Música na Páscoa

por Nelson Rubens Kunze 06/04/2026

Dois mundos separam Bach de Golijov, como foi possível ouvir nesta Páscoa na Sala São Paulo e no Theatro Municipal

O público paulistano teve ao menos duas ótimas opções para o programa musical da Páscoa: de um lado, o programa da Osesp na Sala São Paulo com Suíte orquestral nº 3 e o Oratório de Páscoa, ambos de Bach; de outro, a Paixão segundo São Marcos, do contemporâneo Osvaldo Golijov, no Theatro Municipal de São Paulo. Assisti aos dois e gostei. Comecei na sexta-feira (03/04), com a Osesp na Sala São Paulo.

Johann Sebastian Bach (1685-1750), o grande mestre do Barroco, é o autor das célebres Paixões segundo João e Mateus. Menos conhecido é o seu Oratório de Páscoa, BWV 249, composto para o domingo de Páscoa de 1725, em Leipzig. Como era comum na época, Bach reutiliza material de obras anteriores. Em contraposição às dores das Paixões, aqui a música é altiva e otimista. No concerto da Osesp, o Oratório foi precedido pela Suíte orquestral nº 3 de Bach, igualmente em ré maior. Com cordas, oboés, trompetes, tímpano e baixo contínuo, a obra é brilhante e, como no oratório, também transmite uma atmosfera de júbilo.

Foi a partir desse “espírito de alegria” que o maestro britânico convidado Richard Egarr, renomado e premiado especialista em música antiga, em uma simpática fala antes do concerto, convidou a plateia a se manifestar espontaneamente durante a apresentação. Egarr contou que a suíte de Bach, em sua época, provavelmente teria sido executada no Café Zimmermann, em Leipzig, onde amigos se reuniam para conversar e fazer música. E que também o Oratório de Páscoa, com suas danças e caráter teatral, evocaria mais a atmosfera animada de um café do que a solenidade de uma igreja. “Vejo que tem muitos jovens aqui, podem se manifestar, aplaudir, gritar, podem até dançar”, incentivou o maestro. 

Não sei se Egarr também dá essas ideias quando se apresenta em alguma prestigiosa sala londrina, mas, por sorte, o público paulistano não gritou nem dançou, ainda que acabou se sentindo obrigado a aplaudir entre cada um dos movimentos (e até interrompendo a linda ária para soprano do oratório...).

Apesar disso, foi uma tarde de excelente música. Bach é um mestre em envolver os mais profundos afetos humanos em um ambicioso e extraordinário tecido contrapontístico. A Osesp respondeu com solidez, dirigida do cravo com grande elã por Richard Egarr. Se faltou algo de leveza e precisão em passagens mais rápidas – quiçá pela opção de uma orquestra relativamente grande acrescido da reverberação da Sala São Paulo –, o espírito barroco e a sua energia estavam lá. 

O oratório contou com a participação dos solistas vocais Maria Clara Pino (soprano), Luisa Francesconi (mezzo soprano), Anibal Mancini (tenor) e Michel de Souza (barítono). Individualmente muito competentes, o conjunto resultou um pouco desigual, evidenciando as características vocais bem próprias de cada artista. O Coro da Osesp, preparado por Kaique Stumpf, foi muito bem, com precisão e clareza.

Na orquestra, destaque para Claudia Nascimento, na flauta, e Ricardo Barbosa, no oboé, em intervenções de bela sonoridade e apurado senso de estilo. O ponto alto da tarde foi a linda ária de soprano Seele, deine Spezereien (Alma, suas especiarias), com a sensível interpretação de Maria Clara Pino em diálogo com a flauta de Claudia Nascimento e acompanhadas apenas pelo baixo contínuo.

De Bach a Golijov, da luz de vela à era digital, mudamos de chave, trezentos anos depois.

Confesso que fui bem desconfiado assistir à Paixão segundo São Marcos de Osvaldo Golijov, no Theatro Municipal de São Paulo, no sábado (04/04). Em 2015, o teatro já havia encenado sua ópera Ainadamar, que me pareceu então bastante apelativa (leia a minha crítica aqui).

Não sou muito fã dessas apropriações do universo popular por compositores ”eruditos”, que muitas vezes resultam em um pastiche de tom meio folclorista. Fiquei receoso com a ideia de Golijov contando a história da crucificação de Cristo, temática cristã, apoiado em tradições da música sul-americana e afro, muita dança e corporalidades, e ainda pitadas da música minimalista norte-americana. Não ia dar certo nunca... 

Mas deu! E mais: descobri que a obra é de invenção consistente e de hábil artesanato composicional.  Em pouco mais de 90 minutos, estruturados em 34 números, o espetáculo constrói uma linha dramática contínua, alternando blocos de forte energia rítmica com momentos de emocionante lirismo dos solistas, o que lhe confere impacto e comunicabilidade.

A Paixão segundo São Marcos foi escrita em 2000 e é fruto de uma encomenda da Bachakademie Stuttgart para as comemorações dos 250 anos da morte de Johann Sebastian Bach. Golijov usa vários ritmos caribenhos e sul-americanos – ouve-se salsa, rumba, samba e outros, com muita percussão (atabaques, tambores, surdo, chocalhos, bateria e muitos mais). A orquestra tem cordas, alguns metais, piano, guitarra e baixo elétricos. E atuam ainda solistas vocais, narradores e coro. 

Achei excelente a produção do Theatro Municipal de São Paulo, dirigida sem batuta, mas com grande entusiasmo, pelo regente titular Roberto Minczuk. O elenco vocal – Alfredo Tejada, Catalina Cuervo, Indiana Nomma, Marisú Pavón e Flavio Rodrigues –, todo microfonado, foi muito bem: vestidos de branco, com vozes encorpadas e bem timbradas, cantaram os dramáticos acontecimentos com grande entrega e emoção. Também a percussão, que tem importante papel na estrutura da obra, foi muito bem executada, sempre apoiada ou complementada pela orquestra. No proscênio, o babalaô e dançarino afro-cubano Reynaldo González Fernández e o capoeirista Deraldo Ferreira vez ou outra faziam intervenções. E por fim, a ótima performance do Coral Paulistano (preparação de Maíra Ferreira), absolutamente à vontade, com naipes bem destacados e equilibrados, com surpreendentes inflexões dinâmicas e com toda a musicalidade natural que a escrita pede. 

As criações de Bach e Golijov são dois mundos totalmente diferentes. Ambos, em sua época e à sua maneira, refletem distintos contextos históricos e expectativas estéticas. Trezentos anos depois, em tempos marcados por tensões e desafios, a música segue oferecendo espaços de escuta, reflexão e encontro.

[Clique aqui para assistir ao concerto da Osesp, que foi transmitido pelo YouTube.]

Richard Egarr dirige Bach com a Osesp na Sala São Paulo (reprodução YouTube)
Richard Egarr dirige Bach com a Osesp na Sala São Paulo (reprodução YouTube)

 

Artistas são aplaudidos após a apresentação da Paixão segundo São Marcos, no Theatro Municipal de São Paulo (Revista CONCERTO)
Artistas são aplaudidos após a apresentação da Paixão segundo São Marcos, no Theatro Municipal de São Paulo (Revista CONCERTO)

 

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