Invenção como caminho

por João Marcos Coelho 01/10/2018

Diretor da Bienal de Música Eletroacústica de São Paulo, o compositor Flo Menezes fala sobre o evento e seu sentido no mundo contemporâneo

Paradoxalmente, para o público atual as músicas mais recentes parecem, com frequência, tão remotas quanto as da Idade Média e da Renascença”, lamenta o pianista francês Pierre-Laurent Aimard, que impactou todos os que assistiram a seus concertos na Sala São Paulo em agosto passado, em curto mas instigante texto. E demonstra o absurdo da situação: “No entanto, são elas que permitem uma compreensão mais fácil”. E por um motivo simples: ao contrário de Bach, Beethoven ou Brahms, os compositores atuais estão aí para fornecer informações sobre métodos de trabalho e propósitos de cada criação aos músicos que se dispõem a tocar suas obras – e ao público. 

É por isso que um evento tão importante como a 12a edição da Bienal Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo, que se realiza neste mês em São Paulo, soa paradoxalmente tão exótico e estranho à vida musical convencional. Seu idealizador, o compositor Flo Menezes, de 56 anos, coloca em ação o portentoso Puts – PANaroma/Unesp – Teatro Sonoro, uma orquestra com mais de cinquenta alto-falantes distribuídos por todo o teatro nos treze “concertos-painel” com sessenta obras eletroacústicas entre os dias 2 e 11 deste mês, com estreias brasileiras e mundiais.

Os destaques são a presença de Ludger Brümmer, à frente do ZKM de Karlsruhe (Zentrum für Kunst- und Medientechnologie, principal instituição de novas tecnologias para as artes na Alemanha), com apoio do Instituto Goethe de São Paulo; e de Krzysztof Knittel e Elzbieta Sikora, que Flo chama de “lendas da música nova polonesa”, com apoio do Adam Mickiewicz Institute, do programa Polska Music, da Polônia. Flo Menezes falou com a Revista CONCERTO sobre a programação.

Flo Menezes [Divulgação / Chello - Unesp]
Flo Menezes [Divulgação / Chello - Unesp]

Como anda a música eletroacústica no cenário das músicas contemporâneas?
O fato de Christoph vom Blumröder, um dos maiores especialistas em música eletroacústica, ter citado meu trabalho e o do Studio PANaroma em livro recente no país em que a musicologia é mais forte, a Alemanha, atesta a importância da música eletroacústica no meio musical de hoje: é um gênero assumidamente de suma relevância para os meios em que se respeita a música contemporânea de vanguarda, como a Europa. Aqui, continuamos a ser rotulados, diante do conservadorismo que assola a música, os meios de divulgação e as instituições governamentais. 

É aceitável argumentar que a música contemporânea mais experimental – a eletroacústica, sobretudo – é hoje um nicho dentro do caleidoscópio da criação contemporânea?
Acho que não é aceitável. A publicação alemã que ressalta a Bimesp é de um dos principais musicólogos da atualidade: um volume inteiramente dedicado à música acusmática! Nem foi sobre música eletroacústica em geral! Foi sobre a acusmática, que é feita apenas para alto-falantes, um tipo de prática muito aceita e difundida, e que, no Brasil, as pessoas relutam a assumir como válida…

Ela é de fato importante, mas dominante? Afinal, vivemos num tempo cheio de pós-modernidades, posturas inclusivas, miscigenações, “contaminações”, mestiçagens.
O que seria “dominante” hoje? A música sertaneja feita nos grandes centros urbanos? O dominante é o horror da percepção estética, ao menos em uma sociedade tardo-capitalista como aquelas em que vivemos aqui no Brasil e fora dele…

Isso quer dizer que é possível, ainda hoje, assumir a postura adorniana de que ou se leva à frente a música, ou então tudo se reduz a clonagens, cópias disfarçadas do passado?
O que move a criação especulativa é o novo! “Apenas a novidade pode constituir a condição do prazer!” Esta frase não vem de um artista, vem de Freud! A aversão ao novo é a morte da invenção, e sem invenção não há arte, pois o que a diferencia da ciência é justamente a paixão pelo novo e pela invenção. Nas ciências, fazem-se descobertas, e invenções, igualmente cultuadas, baseiam-se em hipóteses comprovadas. Em arte, a invenção é de responsabilidade do criador; ele intertextualiza, parte de referências a outros na trama das linguagens, mas não há que se comprovar nada: inventa-se o novo!

Hoje as redes sociais nos colocam em tempo real em contato com todos os públicos, no mundo inteiro. O compositor tem agora as ferramentas ideais para divulgar seu trabalho. Você considera que essa é a melhor saída para fazer a obra de arte chegar ao público? Ou o melhor seria investir nos eventos presenciais? Porque, nos concertos, há sempre certo ritual; a pessoa foca toda a atenção no que está ouvindo.
A divulgação virtual é muito importante, e minhas obras, disponibilizadas em meu site, chegam a pessoas que nem imagino. Um exemplo dos frutos disso foi o convite para ser o compositor visitante do Tage für Neue Musik de Zurique, em 2012, quando tive 13 obras executadas e Crase, para grande orquestra e eletrônica, foi tocada por umas das melhores orquestras do mundo, a Tonhalle: os programadores decidiram me convidar a partir da escuta de obras em meu site. Não sei como chegaram a meu nome. Mas, do ponto de vista da fruição musical propriamente dita, nada substitui o ritual do concerto e a qualidade sonora que se atinge ao vivo, seja na música instrumental, seja na eletroacústica ou na acusmática: é incomparável com uma escuta dispersa caseira e apenas em estereofonia. São categorias distintas, de níveis variados, inclusive hierarquicamente, da escuta musical. 


AGENDA
XII Bienal Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo

De 2 a 11, Instituto de Artes da Unesp (São Paulo)