Claudio Santoro, o regional universal

por Júlio Medaglia 01/01/2019

No centenário do compositor, sua obra deve ser lembrada não só pela variedade de seus experimentos, mas também por seu profundo sentido musical e beleza

O século XX, era das globalizações, atingiu em cheio também os conceitos musicais. Com o mundo inteiro em casa, com tudo disponível ao simples toque de uma tecla de computador, ficou difícil prestigiar valores nascidos ou preservados regionalmente. Um dos grandes conflitos artísticos do século XX foi o “vertical”, digamos assim, aquele que questionava as características das novas tendências e sua inserção no mainstream da história. Foi tão conflitante essa questão que, depois da Primeira Guerra Mundial, os autores resolveram retrair suas fúrias revolucionárias partindo, até mesmo, para um neoclassicismo para repensar as ideias. A outra crise era, digamos, “horizontal”. Ou seja, a do relacionamento dos criadores com seus contemporâneos, já que nesse período os relacionamentos internacionais corriam a mil, com o mundo se transformando numa aldeia, como dizia Marshal McLuhan.

Curiosamente, uma linguagem bem artificial oriunda do racionalismo germânico, o dodecafonismo, no segundo pós-guerra chegou a unificar em torno de si toda uma geração de autores. Você podia ser alemão (Stockhausen), austríaco (Schönberg, Berg, Webern), italiano (Luigi Nono, Bruno Maderna, Luciano Berio), japonês (Toshiro Mayusumi), belga (Pousseur), húngaro (Ligeti), Grego (Xenakis), argentino (Juan Carlos Paz), francês (Pierre Boulez, Olivier Messiaen), americano (Milton Babbitt, Gunther Schuller), polonês (Penderecki) e até russo, como foi o caso de Stravinsky, que no fim da vida aderiu à linguagem em que a ordem era comprar uma lupa e uma pinça e colocar notinha por notinha no papel como se criasse um abstrato mosaico sonoro. 

Claudio Santoro (1919-1989) [Reprodução]
Claudio Santoro (1919-1989) [Reprodução]

No Brasil, com a chegada de Koellreutter, surgiu uma geração de dodecafonistas que, em dado momento, acreditava fervorosamente que estar “em dia” com o modernismo ou com a “vanguarda” de seu tempo era escrever com séries de doze sons. Uma das figuras mais expressivas dessa geração brasileira, com a qual tive contato próximo e permanente, foi o amazonense Claudio Santoro, lembrado e homenageado neste ano que se inicia pelo centenário de seu nascimento. 

Mente inquieta, que queria açambarcar as coisas do mundo em sua obra, não só contava na estruturação de suas ideias com os valores musicais herdados de sua origem, como com toda a movimentação social, política e estética de seu tempo. Com isso, nasceu o grande conflito de sua postura cultural. Como abdicar do rico manancial cultural-musical do Brasil e partir para uma música absolutamente abstrata e isenta de qualquer conceito tradicional, de qualquer simetria, de qualquer relação com a cultura espontânea regional, dos maneirismos da prática instrumental do Ocidente, das inquietações sociopolíticas brasileiras e universais etc.? 

No entanto, exatamente aqui residiam as principais características de sua personalidade e seu talento. Diferentemente daqueles que achavam que, por ter nascido num país rico em matéria de cultura espontânea, deveriam permanecer fieis a elas e só a elas – e diferente também daqueles que achavam que compor com os doze sons é falar a única linguagem universal –, Claudio fez de sua obra um caldeirão de experimentos da maior variedade, riqueza e consistência. Todas as reviravoltas que ocorreram na ebulição musical do século passado ele recebia e provocava. E isso ia do frio e calculista dodecafonismo ao bumba meu boi. 

Captando e trabalhando com as aventuras do som no século XX, Claudio construiu uma obra importante e interessantíssima, e isso não só pela variedade dos experimentos, mas por seu profundo sentido musical e beleza. Por isso ele podia lançar mão, quando lhe dava na telha, do folclore de uma canção de ninar que ouvira na infância ou da ousadíssima engenharia sonora schönbergiana, pois tudo em seu trabalho soava boa música. Nada parecia experimento. 

Claudio não fez média com a cultura popular, mas não se tornou escravo das tendências mais avançadas de seu tempo. Por essa razão, se sua música tinha por vezes a “cor local” brasileira, não sofria dos males do provincianismo. E quando compunha com os experimentos mais recentes das vanguardas, eles não pareciam “maneiristas” nem “artificiais”. Chegar a uma solução estética dessa natureza é coisa de gênio.