Encontro mundial de bandas sinfônicas e conjuntos de sopros no Rio de Janeiro foi verdadeiro festival musical com importantes grupos brasileiros e internacionais
O Rio de Janeiro recebeu esta semana a 21ª Conferência da Wasbe, World Association for Symphonic Bands and Ensembles (Associação Internacional de Bandas Sinfônicas e Conjuntos). É a primeira vez que o principal encontro mundial dedicado às bandas sinfônicas e aos conjuntos de sopros foi sediado no Brasil e na América Latina. A realização do evento reuniu a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Funarte, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a Sala Cecília Meireles, sob a liderança do maestro Marcelo Jardim. Mais do que um encontro internacional, a Wasbe revelou a vitalidade do universo das bandas sinfônicas, reunindo novas composições, estreias mundiais, arranjadores de alto nível e conjuntos de excelência.
Os números impressionam: em seus 6 dias de duração – as atividades aconteceram entre os dias 20 a 25 de julho – a conferência promoveu cerca de 50 apresentações, além de palestras e debates com especialistas, um concurso de composição, um concurso de regência e vários workshops para os instrumentos de banda. O encontro também recebeu o Fórum Funarte de Bandas de Música, com o propósito de fortalecer as políticas públicas para o setor.
Entre os convidados internacionais, destacaram-se a Sinfônica de Sopros da Universidade de New Mexico (EUA), a Banda Sinfônica da Universidade Javeriana (Colômbia), os Solistas SAMP Portugal, a Filarmonia de Sopros de Mannheim (Alemanha) e o Conjunto de Sopros da Universidade do Estado de Oregon (EUA). E entre os conjuntos brasileiros, apenas para citar alguns, apresentaram-se a Orquestra de Sopros de Lençóis Paulista, a Filarmônica Municipal Prof. José Agostinho de Santarém, a Favela Brass, a Orquestra de Sopros Aprendiz Musical e as Bandas Sinfônicas de Cubatão, do Exército Brasileiro, da Unirio, do Conservatório de Tatuí e do Corpo de Fuzileiros Navais.
Estive no Rio de Janeiro na quinta, dia 22, para conhecer este verdadeiro festival de bandas sinfônicas. Além de acompanhar uma palestra da programação Wasbe Clinics e presenciar o último dia do Fórum Funarte de Bandas, assisti a nada menos do que 5 concertos em alguns dos mais importantes e históricos teatros e espaços do Rio.
O dia começou às 9 horas, no Auditório do Palácio Gustavo Capanema – edifício de Lúcio Costa e Niemeyer dos anos 1940, no centro do Rio, marco da arquitetura moderna brasileira – com Chris Westover Muñoz, maestro e professor da Denison University, nos Estados Unidos. A partir de um estudo feito com a música do Chile, Chris fez uma exposição sobre como a história da música popular e de seus grupos está ligada aos acontecimentos políticos e sociais.
Na sequência, também no auditório – a sede da Funarte funciona no Palácio Capanema – aconteceu a terceira reunião do Fórum Funarte de Bandas de Música, com a participação do presidente da Funarte, Leonardo Lessa, e da diretora do centro de música, Eulícia Esteves, entre outros. Após um extenso relato sobre os 50 anos da Funarte e de seu Projeto Bandas, foi proposta a criação de um grupo de trabalho para a elaboração de políticas públicas de fomento às bandas – conforme cadastro da Funarte, há mais de 3 mil bandas ativas em todo o Brasil. As bandas estão presentes em todas as regiões e são responsáveis por grande parte da produção musical do país.
Em seguida ao Fórum Funarte, aconteceu, também ali, a apresentação do Conjunto de Sax da UFRJ, liderado por Pedro Bittencourt. No programa, Ernesto Nazareth, Antonio Pinto Junior e Radamés Gnattali.
Mas a maratona musical começou mesmo depois do almoço. Às 14h na Sala Cecília Meireles – não mais do que 15 minutos a pé do Capanema –, a atração foi a Orquestra de Sopros da Filarmônica de Volta Redonda, que tem direção de Nilton Soares. Entre outras peças, o programa teve uma obra de Edmundo Villani-Côrtes, a Frevata, para quarteto de trombones e banda, a bonita Vento Sul do compositor Gilberto Salvagni – Gilberto estava lá para ser aplaudido – e As aventuras de Pedro Malasartes, de Tim Rescala, que regeu a composição. Com inventividade e a sua sempre inspirada verve musical, Rescala musicou as estripulias do personagem folclórico, que ganhou voz pelo tenor Cleyton Pulzi.
Sem tempo a perder – a próxima atração era às 16h –, voltei ao Capanema, mas desta vez para uma apresentação ao ar livre, sob a marquise, entre os pilotis cilíndricos de sua arquitetura modernista. Quem tocou foi a Banda Marcial do Projeto Música nas Escolas de Barra Mansa, sob direção de Hércules Alves. Foi uma apresentação empolgante, com arranjos inventivos e bem escritos, explorando as riquezas e particularidades da banda sinfônica – sopros e percussão –, com temas da música popular brasileira. Música para banda ao ar livre, sem formalidades e em clima de animação. E com um evidente e enorme prazer de tocar!
O concerto seguinte foi na Escola de Música da UFRJ, na bela Sala Leopoldo Miguez, também ela rico patrimônio carioca – inspirada na Sala Gaveau, de Paris, o prédio tem mais de 100 anos. Quem se apresentou lá foi a Banda Sinfônica da Faetec Marechal Hermes, com regência de Lélio Alves. O programa trouxe obras de Villa-Lobos (Trenzinho do caipira em transcrição de Dieter Lazarus), Anacleto de Medeiros, Lorenzo Fernandez (Batuque, também em versão de Lazarus) e Guerra-Peixe (Mourão, em arranjo de Ivan Espírito Santo), e dos contemporâneos Gilson Silva (1981), Hudson Nogueira (1968) e Gilson Santos (1977).
Aqui, faço dois comentários, que também se aplicam a outras apresentações: primeiro, o grande número de transcrições e arranjos, ou seja, muitos músicos com competência e habilidade para, sem receio, trabalharem também sobre obras canônicas da música brasileira; e, segundo, muitas composições sendo escritas na atualidade.
Os dois últimos concertos do dia, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – a 10 minutos a pé da Escola de Música – foram o fecho perfeito para a maratona musical.
Primeiro, às 19h, a espetacular Orquestra de Sopros da Universidade de Michigan, dos Estados Unidos. Dezesseis músicos – flautas, oboés, clarinetes, fagotes, trompas, trompetes, trombones e dois percussionistas –, em variadas formações instrumentais, apresentaram um concerto em que até mesmo o mais exigente e rigoroso ouvinte “clássico” não faria objeções: um grande virtuosismo, com afinação precisa, rica sonoridade, articulações e dinâmicas cuidadas e um impressionante equilíbrio instrumental. O grupo foi dirigido pelos maestros Jason Fettig, Courtney Snyder e Richard Frey, este responsável por um arranjo da abertura de Fosca de Carlos Gomes, em estreia mundial. O concerto ainda teve o Octeto (1923), de Stravinsky, e obras dos contemporâneos Gao Hong (1964), Gilda Lyons (1975) e Rubén Dario Gómez Prada (1975), uma composição original em estreia mundial.
Finalmente, às 20h, apresentou-se a anfitriã Orquestra de Sopros da UFRJ, sob direção de seu diretor musical e regente Marcelo Jardim, que é também o presidente do comitê organizador local da Wasbe Rio. Com 70 músicos – entre instrumentos de sopro, percussão, piano e harpa – a orquestra realizou duas estreias mundiais: A dobra, de Liduíno Pitombeira (1966), e o Concerto para quinteto de sopros e banda sinfônica, de Tibor Fitel (1976). O concerto teve ainda Pro Pax (1912) e o Concerto Grosso para quarteto de sopros e orquestra de sopros, de Villa-Lobos – este regido pelo maestro convidado Shawn Smith –, Toronubá, de Dimitri Cervo (em estreia do arranjo para orquestra de sopros), e Xapiri, para quarteto de trompas e banda sinfônica, do brasileiro Gilson Santos (1977), que foi dirigida pela maestra convidada Monica Giardini.
Para terminar, Marcelo Jardim retomou a batuta e regeu Cidade Maravilhosa, de André Filho, em arranjo de Gilson Santos. Logo que a orquestra atacou os primeiros acordes da famosa melodia, verdadeiro hino carioca, Jardim voltou-se à plateia incentivando-a a cantar.
É verdade: “Cidade maravilhosa / Cheia de encantos mil / Cidade maravilhosa / Coração do meu Brasil”!
Viva as bandas sinfônicas!
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