A coroação do processo de resgate da obra de Henrique Oswald

por João Marcos Coelho 30/03/2026

Música orquestral é a última a emergir do esquecimento, por meio de álbum da Filarmônica de Minas Gerais com Fabio Mechetti

O recém-lançado álbum da Filarmônica de Minas Gerais e Fábio Mechetti interpretando obras sinfônicas de Henrique Oswald (1952-1931) é uma espécie de clímax de um demorado processo de resgate da obra deste compositor, escanteado no Brasil por muitas décadas por não abraçar o nacionalismo.

Um movimento iniciado por José Eduardo Martins na década de 1970, e depois reforçado com a tese de Eduardo Monteiro defendida de 2000. Este, aliás, abre sua tese constatando que "é instigante para o pesquisador deparar-se com a obra de um compositor como Henrique Oswald que, tendo sido apreciada e reconhecida em vida, hoje é insistentemente lembrada pelos temas aos quais não se dedicou ou por aquilo que não representou".

Um pouco mais adiante, anota o "preconceito que é insistentemente associado a esse autor, motivado pelo fato de sua música ser essencialmente europeia. Ela não soa como aquela das futuras gerações de compositores nacionalistas, cujo grande ícone é Villa-Lobos. Constata-se na maior parte das referências sobre Oswald, sejam elas escritas ou orais, que tal característica é encarada como um fator depreciativo de sua obra". Se você quiser ir mais fundo nas razões deste preconceito, basta ler a tese de Monteiro.

Pois sua música orquestral é a última a emergir do esquecimento, por meio deste álbum da série A Música do Brasil, gravado entre 19 e 23 de fevereiro de 2024 na Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte.

Demorou demais, mas hoje o distanciamento histórico nos permite ouvir sua encorpada Sinfonia e uma primeira gravação mundial de uma obra de 1897, a Sinfonietta, e assim qualificá-lo  como um belo fruto brasileiro incrustado no romantismo europeu da segunda metade do século XIX. Afinal, ele viveu na Europa entre os 16 e os 52 anos. Aluno de Hans von Büllow e amigo de Brahms, anota Susana Cecília Igayara-Souza no ótimo texto do encarte, mesmo assim voltou ao Brasil em 1903 para assumir a direção do Instituto Nacional de  Música no Rio de Janeiro.

A curta Elegia e a sinfonietta, ambas compostas na Itália, são de 1896/7. A primeira nasceu como uma peça para violoncelo e piano dedicada ao filho Carlos, que começava a estudar o instrumento, e logo orquestrada. Só estreou em 1918, no Rio de Janeiro. Já na Sinfonietta opus 27, destaca-se o primeiro movimento, sem título, o mais longo, com mais de 10 minutos, em forma-sonata.

Mas o destaque maior é a Sinfonia opus 43, em quatro movimentos e 38 minutos. Composta em 1910, de certo modo Oswald beneficiou-se por ter estreado num momento histórico da música brasileira em que compositores como Nepomuceno e Francisco Braga  colocavam a música sinfônica no primeiro plano da vida musical. Prova do interesse é que ela estreou no Rio em 1918, com Gino Marinuzzi à frente da Orquestra do Teatro Colón.

É, de fato, uma obra parruda, ganhou elogios até de Mário de Andrade, que gostou particularmente do buliçoso Scherzo, terceiro movimento. Ela caiu no gosto internacional. Felix Weintgartner regeu dois movimentos da sinfonia – o Adagio e o Scherzo – quando esteve no Brasil com a Filarmônica de Viena em 1922. O vibrante Allegro deciso final conclui uma obra que merece ser conhecida e tocada pelas nossas principais orquestras.

Num momento em que as orquestras de fato parecem, no Brasil, funcionar como centros geradores e definidores da vida musical, a Sinfonia de Oswald precisa se espraiar junto a novas plateias. Pois, como afirma Igayara-Souza, é “uma obra de incontestável beleza e sólida construção, um dos mais relevantes exemplos do gênero em toda a literatura sinfônica brasileira”.

E numa leitura apaixonante e apaixonada de Mechetti e a Filarmônica de Minas Gerais.

O maestro Fabio Mechetti à frente da Filarmônica de Minas Gerais [Divulgação]
O maestro Fabio Mechetti à frente da Filarmônica de Minas Gerais [Divulgação]

 

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.