Passado vivo

Entrevista com o maestro e violinista Luis Otavio Santos

Não é exagero classificar Luis Otavio Santos como um dos principais paradigmas de excelência da chamada “música antiga” no Brasil. Dono de um virtuosismo exuberante no violino barroco, Luis Otavio vem se consolidando também como regente. 

Discípulo de Sigiswald Kuijken no Conservatório Musical de Haia (Holanda) e com uma sólida carreira internacional que inclui CDs premiados e turnês na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, ele ainda compartilha sua experiência e seu saber com os alunos da Emesp Tom Jobim, onde é professor de violino barroco.

Neste mês, ele dirige o Coral Jovem do Estado e a Orquestra Barroca da Emesp na Ode a Santa Cecília, de Henry Purcell. E, em dezembro, na Sala São Paulo, chefia Os Músicos de Capella em três cantatas do Oratório de Natal, de Bach.

Dos EUA, Luis Otavio falou à Revista CONCERTO – mais precisamente, de St. Paul, capital de Minnesota, onde estava atuando como solista em As quatro estações, de Vivaldi, com a Lyra Baroque Orchestra, do cravista holandês Jacques Ogg.

Luis Otavio Santos [Divulgação]
Luis Otavio Santos [Divulgação]

Embora, na Europa, o movimento da chamada “música antiga” exista há décadas, no Brasil ele é relativamente recente. Você se considera um dos pioneiros? Já vê gente influenciada e formada por você? Quão consolidada essa tendência está por aqui? Como você vê sua evolução nas últimas duas décadas? Que desafios ainda há pela frente?
Antes de mim houve músicos brasileiros que desbravaram o meio musical atuando de forma continuada no país, com certeza! Podemos citar com reverência o cravista Roberto de Regina e o conjunto Quadro Cervantes, que, a partir dos anos 1970, divulgaram pelos quatro cantos do Brasil a música antiga. É da atuação deles que se origina meu gosto por esse tipo de vida... Contudo, posso me situar em outra fase de pioneirismo. Mesmo residindo na Europa, pude trazer durante anos seguidos minha experiência profissional bastante próxima desses mestres e pioneiros europeus, procurando estabelecer aqui uma ponte e um paradigma de qualidade mais elevado. Um bom exemplo disso foi minha experiência como diretor artístico do Festival de Juiz de Fora, que durante 25 anos foi um ponto de referência para os interessados aqui no Brasil. Posso dizer que, graças a isso, muitos músicos foram despertados para a música antiga, e vários puderam obter formação suficiente para seguir carreira na Europa. Essa foi a década de 1990, os anos 2000… A popularização entre músicos e o público foi muito mais extensa e duradoura. Hoje temos um ambiente mais consolidado, muito mais músicos atuam profissionalmente, mais grupos, eventos didáticos pipocam por todo o Brasil. E, é claro, temos uma grande vitória: o Núcleo de Música Antiga da Emesp, que tem um corpo docente e uma comunidade de alunos sem equivalência no país. Posso dizer que hoje é possível ter uma formação sólida em música antiga ali. Na minha época de estudante, isso era impensável. Até para começar do zero era necessário sair do Brasil.

Neste mês, você se apresenta com a Orquestra Barroca da Emesp. Faça, por favor, um balanço do Núcleo de Música Antiga da Emesp. O que fez e o que pretende ainda fazer?
O Núcleo completa dez anos neste ano. É um projeto vitorioso, e há muito empenho – tanto da parte da equipe de professores quanto da direção da escola – para que ele floresça e continue a crescer sempre. É a única grade curricular no Brasil pensada especificamente para estudantes de música antiga. Nós baseamos o conteúdo nos grandes centros europeus, como Haia e Basileia. Na Emesp, os alunos têm aulas não só do instrumento, mas também de matérias teóricas específicas, como baixo contínuo, análise barroca e terminologia de época. Isso permite criar um ambiente, uma comunidade de alunos que falam a mesma língua e não se sentem isolados. Nesse meio-tempo, já tivemos gerações de alunos, vários deles obtiveram formação sólida para continuar seus estudos na Europa. Os Encontros Internacionais de Música Antiga, que realizamos já pelo oitavo ano seguido, materializam bem o sucesso do projeto pedagógico, quando podemos reunir no palco um megaensemble de 65 estudantes, todos frutos da existência do núcleo. Seguimos em frente, com a convicção que o caminho é este: perseverança e qualidade artística.

Ainda sobre os concertos de novembro, a obra executada será a Ode a Santa Cecília, de Purcell. Fale um pouco, por favor, sobre a obra e o compositor.
Purcell é um gênio e um excelente exemplo de como grandes compositores do barroco e obras-primas como a Ode devem seu retorno aos dias atuais graças ao movimento de interpretação histórica. Tanta coisa foi injustamente sepultada, com o engessamento do gosto romântico que se instalou ao longo dos séculos XIX e XX. Simplesmente essas obras não se encaixavam no modo de ver e tocar do “cânone moderno”. Ou elas perdiam o sentido, ou os músicos não sabiam mais decifrá-las. Hoje, graças a uma visão mais aberta e curiosa (a meu ver, uma grande contribuição do movimento de música antiga), um patrimônio musical preciosíssimo está de volta às salas de concerto. E esse repertório também nos ensina uma grande lição: os instrumentos de época não são um fetiche ou um modismo, mas, sim, as ferramentas exatas que fazem essa música viver e respirar de novo. A partir dessa experiência irrefutável, podemos estender para os compositores mais “universais” uma reavaliação sobre a maneira que herdamos de fazer essa música, quanta coisa que se tornou automática e padronizada, mas que corresponde a outro gosto, outro estilo.

No concerto você terá a seu lado a soprano e preparadora vocal Marília Vargas, com quem vem realizando trabalho próximo, como na recente montagem da ópera Alcina, de Händel, no Theatro São Pedro.
Marília é uma colega muito próxima. Ela também é professora no Núcleo e vem formando uma geração de cantores barrocos. Sua carreira específica nesse ramo tem servido de guia para muitos artistas. Como disse, saber utilizar bem um “ instrumento de época” nos permite visitar obras muito específicas, maravilhosas, mas que necessitam das ferramentas para um resultado satisfatório. Foi o caso de Alcina, de Händel, do Theatro São Pedro, obra em que pude contar com Marília mostrando como a linguagem barroca pode ser viva e atual, sem a camada de gordura que o gosto romântico colocou no canto erudito.

Ainda sobre Alcina: no Brasil, o repertório operístico, grosso modo, começa com Mozart. É muito raro óperas anteriores a esse compositor serem encenadas por aqui. Por que isso acontece? Que outros itens do repertório pré-mozartiano valeria a pena interpretar aqui? Só dá para fazer as óperas do século XVIII com orquestras “de época” ou é possível encená-las com orquestras “modernas”?
A meu ver, é raro ver produções profissionais de óperas pré-mozartianas nos palcos brasileiros por falta de interesse dos programadores de ópera por esse repertório. Paulo Zuben e a direção do Theatro São Pedro tiveram carinho com o período barroco, e assim pudemos mostrar que uma ópera barroca pode ser fascinante, nova e nem um pouco chata! O resultado geral foi excelente, e o público adorou! É claro, ali foi feito um compromisso: eu dirigi uma orquestra moderna, procurei moldá-la o máximo que pude dentro do gosto e atitudes barrocas. Sem isso, essas obras correm mesmo o risco de ficarem chatas… Para torná-las vivas, é preciso executá-las com consciência. O público pode não se dar conta dessa necessidade, mas percebe quando tudo está bonito, interessante e tão vivo. Com Händel foi possível fazer um compromisso assim, do tipo crossover. Outro tipo de repertório, como óperas de Monteverdi, Lully e Rameau, precisa, sim, ser executado com uma orquestra “de época”. Como eu disse, essas obras falam uma língua musical que só se encaixa na sonoridade, no diapasão e nas técnicas dos instrumentos antigos. É um repertório específico para músicos especialistas. Mas devo dizer, como “especialista”, que até mesmo as óperas de Mozart precisam de uma reavaliação aqui pelos palcos brasileiros. Elas também fazem parte do mundo da música antiga.

No mês que vem, você dirige Os Músicos de Capella em trechos do Oratório de Natal, de Bach. Com essa mesma formação, você já fez A Paixão segundo São João. O que é esse grupo? Fale também um pouco do Oratório em si e do motivo de ter escolhido essas três cantatas específicas.
Os Músicos de Capella é meu grupo, meu celeiro, onde reúno meus colegas especialistas para fazer uma música “comme-il-faut”. Ali não há crossover; procuramos reproduzir o parâmetro de qualidade que aprendemos com nossos mestres na Europa. A exemplo de muitos grupos de música antiga europeus, é uma formação flexível, isto é, o tamanho do grupo varia conforme a necessidade do repertório executado. Os Músicos de Capella já se apresentou aqui no Brasil com cinco músicos ou dez músicos. Não existe aqui fronteira entre a música de câmara e a música “orquestral”. Todos são solistas, é a obra que determinará quantos músicos serão necessários. A Paixão foi um bom exemplo, e o Oratório de Natal seguirá com a mesma ideia: mesmo com um tamanho inflado (35 músicos), cada músico é orador de seu próprio texto, todos são singulares. É uma ideia bem barroca, que transforma na minha opinião completamente o conceito de performance. Para dezembro, faremos três cantatas do Oratório de Natal, escolhidas por possuírem a mesma instrumentação. Pura conveniência! Na verdade, isso não altera nada, considerando que Oratório não foi concebido para ser tocado de uma só vez (ao contrário das Paixões), mas cada cantata num domingo litúrgico da época da Natividade. Portanto, podemos ficar tranquilos em desmembrá-lo sem comprometer a grandiosidade bachiana.

Você se destacou inicialmente como um virtuose do violino barroco, porém seu repertório como regente tem se aprofundado cada vez mais nas obras vocais. Como se deu essa aproximação? Quais as peculiaridades de se trabalharo estilo da “música antiga” no repertório vocal?
Sou e sempre serei um violinista, antes de mais nada… é minha paixão e meu ofício. Virei violinista barroco por causa da minha afinidade com o repertório antigo, e ponto final. Como profissional do instrumento, não vejo fronteira entre o que eu faço e o que os meus colegas “modernos” fazem. Meu respeito e cumplicidade são os mesmos. A mesma coisa foi se dando pouco a pouco com o repertório que exige uma regência. Amo as obras dessa esfera, por isso me desdobro numa outra função para poder passar o que tenho a dizer sobre elas. Eu gosto de passar minha bagagem nesse repertório para as orquestras modernas, e se pudesse faria tudo tocando violino. (risos). Isso acontece muito com o repertório vocal; grandes obras-primas dessa época são vocais e, como disse, necessitam de um olhar especializado, renovado. E procuro também passar uma prática bem barroca: a música vocal tem muito de instrumental, e vice-versa. Para os grandes mestres de violino do século XVIII, tocar bem violino significava saber cantar com o instrumento! Então, quando trabalho com o repertório vocal, procuro passar isso para os cantores, o quanto já vem embutido na escrita musical esta noção: o canto também é um instrumento, é necessário saber destacar essa ferramenta musical do corpo e da personalidade do cantor. Claro, tem mais: mostrar que a música vocal dessa época era a epítome da performance fundamentada na retórica, na declamação e no gesto teatral.

Quais são seus principais planos para 2019?
Continuo minhas atividades como regente, destacando por exemplo minha segunda atuação junto à Osesp com obras barrocas e mais uma vez à frente da Orquestra do Theatro São Pedro, com sinfonias de Mendelssohn. Fora do Brasil, volto aos Estados Unidos e farei uma turnê pela China e por Tawain com o grande cravista francês Pierre Hantai. E, é claro, sempre por aqui e acolá tocando sonatas e partitas para violino solo, muito bem acompanhado pelo mestre Johann Sebastian Bach.

Obrigado pela entrevista. 


AGENDA
Coral Jovem do Estado
e Orquestra Barroca Emesp
Dia 22, Igreja Anglicana (São Paulo)
Dia 25, Theatro São Pedro (São Paulo)

Os Músicos de Capella
Dia 11/12, Sala São Paulo