Liderada por Fiorella Solares, Ação Social pela Música do Brasil inspira jovens da periferia a seguir na música
Por Ana Cursino Guariglia
A violinista Anna Eliza Moraes tem 22 anos e está estudando o Concerto em ré maior de Beethoven para seu recital de formatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob orientação de seu professor, Fernando Pereira. Não fosse por sua experiência na Ação Social pela Música do Brasil (ASMB), ela provavelmente nunca teria conhecido o instrumento ao qual decidiria dedicar sua vida.
Aos 10 anos, Anna Eliza encontrou nas atividades da ASMB uma maneira de passar o tempo livre à tarde, após voltar da escola. As aulas aconteciam no núcleo do Complexo do Alemão, onde mora. “Conforme fui estudando e fazendo novos amigos, comecei a me envolver muito com a música, e aí quis realmente seguir carreira”, diz.
Além do núcleo do Complexo do Alemão, a ASMB conta com mais 12. A maioria fica no Estado do Rio de Janeiro e outros cinco estão distribuídos entre Paraíba e Rondônia, com planos de abertura também em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Patrocinada por meio de leis de incentivo fiscal, a ONG implanta os núcleos em áreas de vulnerabilidade social. O mais recente, aberto ano passado, está no Jardim Catarina, em São Gonçalo. Com cerca de 200 mil habitantes, a favela sofre com a violência. A expectativa é que a chegada do projeto contribua para melhorar a realidade do entorno.
Fundada em 1995 pelo maestro David Machado, a Ação Social pela Música do Brasil nasceu a partir do apoio direto de José Antonio Abreu, criador do El Sistema na Venezuela. Os planos de expandir o modelo venezuelano por toda a América Latina começaria no Brasil graças à estreita relação entre Abreu e Machado, que já colaborava no El Sistema dando aulas e regendo a Orquestra Simón Bolívar.
Há de se pensar que a morte prematura de David Machado, no final de 1995, aos 57 anos, teria feito parar os motores de criação da ASMB, mas não foi o caso. Fiorella Solares, então esposa de Machado, prontamente tomou as rédeas do projeto. “O Abreu me ligou para dar os pêsames e na mesma ligação ele me disse que eu era a pessoa que tinha que assumir aquilo. Estava tudo nas minhas mãos”, relembra.
Violoncelista, Solares tocava em orquestras como a do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a Petrobras Sinfônica. A gestão de um projeto social não era sua principal habilidade. “Aprendi fazendo. Me tornei gestora experiente porque estou há mais de 25 anos neste trabalho”, ressalta.
Deu certo. A implantação dos vários núcleos, que, segundo Solares, muito se deveu à criação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) a partir de 2008, possibilitou que crianças e adolescentes da periferia tivessem pela primeira vez contato com a música clássica.
A missão da ASMB não é somente encaminhar músicos para sua profissionalização. “Nós não somos uma escola de música. Somos um projeto social de educação que usa a música como ferramenta”, explica Fiorella. Muitas outras iniciativas partem da ONG: o fornecimento de cestas básicas e reforço escolar, o apoio psicológico e a organização de palestras que abordam temas como sexualidade, bullying e discriminação fazem parte das atividades promovidas.
Ainda assim, é inegável que o carro-chefe do projeto seja a música, e isso se deve à vontade dos próprios jovens de continuarem aperfeiçoando seus estudos. “Fiorella procurou professores de fora, porque ela viu que a gente queria mesmo fazer”, relembra Anna Eliza. Nessa nova fase, professores vindos de universidades e orquestras foram contratados para dar aulas de instrumento e teoria a quem quisesse fazer o vestibular de música – essas aulas são ministradas no centro do Rio de Janeiro, com vagas muito disputadas.
O resultado? Vários músicos com ótimas pontuações no Teste de Habilidade Específica (THE), que é a prova de teoria e prática musical das universidades do Rio, vêm da ASMB. A esse ponto, fez muito sentido que o projeto criasse seu próprio grupo orquestral.
A Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro foi reestruturada em 2014 a partir da vontade do presidente do Conselho da ONG, Ronald Riess. A programação deste ano celebra os 10 anos da orquestra, a começar em 6 de março no Theatro Municipal do Rio de Janeiro com o maestro Tobias Volkmann e o pianista Leonardo Hilsdorf. Além disso, o violinista e regente Cláudio Cruz assumirá, como primeiro maestro convidado, diversas atividades pedagógicas com o grupo durante o ano. “Cláudio já tem um know-how para trabalhar com os jovens. A garotada ama”, afirma Solares.
Dentre os grupos de câmara formados também a partir do projeto estão a Camerata Jovem, que já tocou em cidades como Düsseldorf e Berlim, a Camerata da Vila e a Camerata Allegretto. Além disso, a Orquestra Infanto-Juvenil, hoje composta por 120 alunos, terá suas atividades ampliadas.
Após mais de vinte anos de trocas, Fiorella Solares conclui: “Essa garotada me mostrou a capacidade que eu tinha de amar as pessoas. Neste projeto, eu concretizo o amor que eu recebo deles. Se eu não tivesse essas crianças e adolescentes eu não saberia da minha capacidade de amar. É uma grande bênção”.
AGENDA
Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro
Tobias Volkmann – regente
Leonardo Hilsdorf – piano
Dia 6, Theatro Municipal do Rio de Janeiro
