Misturar Brahms com Rihm funciona?

por Nelson Rubens Kunze 23/05/2026

Concerto da Osesp apresentou obra de Wolfgang Rihm escrita para ser intercalada entre os movimentos do Réquiem alemão de Johannes Brahms

Fiquei animado ao ler sobre o concerto programado pela Osesp para esta semana: o Réquiem alemão de Brahms e uma obra do compositor contemporâneo Wolfgang Rihm. A animação veio da surpresa ao tomar conhecimento de que a obra de Rihm foi escrita para ser intercalada entre os movimentos do Réquiem de Brahms.

Acho essas experiências interessantes. A combinação com a música de hoje pode propor uma nova escuta de peças canônicas, ao lançar luzes sobre a obra de arte tradicional e assim descortinar novas camadas interpretativas.

O Réquiem alemão de Johannes Brahms (1833-1897) foi composto há mais de 150 anos (entre os anos de 1865 e 1868), em sete movimentos. Escrita para soprano, barítono, coro e orquestra, a obra utiliza textos bíblicos em alemão da tradução de Lutero. Ao contrário de outros réquiens da tradição musical ocidental, o de Brahms tem uma importante dimensão humana, trata da aceitação e do consolo dos vivos diante da perda e do sofrimento. A obra é linda, emocionante, certamente uma das peças centrais do grande repertório coral-sinfônico de todos os tempos.

Wolfgang Rihm (1952-2024), por sua vez, foi um dos compositores alemães mais importantes da música europeia do pós-guerra. Em sua linguagem musical, mescla o modernismo e o expressionismo alemão com elementos da tradição. Esta sua peça, A leitura da escritura (Das Lesen der Schrift), estreou em 2002 pela Orquestra Sinfônica Alemã de Berlim, sob regência de Kent Nagano. Suas quatro partes foram pensadas e compostas justamente para serem intercaladas, como interlúdios, entre os movimentos do Réquiem alemão.

A obra de Rihm transmite uma atmosfera misteriosa e sombria. Sempre lenta e em registro grave, a música por vezes é angustiante e cheia de inquietações. Há passagens que lembram o atonalismo de Schönberg, outras criam climas como o de um “impressionismo atonal”. No geral, é uma música tensa, cheia de dissonâncias, marcada por pessimismo (assisti ao concerto na quinta-feira, dia 21 de maio).

Já o Réquiem alemão de Brahms, como eu o ouço, transmite, além da dor diante da morte, consolo, serenidade e reconciliação. Sobressai no final uma esperança contida. É uma música de acolhimento espiritual e emocional, em que o sofrimento gradualmente se transforma em aceitação e paz interior.

O Réquiem começa com “Abençoados os que sofrem, pois serão consolados / Os que semeiam com lágrimas colherão com alegria” (Selig sind, die da Leid tragen, denn sie sollen getröstet werden / Die mit Tränen säen, werden mit Freuden ernten). Para chegar ao ponto culminante com “a morte foi tragada na vitória” (Der Tod ist verschlungen in den Sieg). Não há medo aí, não há incertezas. Há a necessidade humana de aceitação e de encontrar consolo diante da perda.

Assim, respondendo à pergunta do título – misturar Brahms com Rihm funciona? –, eu acho que não funcionou. A contraposição da linguagem musical contemporânea de Rihm, na intercalação de seus interlúdios no Réquiem, não induz uma nova compreensão da obra de Brahms – em realidade, conflita radicalmente com a linguagem tonal e a dimensão espiritual proposta no Réquiem. (São bem-vindas respostas à pergunta do título – escrevam nos comentários.)

Talvez o choque radical entre as duas obras seja ele mesmo o projeto estético de Wolfgang Rihm: um questionamento crítico do “consolo espiritual” proposto por Brahms no mundo conturbado e ameaçador de nossos dias. Embora intelectualmente provocadora, no plano musical a junção me pareceu mais problemática do que instigante. Mas a nova criação poderia sim criar um contraponto: bastaria colocá-la na íntegra, em sequência direta, como introdução ao Réquiem (ou como conclusão), sem comprometer a completude orgânica da obra tradicional (e a sua própria). Quem sabe se aí novas camadas interpretativas, ou uma nova compreensão do Réquiem alemão, poderiam ser descobertas... 

Mas ainda é preciso comentar a excelente performance da Osesp, do Coro da Osesp e do Coro Contemporâneo de Campinas, bem como dos dois solistas e do maestro português Dinis Sousa (diretor da Royal Northern Sinfonia, de Gateshead, Inglaterra). Os grupos soaram integrados e equilibrados, oferecendo um espetáculo sensível e emocionante. Sousa tem gestual elegante e claro, e obteve uma execução atenciosa e concentrada dos músicos. O barítono Vitor Bispo se apresentou bem, com timbre aveludado e uma boa projeção vocal, além de ótima pronúncia do alemão. A soprano Luise Foor tem voz bonita, clara e soante, com emissão cuidada e vibratos intensos (creio que um pouco exagerados nesse repertório). 

Se o concerto não convenceu plenamente no plano dramático, ao menos teve alto nível técnico e artístico e demonstrou como grandes obras do repertório ainda podem ser reinterpretadas e desafiadas no presente.

[O concerto de sábado será transmitido ao vivo pelo TouTube - clique aqui para acessar.]

Osesp sob direção de Dinis Sousa na Sala São Paulo (reprodução YouTube)
Osesp sob direção de Dinis Sousa na Sala São Paulo (reprodução YouTube)

 

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Comentários

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Acabei de assistir à récita de sábado. Concordo com o Nelson. Não acho que tenha funcionado - como, via de regra, não funcionam a maioria das obras pensadas como “diálogo” ou “interferência” no repertório consagrado. Penso que esse tipo de obra “reboque”, que é carregada por outra mais famosa, seja uma estratégia, acima de tudo, de sobrevivência. Nos espaços tradicionais, não há concertos que orbitem ou que se dediquem à música contemporânea (ou à música antiga, o efeito é o mesmo; estamos todos viciados na “prática comum” dos séculos 17-19). O modo mais usual é abrir (não fechar) os concertos com música contemporânea, como uma espécie de pedágio. Interpolar é uma versão radical dessa tática. Outro aspecto que a obra “reboque” revela é o inevitabilidade do repertório central e o peso que ele tem nas identidades artísticas dos criadores atuais. Comentar o passado é incontornável. Adès tem uma peça chamada “Brahms”, Unsuk Chin meio que se especializou em aberturas sobre a história da sinfonia, da ópera etc, Corigiliano escreve sobre o “foguete de Mannheim”, Daugherty mistura Bach, “Dies Irae”, mariachis e “Star Trek”, Berio completa Schubert etc etc.

Eu preferia ter ouvido as obras em separado, assistido a um Brahms sem interferência. Mas foi bem bonito mesmo assim.

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Ao contrário, achei que funcionou – e muito bem. E justamente por causa do contraste. Intencional, logicamente. O aspecto sombrio das peças de Rihm, colocaram ainda mais em evidência o espírito de consolação e paz da obra de Brahms. O que não faria sentido é se elas quisessem se amalgamar, por semelhança, com a música de Brahms. O todo apresenta uma unidade surpreendente – especialmente por causa do caráter “silencioso” das peças de Rihm. A execução foi primorosa.

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Foi muito bonito mesmo. Uma boa experiência, que nos tira da zona de conforto talvez justamente pelo contraste face a face entre tristeza e esperança, que afinal é como a vida acontece no mundo real. Concordo, entretanto, que tornar esta mescla uma rotina é algo que não deve ser feito, pois esvaziaria o motivo principal, levando a cansaço.

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Na minha opinião não funcionou nem um pouco. A obra completa ficou arrastada, a obra moderna tirou a força da linda obra de Brahms. O concerto ficou longo e tedioso. Até o brilho do excelente coro e dos cantores ficou um pouco apagado diante de tantas interrupções. Na verdade foi isso o que ocorreu: interrupções, nada se complementou, nada combinou.

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