Ações teatrais e inusitados “instrumentos” – como celulares, bacias de água e potes de terracota – marcam os concertos do maestro e compositor chinês Tan Dun no Theatro Municipal de São Paulo
Assisti na sexta-feira, dia 7 de agosto, ao primeiro concerto do compositor e maestro Tan Dun à frente da Orquestra Sinfônica Municipal, no Theatro Municipal de São Paulo. O programa, intitulado O mundo de Tan Dun, inteiramente dedicado à sua obra, trouxe a Passacaglia: O segredo do vento e dos pássaros, o Water Concerto, para percussão e orquestra, com Lin Zhe como solista, e, após o intervalo, a Sinfonia das cores.
Tan Dun é um artista único e difícil de enquadrar em alguma escola ou tendência da música contemporânea. Seu trabalho vai de trilhas de cinema a experimentações sonoras, com uma linguagem que aproxima tradições orientais e ocidentais, explora timbres, ritmos e sonoridades. É uma obra múltipla: me surpreendi ao consultar a sua página no Spotify, pela variedade e quantidade de sua produção, que contém música para orquestra, música para cinema, música para teatro, ópera, música para piano e até música para o YouTube.
O que sobressai nas declarações de Tan Dun é sua postura humanista e sua filosofia existencial. Como disse na entrevista a Irineu Franco Perpetuo publicada em junho na Revista CONCERTO, “para mim, [a música] começa com uma busca dos sons mais puros da Natureza, e então entra em diálogo com estes sons; ensaiando-os até ganharem vida. Na performance, evoco o espírito da Natureza e me comunico com ele. Espero que isso possa ser um despertar das mentes humanas diante da corrupção social e do meio ambiente poluído”. E isso, claro, transborda para a sua música.
No Theatro Municipal, entusiasticamente aplaudido logo que entrou no palco, Tan Dun transmitiu de imediato a sua simpática personalidade. Diante da grande formação orquestral da Sinfônica Municipal, tomou o microfone para falar da enorme felicidade de tocar para nós, e que o Brasil, por sua natureza e vitalidade, é um país que o inspira. Em seguida avisou que nós, o público, participaríamos da primeira obra, a Passacaglia: O segredo do vento e dos pássaros, fazendo soar em nossos celulares um tema de 50 segundos gravado em instrumentos chineses antigos – para isso, um grande código QR foi projetado na tela do palco para que pudéssemos acessar o áudio. E o que se ouve são pássaros e natureza, sons de piados, chilros, trinados, gorjeios – como disse Tan Dun, “vamos transformar o Theatro Municipal em uma grande floresta amazônica”. Após um breve “ensaio” com a plateia, Tan Dun tomou a batuta e deu início ao espetáculo.
A Passacaglia: O segredo do vento e dos pássaros, com cerca de 20 minutos de duração, é feita de amplas atmosferas tímbricas das quais surge, repetidamente, um tema bem definido, de caráter melancólico, em amplo espectro orquestral. Em paralelo, ouvem-se ruídos de percussão e outros motivos repetidos na orquestra. E, de tempos em tempos, por cima do amplo e variado tapete sonoro, ressurge o tema conferindo estrutura à obra.
Em meio à peça, em um silêncio da orquestra, os músicos começam a acionar a trilha dos pássaros em seus celulares
Em meio à peça, em um silêncio da orquestra, os músicos começam a acionar a trilha dos pássaros em seus celulares. Tan Dun então voltou-se para o público, indicando, para diferentes partes da plateia, o início da reprodução do áudio no celular... e um som de floresta inundou o teatro. Mais para o fim da peça, os músicos entoam cantos, estalam os dedos e batem os pés até que a música termina com um forte tutti orquestral.
Assim como na Passacaglia, também a segunda obra da noite, o Water Concerto para percussão e orquestra, tem um importante lado de performance teatral. A solista Lin Zhe, bem iluminada, entra pelo corredor da plateia tocando um instrumento de percussão que emite zunidos. No palco, encontram-se duas bacias translúcidas cheias de água. Em diálogo com a orquestra, a solista cria diversos efeitos sonoros com a água, como batidas com as palmas da mão sobre a superfície, a imersão de agogôs e pratos de modo a criar glissandos, ou então despejando água, com um copo, nas bacias.
Mas não são só efeitos sonoras. A obra é construída em três movimentos, com temas tonais, algumas vezes em uníssono orquestral, sempre muito rítmicos, que situam o ouvinte. Há um desenvolvimento dramatúrgico, com tensões e resoluções, e há momentos em que se percebe uma coloração folclórica.
A última peça da noite, após o intervalo, foi a sua Sinfonia das cores. A obra é de 2017 e foi baseada na ópera de Tan Dun, O primeiro imperador, uma história épica de amor, poder e traição. Com cerca de 35 minutos de duração, a Sinfonia das cores está dividida em 7 movimentos, cada um associado a uma cor e a uma imagem da China imperial. No movimento intitulado Terra, três percussionistas atuam como solistas, em frente da orquestra, cada um com cinco potes de terracota de diferentes tamanhos. Usando baquetas ou as mãos, os músicos dialogam entre si e com a orquestra em múltiplas e ricas sonoridades.
Também na Sinfonia das cores há blocos instrumentais tonais que estruturam a narrativa musical, com dissonâncias e rítmica vigorosa. Por vezes, passagens quase ritualísticas emergem da teia sonora. A parte final da obra apresenta uma progressão da densidade orquestral e uma sequência rítmica que lembram o final do Pássaro de fogo, de Stravinsky.
Mais uma vez, foi muito bom o desempenho da Orquestra Sinfônica Municipal, que se mostrou preparada e competente em um repertório que exigiu dela bem mais do que o tradicional domínio instrumental – músicos tocaram também com técnicas não convencionais e em diversos trechos interagiram vocalmente e fisicamente. Tan Dun revelou-se também um bom regente, conduzindo com gestual claro e musical.
No todo, o concerto de Tan Dun foi uma grande e rica aventura musical. Sua ampla abordagem filosófica, que vai do oriente ao ocidente, sua visão humanista e o tratamento musical que dá a instrumentos, objetos e materiais, creio que de certa forma o ligam mesmo a John Cage, com quem estudou em Nova York.
Como Tan Dun disse na matéria da Revista CONCERTO: “No começo, bem no começo, quando estava em Nova York, planejava ser um compositor ocidental padrão. Mas, depois de trabalhar com John Cage e muitos tipos de mestres da música em Nova York, compreendi que sou apenas eu mesmo. Na verdade, a melhor maneira de seguir adiante é refletir sobre si mesmo. Coisa que fiz, e ainda estou fazendo. Acho que cada cultura me dá uma chave de ouro que pode abrir muitas portas de direções musicais. Sinto-me muito sortudo por ter sido educado em todo tipo de cultura”.
[Clique aqui para ler a matéria de Irineu Franco Perpetuo publicada na Revista CONCERTO: Tan Dun, música como vida.]
[Clique aqui para ouvir no YouTube a estreia da Sinfonia das cores, com a Orquestra da Juilliard regida pelo compositor, em 2017, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York.]
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