Em concerto da Osesp com trechos de óperas de Wagner, apenas a presença da soprano Aile Asszonyia como Brünhilde foi capaz de evocar o senso de teatro das obras do compositor alemão
Como colocar o ponto final em uma obra de quase 15 horas de duração?
No caso do Anel do Nibelungo, de Wagner, ele talvez caiba em uma só frase.
“Descanse, descanse, ó Deus.”
É disso afinal que trata o Anel. O mundo dos deuses deve desaparecer para que uma nova ordem, baseada na humanidade, possa surgir. Brünhilde, a filha de Wotan, transformada por ele em uma mortal como punição, recupera o anel e o devolve ao Reno. Invoca o fogo; vê o Wahalla, a morada divina, ser destruída. E sacrifica a si mesma nas chamas, como um ato final de redenção. Morre com o mundo para que outro mundo possa nascer.
“Descanse, descanse, ó Deus.”
Há algo de solene neste momento. Mas a música que acompanha a palavra “Deus” carrega também uma ironia que quase se parece com desprezo. É, afinal, o ciclo de corrupção, engano e morte patrocinado pelos deuses o que os leva à ruína. E essa dimensão do texto pareceu particularmente clara na forma como a soprano estoniana Aile Asszonyia a interpretou na última quinta-feira, na Sala São Paulo, em concerto com a Osesp. A cor escura com a qual ela revestiu a voz soou aterrorizante – como se fosse possível sentir não a queda, mas o definhar dos deuses, fragilizados em sua cegueira trágica.
Foi um momento de puro teatro. O primeiro de fato, e também o último, na apresentação regida pelo maestro alemão Marc Albrecht, toda dedicada a Wagner. Na primeira parte, as aberturas de Lohengrin, Os mestres cantores de Nuremberg e Tannhäuser. Na segunda parte, trechos do Crepúsculo dos Deuses: a Aurora e viagem de Siegfried pelo Reno, a música da morte e da marcha fúnebre de Siegfried e a cena final de Brünhilde.
Sim, a música das óperas de Wagner se sustenta independente do texto. E isso se deve à busca do compositor em dar à orquestra um novo papel no discurso dramático: ela deixa de ser apenas acompanhamento da voz para se tornar ativa na condução e no comentário da história.
Mas a independência da música não significa a ausência de teatro. É, afinal, sempre em busca dele que Wagner trabalha sua linguagem sinfônica. Extrair o senso dramático dessas partituras – e cada uma o trabalha de uma forma – e fazer delas apenas veículo para exibição de brilho orquestral, como propôs Albrecht, em leituras que pendiam, de modo artificial, sempre para o mais forte, não é só conceitualmente errado. É tedioso.
Na segunda parte, o jogo mudou, mas pouco. Tudo ainda parecia apressado. Na Aurora, orquestra e maestro passaram por cima da sensualidade que a música carrega enquanto Siegfried e Brünhilde despertam de sua noite de amor; na marcha fúnebre, a força se impôs perante a intensidade; nos momentos finais, optou-se pela beleza da melodia, sem a gravidade de uma música que, em seus contrastes, fala da destruição do mundo. Houve apenas uma e notável exceção, que ficava particularmente clara sempre que os temas passavam de um naipe a outro: a paixão e a emoção dos violoncelos comandados por Kim Bak Dinitzen.
Não deixa de ser impressionante o virtuosismo que a Osesp é capaz de atingir como conjunto. Mas, na noite de quinta-feira, ele soou pálido e vazio.
[O programa com trechos de Wagner será repetido pela Osesp neste sábado, dia 30, na Sala São Paulo, com transmissão ao vivo pelo YouTube da orquestra; veja mais detalhes no Roteiro do Site CONCERTO.]
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