Um raro convite à escuta ativa

por João Marcos Coelho 25/05/2026

Ajítenà Marco Scarassatti vem construindo um dos mais originais e importantes itinerários criativos na cena das músicas contemporâneas brasileiras, como mostra o disco Isto dando Samba, que ele lança no dia 27 no Sesc Pinheiros, em São Paulo

Na quarta-feira, dia 27, às 20h30, Ajítenà Marco Scarassatti lança seu mais recente álbum, Isto dando Samba, no auditório do Sesc Pinheiros. Artista sonoro, improvisador e compositor, Scarassatti desenvolve pesquisa e construção de esculturas e instalações sonoras, além de gravações de campo. Professor e pesquisador da Faculdade de Educação da UFMG, vem construindo um dos mais originais e importantes itinerários criativos na cena das músicas contemporâneas brasileiras. 

É, portanto, uma oportunidade imperdível de conhecer seu mais novo projeto. Isto dando Samba é um encontro entre a tradição e a experimentação. “O projeto nasceu”, diz o compositor, “de um desejo antigo de fazer música experimental com instrumentos do samba. A pandemia, paradoxalmente, tornou-se o terreno fértil para concretizar essa ideia”.

Durante o período de isolamento, ele conta que resgatou uma estratégia composicional que vinha amadurecendo há algum tempo: a áudio-partitura. “Trata-se de um registro sonoro que funciona não como uma partitura tradicional, mas como um convite à escuta ativa  um guia para interações criativas que resgatam a oralidade, em detrimento da centralidade da escrita e da partitura musical”.

Os sons substituem – e de forma muito mais direta – o que chamamos de partitura escrita. Marco enviou uma áudio-partitura, composta a partir de uma gravação que fez no violão, para instrumentistas, cantores e cantoras ligados ou não ao samba, mas que utilizassem instrumentos relacionados ao gênero. Propôs um diálogo entre uma certa alusão ao samba e a liberdade da experimentação, em relação à áudio-partitura. “Havia uma regra geral: respeitar a duração original da áudio-partitura.”

Concebido durante a pandemia, tomou forma levando em conta aquela situação inédita que todo ser humano foi obrigado a viver. Por isso, diz o compositor, “do instante inicial até a realização final, o processo sofreu algumas alterações. A pandemia acabou, mas as interações e os convites não. Fui incorporando outras contribuições, agora de artistas de diferentes campos da música e da arte sonora”.

Ele empilhou as respostas recebidas, transformando-as em matéria-prima para uma prospecção sonora. Desse labirinto de vozes e instrumentos emergiram seis peças, “nas quais o samba se insinua como espírito – tanto nos timbres quanto nas alusões. Mantive as ideias de cada colaboração como eixos, enquanto a mixagem assumiu um caráter composicional, definindo texturas, contrastes e narrativas”.

Sua descrição de cada etapa do processo de construção de Isto dando Samba é minuciosa e vale a pena ser reproduzida aqui:

“Daquilo que chamei de mixagem composicional, resultaram seis peças sonoras. Após essa definição – em que as músicas emergiram da interação entre participantes que não se escutaram entre si, mas tiveram um deflagrador comum –, sentei-me com João Viana para equilibrar os áudios, corrigir as diferenças entre as gravações e posicionar e desenhar melhor os elementos constituintes de cada faixa. Durante a mixagem, retirei a áudio-partitura do processo, mas acabei retornando com ela como citação em uma das faixas e como colagem, a partir do trabalho de um dos artistas convidados. Após a mixagem, o trabalho foi enviado a Nelson Pinton, que fez a master passando pelo analógico, conferindo um contorno e uma textura mais interessantes à proposta do álbum”.

Lições de Tom Zé 

Ajítenà Marco Scarassatti remete ao antológico álbum Estudando o Samba, de 1976, em que Tom Zé e outro grande músico, Heraldo do Monte, desconstruíram a métrica clássica do samba e o mergulharam em águas vanguardistas experimentais. Não por acaso, Tom Zé estudou na Universidade Federal da Bahia com o compositor e inventor de instrumentos suíço Walter Smetak; e também não por acaso Scarassatti escreveu Walter Smetak, o alquimista dos sons (Editora Perspectiva/SESC, 2008).

Então marginalizado e esquecido enquanto os demais “baianos” desfrutavam de imenso prestígio nacional e internacional, Tom Zé transformou-se alguns anos depois em figura de importância mundial quando David Byrne escutou o álbum no Rio de Janeiro e o levou para os Estados Unidos. “Estudando o Samba” é, de fato, um divisor de águas, ou melhor, uma incrível somatória de águas, ou gêneros, gesto típico da amplitude extraordinária de Tom Zé em relação ao fazer musical.

Como, aliás, vem atuando Ajítenà Marco Scarassatti, que, entre outras coisas, também é professor do curso de licenciatura indígena na UFMG, por ele instituído em 2015 e pioneiro no país. Uma dívida que ele reconhece ao ressaltar a importância do ato fundador de Tom Zé, lá se vão exatos 50 anos:

“Não há como falar desse processo sem evocar sua relação afetiva com o antológico álbum Estudando o Samba, obra seminal de Tom Zé. O título Isto dando Samba brinca com essa herança, ao mesmo tempo em que procura evocar o gênero, a partir dos timbres e gestos utilizados. A impossibilidade inicial do encontro em torno da roda deu lugar ao encontro dos gestos musicais na mixagem. Mais do que um álbum, "Isto dando Samba" é um processo em aberto – um registro de encontros sonoros que começou na solidão da pandemia e hoje ecoa como testemunho de que a música, mesmo à distância, pode ser um ato coletivo de reinvenção”.

Ao todo, são dezesseis músicos liderados por Ajítẹnà Marco Scarassatti, responsável pela concepção, composição, processamento, mixagem, violão (áudio-partitura): Juçara Marçal, InêsTerra, Negro Leo e Matéria Prima (voz); Mbé (colagem); Flavia Goa (violão 7 cordas),  Felipe José (violão),  Gustavo Infante (violão e caixinha de fósforo), Dudu Pinheiro e Jhonata Cardoso (cavaquinho), Marcos Campello (bandolim, trompete e pandeiro), Antônio Beirão (baixo), Marcos Alves (caixa, tamborim, surdo, pandeiro), Rossano (surdo, atabaque, metal percutido, agogô), Paulinho Bicolor (cuíca) e Yuri Vellasco (agogô). O trabalho foi lançado pela Outra Música Records.

O músico Ajítenà Marco Scarassatti [Divulgação]
O músico Ajítenà Marco Scarassatti [Divulgação]

 

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