O ser humano visto pelo piano

Entrevista com a pianista Yuja Wang

Uma das pianistas mais empolgantes da atualidade está de volta ao Brasil. Depois de incendiar a Sala São Paulo, em 2011, tocando o Concerto nº 3 de Prokofiev, com a Osesp regida por Kristjan Järvi e, na mesma semana, com um recital solo igualmente incandescente, que incluía uma das obras que vai executar dessa vez (a Sonata nº 6 de Prokofiev), a chinesa radicada em Nova York Yuja Wang, de 31 anos, regressa à sala no dia 2 de outubro, na série da Cultura Artística (ela também se apresenta no dia 4, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, pela série da Dell’Arte e, no dia 6, em Curitiba, em recital comemorativo pelos 10 anos do Teatro Positivo).

Filha de uma bailarina e de um percussionista, Wang começou os estudos de piano na infância, em sua Pequim natal. Aos 11 anos, partiu para o aperfeiçoamento no Ocidente – foi a aluna mais jovem do Morningside Music Bridge International Music Festival, em Calgary, no Canadá; aos 15, ingressou em um dos principais centros de excelência musical do planeta: o Curtis Institute of Music, em Filadélfia, nos Estados Unidos, onde foi aluna de Gary Graffman.

Wang ainda não tinha se formado no Curtis quando apareceu a oportunidade que mudou sua vida: substituir a mítica Martha Argerich – a quem é frequentemente comparada pela intensidade das interpretações – em concertos da Orquestra Sinfônica de Boston, em 2007. O sucesso levou a uma série de convites para se apresentar com as principais orquestras e regentes do cenário internacional e a um contrato de gravações com a badalada Deutsche Grammophon.

Ela respondeu às perguntas da Revista CONCERTO enviando áudios de Whatsapp em meio aos inúmeros compromissos de uma agenda bastante concorrida.

Yuja Wang [Divulgação / Norbert Kniat]
Yuja Wang [Divulgação / Norbert Kniat]

Na turnê sul-americana, você vai tocar a Sonata nº 3 op. 58, de Chopin, e a Sonata nº 6 op. 82, de Prokofiev. Por que escolheu essas obras? Como elas se relacionam?
São meus compositores favoritos. Não acho que se relacionem, a não ser pelo fato de ambos serem pianistas extraordinários e as obras que escreveram serem muito pianísticas. As duas são das minhas favoritas, e eu queria tocar algo muito próximo de meu coração, que é Chopin; por sua vez, a Sonata nº 6 de Prokofiev toquei muito tempo atrás e estou trazendo de volta, pois me lembro da boa sensação. É uma obra que gosto de apresentar em concertos. Há outras peças que amo, que funcionam melhor em privado, mas a nº 6 vale a pena tocar em público, é catártica.

Falando de Prokofiev: além dessa sonata, nesta temporada você interpreta seus Concertos para piano nº 1, nº 3 (uma espécie de cavalo de batalha seu) e nº 5. Você sente uma afinidade especial com o compositor? Ou, levando em consideração que apresenta também Shostakovich, poderíamos falar de uma afinidade com compositores russos? Ou ainda, uma vez que tem tocado Bartók, Ravel, Richard Strauss e György Ligeti, tudo isso significa afinidade com a música do século XX?
Se eu toco a Hammerklavier, de Beethoven, quer dizer que gosto de música alemã? Amo música clássica, amo música em geral, de modo que não gosto de categorizar os compositores por países. Vivemos em um mundo global e, para nós, como humanos, como raça humana, toda música fala de um aspecto diferente de ser humano e fala à alma. Não me guio pelo século ou pelo país.

Em março do ano que vem, você vai tocar uma encomenda que fez: Must the Devil Have All the Good Tunes?, de John Adams. Astros do piano normalmente tocam apenas o repertório standard e não costumam se aventurar em música contemporânea, menos ainda fazer encomendas. O que a levou a essa obra? E por que, especificamente, Adams?
Amo e admiro muito John Adams, e há tantos compositores interessantes... Claro que gosto do repertório standard, que toco em recitais. Não dá para viver sem Chopin, Brahms ou Schubert. Mas também é legal pegar a tradição e fazer música relevante para o tempo em que vivemos. E há gente que simplesmente tem a voz de nosso tempo, e sinto que John Adams é uma dessas pessoas. Então, estou realmente empolgada em tocar sua música.

Como você escolhe seu repertório? Há peças que você sente ainda querer tocar ou estudar? Quais são as obras ou os compositores que planeja interpretar?
Sim, há muitas obras e compositores nos planos. Há um repertório vasto e ilimitado a descobrir. Toco desde os 4 anos de idade, e isso simplesmente não tem fim. Há Bach, Ligeti, Brahms, há o que não toquei, há peças que provavelmente não tocarei em público, só para mim mesma, internamente. Nos próximos anos, ainda não sei, talvez planeje descobrir isso tudo sem tocar.

Nessa temporada, você tem colaborações mais, digamos, tradicionais, com Leonidas Kavakos e Gautier Capuçon, além de abordagens menos “ortodoxas”, como Martin Grubinger e Igudesman & Joo. Como escolhe parceiros musicais? Como divide seu tempo entre recitais de solista, concertos com orquestra e projetos colaborativos?
Deve haver química. Leonidas e Gautier são seres humanos calorosos, além de músicos brilhantes. Então, é divertido viajar com eles. Como pianista, estou sempre tocando sozinha. Viajar junto é divertido, e sempre tento incorporar prazer ao trabalho. Eu não divido meu tempo. Faço umas duas ou três turnês de recital e o resto de meu tempo dedico à música de câmara – trabalhar com meus parceiros – e concertos.

Nessa temporada, você é artista residente em três salas de concerto de ponta: o Carnegie Hall, em Nova York, com a série “Perspectives” (Perspectivas); a Konzerthaus, em Viena, com uma série “Portrait” (Retrato); e a Philharmonie de Luxemburgo. O que esse tipo de projeto representa para você?
Adoro estar em séries como “Pespectives” e “Portrait”, pois mostram lados diferentes meus. Eu faço muitos solos, viajo muito, e esses três lugares me fazem ficar mais em um canto; com isso, o público pode ver minhas outras facetas, e também é mais divertido convidar gente que para mim é importante e tocar junto.

Você saiu da China bem jovem e mora em Nova York. Você se sente mais chinesa ou cidadã do mundo? Assim como, no passado, havia as chamadas escolas russa, francesa e alemã do piano, poderíamos falar hoje de uma escola chinesa? Ou essa questão não faz sentido em um mundo globalizado? Qual é a razão de haver tantos pianistas chineses surgindo hoje?
Acho que me sinto uma cidadã do mundo, viajando tanto, e não gosto quando dizem que há uma escola chinesa. Como afirmei antes, odeio categorizar. Sim, há muita gente surgindo da Ásia, e é parcialmente porque as pessoas são muito interessadas em música e acham que é um jeito de ter um modo de vida harmonioso e equilibrado, quase espiritual, um jeito de elevar a humanidade. Espero que seja isso e acho que é motivo para todos estudarmos música. Somos talentosos e dedicados, então há nomes aparecendo. Dizem que isso é muito competitivo, mas não acho que nos sentimos competitivos. Acho que todos são muito bons.

No auge da indústria fonográfica, uma pianista de seu perfil gravava muito mais discos do que você agora. Você lamenta as mudanças pelas quais a indústria fonográfica passou? Gravar é importante para você?
Estou gravando tudo o que quero gravar, de modo que não lamento não gravar o suficiente. Além disso, hoje se usa tanto streaming, YouTube, Apple Music, Apple Connect, que, para mim, esse é o novo jeito de distribuir música, não mais os discos. A gravação que está saindo, e com a qual estou empolgada, é meu recital de Berlim, que é um programa completamente diferente do que vou tocar na América do Sul. Tem Rachmaninov, Scriabin, Ligeti, a Sonata nº 8 de Prokofiev. Então, são compositores bastante familiares, porém com o repertório um pouco estendido. Tenho um projeto de música de câmara com um clarinetista, que também está para sair. Ou seja, dois CDs vão ser lançados logo, e espero que você vá atrás deles!

Você tocou aqui em São Paulo em 2011. Tem alguma lembrança particular da ocasião?
Tenho lembranças muito nítidas de tocar em São Paulo. Amei tocar aí e, na verdade, me lembro de ter tocado também a Sonata nº 6, de Prokofiev, mas era muito em primeira mão. Acho que não toquei essa obra desde então. Experimentei-a aí, adorei, e as pessoas ficaram tão entusiasmadas... Adoro quando o público é tão caloroso, reage e extrai tanta alegria da música em geral. É disso que gosto ao tocar aí. E estou muito contente por finalmente encontrar maneira de voltar ao Brasil. Espero que aconteça mais, e em intervalos menores, não daqui a sete anos (risos). 

Obrigado pela entrevista. 


AGENDA
Yuja Wang
– piano
Dia 2, Sala São Paulo
Dia 4, Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Dia 6, Teatro Positivo (Curitiba)