de forma alguma vai ofuscar nosso trabalho em Heliópolis. É lá que eu me alimento, é lá que eu vibro, é lá que a minha alma se abastece. Mas, voltando à sua pergunta, a turma da direita talvez hoje fique mais feliz com o fato de a gente estar na gestão. Mas não é porque nós somos da direita, é porque nós não temos uma ideologia.

O Baccarelli concorreu há cinco anos para fazer a gestão do Municipal. De lá para cá, o instituto ampliou suas atividades, construiu e inaugurou seu teatro, passou a fazer a gestão de doze CEUs. Como você define a importância de chegar agora ao Municipal?
Nós completamos trinta anos em 2026. Eu entendo que a vida foi muito generosa com a gente ao não nos deixar entrar no Municipal cinco anos atrás. Hoje, somos uma instituição mais madura, mais bem preparada. A gestão dos CEUs nos últimos quatro anos nos deu musculatura como instituição, hoje temos times maiores, mais profissionais do nosso lado. Então, certamente o Baccarelli está muito melhor preparado hoje. Assumir a gestão da mais tradicional sala de espetáculos da cidade de São Paulo é muito emblemático se você levar em consideração também que o Baccarelli é uma instituição que nasceu para cuidar da favela de Heliópolis. Nós nascemos para transformar a vida daquelas pessoas. Se você levar em consideração que há 30 anos atrás nós éramos questionados pejorativamente por querer levar a música clássica para a favela, hoje uma instituição que nasceu com esse propósito, que tem esse DNA, que tem a sua sede na favela de Heliópolis, assume a mais tradicional casa de espetáculos, da música clássica, da música de concerto, da ópera da cidade de São Paulo e uma das mais importantes da América Latina. Isso tem um simbolismo enorme. Tem um peso simbólico. É a periferia tomando conta de algo especial, de algo tão querido pela cidade. Nós temos conosco lá em Heliópolis o maior maestro brasileiro vivo, Isaac Karabtchevsky, uma das boas orquestras do Brasil, que é a Sinfônica Heliópolis. Os nossos corais são maravilhosos, sou apaixonado por eles. Trabalhamos muito e com seriedade, sem abrir mão da excelência. E esses valores nos dão credibilidade para estar aqui no Theatro Municipal.

A sala de espetáculos do Theatro Municipal de São Paulo [Divulgação/Stig de Lavor]
A sala de espetáculos do Theatro Municipal de São Paulo [Divulgação/Stig de Lavor]

 

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