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por João Luiz Sampaio 01/11/2018

Festival Sesc de Música de Câmara aproxima intérpretes, autores e público

A música é “colaboração em estado puro”. Perceber isso é o primeiro passo em direção à construção de um meio musical mais aberto, diversificado e democrático. E, nele, a música de câmara é um ponto de referência fundamental.

É em torno de conceitos como esses que a gestora cultural Claudia Toni vem trabalhando há muitos anos – e a partir delas idealizou o Festival Internacional Sesc de Música de Câmara, que realiza neste mês sua terceira edição, com dez atrações e 34 apresentações em várias cidades do estado de São Paulo.

“A música de câmara é o exemplo mais vivo de como a colaboração permite que se atinjam graus de excelência quer na criação, quer na interpretação”, escreve ela em texto de apresentação do evento.

Como em anos anteriores, o festival terá a presença de importantes grupos brasileiros e de fora do país, conjuntos que focam não apenas na qualidade artística, mas em formas de diálogo. Um dos destaques é a presença do Tallis Scholars, grupo inglês que é referência na interpretação do repertório do Renascimento, que ajudou a difundir em concertos não apenas em salas tradicionais, mas em igrejas de todo o Reino Unido, abrindo-se também em direção ao repertório contemporâneo.

O grupo, além de se apresentar, fará um dia de ensaios com a participação de cantores brasileiros, culminando em uma audição pública. Para Claudia Toni, atividades como essa reforçam a ideia de diálogo – a qual se espraia pela programação como um todo. “Procuramos unir nossos convidados estrangeiros a músicos brasileiros, incentivar que instrumentistas de larga experiência acolham jovens promissores, permitir que compositores escrevam novos trabalhos para os músicos participantes do festival”, explica.

Quatuor Zaïde [Divulgação]
Quatuor Zaïde [Divulgação]

São vários os exemplos. O acordeonista dinamarquês Andreas Borregaard, por exemplo, vai se unir aos músicos do Quarteto Camargo Guarnieri para fazer a estreia brasileira de Dancers & Disappearance, de Bent Sorensen. Já o Quarteto Troupe, baseado em Londres, onde desenvolve trabalho dedicado à formação de público, vai apresentar o programa “O mau humor”, com obras de Cage, Meredith Monk, Ravel, Bach e do brasileiro Villa-Lobos. “Essas moças de inquietude musical admirável representam uma nova vertente entre os intérpretes internacionais, cuja atenção tem se voltado para a criação de programas sofisticados e imaginosos, diametralmente opostos ao tão aborrecido, ineficaz e pretensioso ‘concerto didático’”, diz Toni. 

O fagotista Fabio Cury vai se unir aos músicos do Grupo de Pesquisa de Música da Renascença e Contemporânea (GReCO), coordenado por Cesar Villavicencio, para um programa que terá como destaque o trabalho da compositora brasileira Michelle Agnes, que mora em Paris, onde integra o Ircam: ela escreveu arranjos para cinco cânones de Bach e compôs uma nova peça, Grande Can(y)on, a ser estreada pelo conjunto. 

Outro representante da nova geração de autores brasileiros, Leonardo Martinelli, foi convidado a escrever uma peça para o Berlin Counterpoint, conjunto de sopros alemão; chama-se Allegro scorrevole. “É preciso ampliar o repertório contemporâneo brasileiro e fazer da encomenda um hábito. Os incríveis intérpretes do sexteto vão dar asas ao Allegro tocando-o em palcos internacionais, comprovando que precisamos colaborar cada vez mais com os colegas de fora para amplificar nossa produção musical”, afirma Claudia Toni.

“O título em italiano é também a marcação de tempo e se refere ao fluxo rápido e fluente de elementos musicais que caracterizam a partitura”, aponta Martinelli. “Além disso, no repertório da música de concerto moderna, Allegro scorrevole tem sido usado como um tipo de affetto imbuído de peculiar carga de tensão. Aqui, essa tensão é explorada de maneiras diferentes e simultânea, como o ritmo frenético do acompanhamento, as intervenções do piano e o modo como vários solos instrumentais são desenvolvidos.”

A programação conta ainda com dois quartetos. O francês Quatuor Zaïde vai se unir ao brasileiro Ovanir Buosi para tocar o Quinteto para clarinete de Mozart, em um programa que tem ainda obras de Debussy e Stravinsky. E o Tesla Quartet, grupo norte-americano, vai se apresentar com o pianista Ricardo Castro. O conjunto também fará o Quarteto nº 17 de Villa-Lobos e uma parada em Salvador para trabalhar com os jovens do Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojiba).

Outro programa especial vai reunir os veteranos Ricardo Bologna e Eduardo Gianesella, do Duo Contexto, a jovens percussionistas para um espetáculo voltado ao público jovem, batizado de “Entre tambores, baquetas e chocalhos”, que terá a participação do pianista Horácio Gouveia. O duo também interpreta Ionisation, de Varèse, que, nas palavras de Toni, “soa cada vez mais nova e impressionante, apesar de ser quase nonagenária”. 


AGENDA
Festival Sesc de Música de Câmara

De 23 de novembro a 2 de dezembro
Em diversas unidades do Sesc em São Paulo, 
Jundiaí, Rio Preto, São Carlos e Sorocaba