Encenação moderna tem homens engravatados, projeção de vídeo e colisão de carro; Christian Gerhaher é destaque em elenco de alto nível
ZURIQUE - Assisti à estreia da nova produção de Tannhäuser, ópera de Richard Wagner, no último domingo, 21 de junho, na Ópera de Zurique. E foi uma realização musical extraordinária! A direção musical e regência foram do maestro russo Tugan Sokhiev, que, dando tempo ao tempo, logrou uma interpretação notável. Foi muito bom o desempenho vocal dos solistas, todos de alto nível, e a orquestra e o coro acompanharam com grande competência. O teatro de ópera de Zurique, o Opernhaus, talvez por suas dimensões relativamente reduzidas e seu amplo fosso, oferece um som rico com excelente equilíbrio entre a orquestra e as vozes do palco.
Soou lindamente o prelúdio de abertura da ópera, com frases bem desenhadas, já dando uma ideia do que viria pela frente. Sokhiev soube explorar todo o potencial musical da partitura, em uma interpretação ao mesmo tempo intensa e sensível. Entre os solistas, o destaque coube ao barítono alemão Christian Gerhaher: com timbre maduro, projeção homogênea e cuidadas inflexões vocais, Gerhaher fez o papel de Wolfram, que culminou com uma emocionante interpretação da ária “O du, mein holder Abendstern”. (Christian Gerhaher apresentou-se no Brasil em 2005, como solista da Osesp, no oratório Elias, de Mendelssohn, sob regência de John Neschling.)
Mas também os demais solistas tiveram ótima atuação: o tenor norte-americano Eric Cutler cantou o Tannhäuser, a soprano sueca Christina Nilsson, de voz clara e brilhante, e a mezzo norte-americana Rachel Wilson fizeram, respectivamente, Elisabeth e Vênus, e o baixo alemão Christof Fischesser interpretou Hermann, com bela voz e presença.
O diretor cênico que assina a produção é o islandês Thorleifur Örn Arnarsson, que contou com a artista Erna Mist como cenógrafa.
A ópera Tannhäuser apresenta o dilema entre duas formas de existência: de um lado, o Venusberg, a montanha de Vênus, o lugar dos prazeres onde a deusa Vênus satisfaz todos os desejos; de outro, o mundo da Wartburg, regido por normas, disciplina e ideais de pureza. Na concepção de Arnarsson, o conflito entre esses dois mundos se torna um drama de identidade e desenraizamento existencial.
Na concepção de Arnarsson, o conflito entre esses dois mundos se torna um drama de identidade e desenraizamento existencial
A intenção do diretor, segundo a entrevista publicada no programa, é apresentar Tannhäuser como alguém que não encontra o seu lugar no mundo e nem dentro de si. Arnarsson concebe a ação como uma jornada que ocorre na mente fragmentada de Tannhäuser, um homem sem pátria perdido em um labirinto, que em nenhum lugar se sente em casa. É um eterno peregrino angustiado.
Na nova montagem, Venusberg é um ambiente sem cores, envolto em fumaça, com uma imensa mesa cheia de copos vazios. É um espaço frio e monocromático. E é ali, no Venusberg, que Tannhäuser se perdeu há sete anos. E como segue insatisfeito e torturado, resolve retomar a sua peregrinação.
Nesse instante, abre-se uma enorme tela cobrindo o fundo do palco com a projeção ao vivo do interior de um carro. O motorista é Wolfram, acompanhado de outros cinco homens engravatados. A viagem está caótica. Enquanto Wolfram tenta conduzir o veículo, os outros, em algazarra, se divertem e cheiram cocaína.
De repente, um estrondo, copos estilhaçando, fumaça. O carro invadiu o palco e se chocou contra a mesa de copos do Venusberg
De repente, um estrondo, copos estilhaçando, fumaça. O carro invadiu o palco e se chocou contra a mesa de copos do Venusberg. E assim, Tannhäuser reencontra Wolfram e os outros trovadores, que o fazem recordar sua vida anterior, em Wartburg, e Elisabeth, que ele abandonara. Resolve então voltar e se reconciliar com aquele mundo que havia renegado. Porém, quando finalmente Elisabeth aparece, ela é uma estátua, uma representação da solidão e da impossibilidade de amar de Tannhäuser.
A encenação do novo Tannhäuser é assim, cheia de símbolos, deslocada no tempo e no espaço. Nada de cenários mitológicos, natureza ou figurinos de época. Wartburg do segundo ato é um salão sem janelas ou portas, de paredes douradas, retas e altas, que fecham lateralmente tornando o espaço cada vez mais estreito e sufocante. No terceiro ato, veem-se imensas lâminas de vidro espetadas sobre o palco, que gira lentamente, com uma contraluz tomando todo o fundo do palco. Plasticamente, um cenário bonito e impactante.
No geral, se é preciso reconhecer uma encenação repleta de boas ideias e de virtuosismo técnico – especialmente na cena da colisão do carro –, a viagem interior pela mente fragmentada de Tannhäuser confere à montagem uma dimensão excessivamente abstrata e subtrai da ópera um lado mais orgânico e vital. A apresentação de Elisabeth como uma estátua é talvez o exemplo mais emblemático dessa opção, pois, ao reduzi-la à projeção idealizada por Tannhäuser, a encenação acaba por atenuar a intensidade do drama humano vivido pela personagem, enfraquecendo o próprio conflito emocional do protagonista.
O novo Tannhäuser da Ópera de Zurique se destaca pela incontestável excelência de sua realização musical. Já a opção cênica de Thorleifur Örn Arnarsson, ainda que eventualmente controversa, é também rica e revela uma proposta artística consistente.
Ao sair do teatro, lembrei-me de um artigo que lera no dia anterior no jornal austríaco Die Presse, escrito pelo ex-diretor da Ópera Estatal de Viena, Ioan Holender, com o sugestivo título “Assim a ópera não sobreviverá”. Holender é categórico ao afirmar que a supervalorização dos conceitos dos encenadores em detrimento da música e do libreto ameaça a própria sobrevivência da ópera.
Holender é categórico ao afirmar que a supervalorização dos conceitos dos encenadores em detrimento da música e do libreto ameaça a própria sobrevivência da ópera
O debate sobre os limites das releituras cênicas não é novo e tampouco se restringe à Europa. É só lembrar daqui de São Paulo, onde, nos últimos anos, tivemos acirradas polêmicas em torno de algumas produções do Theatro Municipal.
Em ópera, as montagens tradicionais continuam válidas, claro. Mas também o são as novas leituras, pois elas procuram estabelecer pontes entre as obras consagradas e as questões de cada época e impedem que o repertório histórico se transforme em mero objeto de contemplação.
Entre tradição e renovação, a ópera continua encontrando formas de dialogar com o mundo atual, complexo e conturbado. É essa vitalidade que garante a permanência e a atualidade dos grandes clássicos.
Veja abaixo fotos da encenação de Tannhäuser, nova produção da Ópera de Zurique (divulgação, Herwig Prammer)
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