Acervo CONCERTO: A vida e a obra de Luigi Nono

por Redação CONCERTO 25/05/2026

Texto de Leonardo Martinelli publicado na edição de agosto de 2010 da Revista CONCERTO, na seção 'Vidas Musicais'

Com vida e obra marcadas pelo engajamento político, o compositor italiano Luigi Nono é um dos grandes nomes da música do século XX. Sua íntima relação com a política e com o pensamento de esquerda foi determinante em suas criações, muitas das quais geraram acaloradas polêmicas. Detentor de uma escrita ao mesmo tempo lírica e rígida, Luigi Nono está sendo homenageado mundo afora por meio de diversos lançamentos fonográficos e novas montagens de seus espetáculos cênicos

Não houve em toda a história da humanidade tempos mais conturbados do que “o breve século XX”, para nos remetermos ao conceito do historiador Eric Hobsbawm, que batizou o século passado como “a era dos extremos”: extremos por conta do embate entre diferentes pensamentos políticos, entre a velha ordem capitalista e a ideologia de um mundo mais justo regido pelo socialismo, o choque de valores da antiga sociedade com a cultura contemporânea, a ascensão da cultura jovem e da contracultura, o advento dos meios de comunicação em massa e do entretenimento eletrônico, a intensa movimentação política que agitou o mundo e, acima de tudo, pela franca ascensão da globalização, em cuja faceta trágica se contabilizam milhares de mortos derrubados em duas Guerras Mundiais e outros tantos em dezenas de conflitos menores, porém não menos cruéis.

Ao longo do século passado artistas de diferentes áreas fizeram de seu engajamento político parte fundamental de sua poética. Na música clássica não foi diferente, e talvez nenhum outro músico tenha se engajado tanto quanto Luigi Nono. O compositor italiano de fato não foi o único a fazer de sua produção artística uma extensão de sua atuação política. Porém, dentro de sua geração (que inclui mestres como Luciano Berio, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen), nenhum foi mais enfático do que ele. Além disso, a obra de Nono detém uma característica rara em artistas tão política e ideologicamente engajados: sua música encerra grande qualidade artística, o que o tornou importante referência para as gerações posteriores.

Nascido em Veneza em 29 de janeiro de 1924, Nono é fruto de uma família com estreitas relações com as artes plásticas (seu avô, Ernesto Nono, foi um notável escultor), que fazia da música parte importante de seu cotidiano. Aos 21 anos, Nono ingressou no Conservatório de Veneza, onde teve aulas com o compositor e musicólogo Gian Francesco Malipiero, responsável por uma das mais respeitadas edições da obra de Claudio Monteverdi. Seus anos de estudo em Veneza – onde ao mesmo tempo se aprofundava na música antiga e na moderna – foram decisivos para a consolidação de sua base criativa, tendo entrado em contato tanto com os madrigalistas da Renascença quanto com a modernidade de Stravinsky, Bartók e, principalmente, Arnold Schönberg e outros compositores associados à Segunda Escola de Viena.


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Após realizar uma graduação em direito pela Universidade de Pádua (momento em que começou a se engajar politicamente), Nono foi persuadido pelo amigo e compositor Bruno Maderna a decidir-se de vez pela música, passando a ter aulas de regência com o maestro alemão Hermann Scherchen, um notório entusiasta da música contemporânea. Foi Scherchen quem o incentivou a participar do Curso Internacional de Férias de Música Nova de Darmstadt, na Alemanha, em 1950. Na época, os cursos de Darmstadt já eram famosos por reunir a nata da música contemporânea, e Nono marcou presença quando foi apresentada sua obra Variazioni canoniche sulla serie dell’op. 41 di Schoenberg. Ao longo da década de 1950 desenvolveu-se nos cursos de Darmstadt o legado deixado pela Segunda Escola de Viena, resultando naquilo que viria a ser chamado de “música serial”, na qual diferentes processos de cunho matemático estão na base da elaboração do material a ser utilizado na composição de uma música. Nono frequentou como aluno os cursos Darmstadt até 1957, para então se tornar um de seus mais procurados professores, ao lado de seus colegas Boulez e Stockhausen.

Já na década de 1950 a atuação política de Nono vem à tona. Após ter se filiado ao Partido Comunista Italiano em 1952, ele compõe uma série de obras nas quais a dimensão política é indissociável da dimensão estética, tal como Tre epitaffi per Federico García Lorca (1951-53), La Victoire de Guernica (1954) e a obra-prima Il canto sospeso (1955-56), peça para coro e orquestra no qual Nono incorpora trechos de cartas de despedida de presos políticos da resistência europeia contra as nações do eixo nazifascista.

Nos anos que se seguiram, nos cursos de Darmstadt, o desenvolvimento da música serial e de outros processos de estruturação musical foi cedendo terreno às experimentações no campo da indeterminação e da música aleatória, já sob a bombástica influência do compositor norte-americano John Cage.

Sempre fiel às suas convicções, em 1959 Nono redige em conjunto com seu então aluno Helmut Lachenmann (hoje um dos mais reputados compositores vivos) uma palestra que agitou as vanguardas, sob o título de A história e o presente da música de hoje. As críticas que recebeu de seus colegas (inclusive uma clássica análise de Stockhausen de Il canto sospeso) e a falta de compreensão frente aos seus padrões de engajamento político acabaram fazendo com que Nono saísse do círculo de Darmstadt, iniciando uma nova fase de sua carreira com a obra Intolleranza 1960 (referência ao ano de sua composição). Nessa peça, a renovação da linguagem operística volta ao berço italiano. Jogando para o ar a linearidade narrativa, Nono elabora ele mesmo um libreto a partir de textos do poeta e jornalista tcheco Julius Fucík, de Jean Paul Sartre, Paul Éluard, Vladimir Mayakovsky e Bertolt Brecht para narrar as desventuras de um refugiado no sul da Itália, denunciando todo um violento sistema de opressão política e racial. O espetáculo – que Nono batizou não como ópera, mas como “ação cênica” – foi estreado no ano seguinte no tradicional Teatro La Fenice de Veneza, sob a regência de Bruno Maderna e com cenários de Emilio Vedova. Do lado da música, houve protestos dos tradicionalistas em ver montado no sacrossanto palco um espetáculo que botava as convenções operísticas de pernas para o ar. Do lado político, o espetáculo foi interrompido durante uma cena de tortura por um grupo de neofascistas que gritava “Viva la polizia!”

Ao longo das décadas 1960-70, Nono continuou fazendo do mundo em ebulição social sua principal fonte de inspiração, momento em que compôs várias obras importantes como Canti di vita e d’amore: sul ponte di Hiroshima (1962), La fabbrica illuminata (1964, na qual denuncia as degradantes condições de trabalho da classe operária), A floresta é jovem e cheia de vida (de 1966, com título original em português, na qual ele debate o imperialismo norte-americano e a Guerra do Vietnã) e a ópera Al gran sole carico d’amore, de 1975, obra-prima a partir da peça de Bertolt Brecht com inserções de textos de Fidel Castro, Che Guevara, Karl Marx e Vladimir Lenin. Nesse período, Nono viaja pela América Latina e pela então União Soviética, onde trava contato com vanguardistas como Alfred Schnittke e reprova veementemente a política musical do regime soviético.

A década de 1980 marca um novo período de atividade intelectual de Nono, no qual o tempestuoso engajamento cede lugar a uma atitude mais reflexiva a partir da influência do filósofo italiano Massimo Cacciari (que hoje é prefeito de Veneza) e do alemão Walter Benjamim. Essa fase é coroada com o monumental espetáculo Prometeo – tragedia dell’ascolto (ou Prometeu, a tragédia da escuta), com libreto de Cacciari e estreada sob a regência de Claudio Abbado. Nessa obra, a questão da condição e existência humanas soma-se às inevitáveis refl exões sociopolíticas. Após morar por um tempo em Freiburg, na Alemanha, Nono retorna para sua Veneza natal, onde morre de causas naturais em 8 de maio de 1990, consagrado como um dos mais inventivos compositores da era dos extremos.

Acervo CONCERTO: Luigi Nono

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