Dame Felicity Lott (1947-2026)

por João Luiz Sampaio 18/05/2026

Soprano britânica teve carreira marcada pela dedicação ao repertório de canções, com destaque para a obra de Richard Strauss

Em setembro de 2012, Dame Felicity Lott esteve no Brasil. Antes do recital ao lado do pianista Maciej Pikulski, relembrou uma história do início de carreira. Foi fazer uma audição e escolheu uma seleção de canções. O maestro que a ouviu pediu, então, que ela interpretasse Una voce poco fa, ária de O barbeiro de Sevilha, de Rossini. “Quando cheguei ao final, estávamos os dois morrendo de rir.”

O episódio só deixou mais claro para a soprano que não estava na ópera o seu caminho. “O mercado do canto lírico impõe exigências, para cada tipo de voz há papeis obrigatórios, que você precisa saber cantar. Não foi exatamente fácil abrir mão de tantas óperas, tantos papeis. Mas minhas mãos eram grandes demais para ficarem congeladas”, brincou, fazendo alusão ao papel da jovem Mimi, na La Bohème, de Puccini. 

“Agora, falando sério. Nunca é tranquilo você reconhecer que não é capaz de fazer alguma coisa. Mas, tudo bem, eu não podia cantar bem esses compositores todos. Mas podia fazer bem Richard Strauss. Já é alguma coisa, não acha?” Muita coisa – e, ainda assim, apenas uma pequena parcela do que foi uma carreira de exceção, encerrada na semana passada. Felicity Lott morreu no sábado, aos 79 anos, dois dias depois de anunciar em uma entrevista à BBC que sofria de um câncer agressivo e terminal. 

Para continuarmos em Strauss: a soprano foi intérprete celebrada da Marechala, no Cavaleiro da rosa. Há uma gravação do papel com o lendário maestro Carlos Kleiber. E ela o viveu no palco sob a regência de outro grande straussiano, Georg Solti. “Eu o procurei para pedir conselhos quando comecei a preparar o papel. Ele foi extremamente gentil e me disse: não tente fazer como as outras cantoras, cante com a sua voz; estou certo de que há coisas nessa música que você gostaria de fazer como algumas de suas colegas, mas posso te garantir que muitas delas gostariam de cantar como você o faz.”

Felicity Lott nasceu em Cheltenham, na Inglaterra, em uma família musical. Aos 5 anos, começou a estudar piano e, aos 12, canto. Ao lado do fascínio pela música, estava o interesse por idiomas, o francês em especial. “Foi algo que surgiu muito cedo e foi um processo natural, ao longo da vida, a busca por estabelecer uma relação bastante próxima não apenas com a paisagem do país, mas com a sua cultura.”

Na faculdade, ela estudou Letras Francesas e Latim e, como trabalho de conclusão de curso, passou um ano em Grenoble. Foi na cidade francesa que professores do conservatório ficaram encantados com a sua voz. Em 1975, cinco anos depois de deixar a escola, estreou na Royal Opera House Covent Garden, de Londres, como Pamina, na Flauta Mágica, de Mozart. Um ano depois, atuou na estreia mundial de We Come to the River, de Henze.

Com o tempo, viriam outros projetos, como a gravação de Peter Grimes, de Britten, em que cantou Ellen Orford sob regência do maestro Bernard Haitink; o Don Giovanni, de Mozart, com Sir Charles Mackerras; ou A voz humana, de Poulenc, com Armin Jordan. Mas o repertório de canções logo se colocaria como seu foco principal. Strauss, novamente, é referência: ela gravou as Quatro últimas canções algumas vezes, com André Previn e a Filarmônica de Viena, com Neeme Järvi e a Royal Scottish National Orchestra.

 

 

A interpretação de canções alemãs, francesas e inglesas se multiplicaram no palco e em CDs premiados. Na viagem ao Brasil, com o melhor humor britânico, ela falou sobre a diferença entre os repertórios. “É possível falar em um jeito francês ou alemão de escrever canções? É uma pergunta difícil. Por um lado, quero dizer que sim, mas talvez seja mais importante poder pensar em cada compositor de maneira específica. De certa forma, Schubert, se bem que isso pode ser ampliado para os alemães em geral, navega de maneira vertical pelo texto, em altos e baixos. Já os franceses parecem se curvar mais, a música flutua de maneira mais livre pelas palavras. Se bem que essa imagem, essa coisa de vertical, horizontal, é péssima, apesar de ser o que me ocorre agora. Ao mesmo tempo, porém, se você pensa em Fauré, há um controle das emoções, uma atmosfera mais dura que talvez seja mais alemã do que francesa. Vou parar por aqui, já estou me complicando”, brincou em entrevista.

Em meio a muitos discos, fico com um álbum de 2007, gravado ao lado do Quarteto Schumann. Rückert lieder, de Mahler; Wesendonck Lieder, de Wagner. E uma leitura camerística da cena da morte de Isolda, em transcrição que reduz a orquestra à sua essência – e permite à voz uma organicidade camerística tão tocante que amplia a nossa percepção do texto. 

Sim, é muita coisa.

A soprano britânica Felicity Lott [Divulgação]
A soprano britânica Felicity Lott [Divulgação]

 

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