Músico relembra história do evento, que será realizado entre os dias 8 e 16 de agosto
O violoncelo, com seu fascinante timbre entre a carícia e o lamento, é a estrela do festival que completa 32 anos em 2026: o Rio Cello. Essa edição, que vai de 8 a 16 de agosto em vários espaços do Rio de Janeiro, traz as “violonceladas” que marcaram o evento, as apresentações em duos e trios, os programas que vão do barroco ao contemporâneo, passando pela música popular brasileira e pelo jazz. Traz ainda o namoro do violoncelo com a dança, com as artes plásticas e o espaço para as crianças, o Cello Kids, uma novidade desse ano. À frente de tudo, David Chew, tido como o britânico mais carioca da cidade. Tudo é gratuito – das oficinas aos concertos. O patrocínio é da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro.
“A ideia inicial era, sim, popularizar o cello”, conta Chew à CONCERTO. “Comecei a tocar Villa-Lobos quando tinha 15 anos de idade e ele tinha esse movimento de popularização, fazia conjuntos de até 32 cellos. Quando vim para o Brasil e dava aulas em Curitiba para 50,60 alunos, eles queriam tocar em conjunto... e nasceu a ideia de fazer o primeiro encontro, em 1994, no Rio de Janeiro.”
Mas não foi só essa a motivação. No ano anterior à estreia, 1993, havia ocorrido o assassinato de meninos de rua na Candelária, no Centro do Rio. Essa tragédia também impulsionou David Chew. “Eu queria ajudar de alguma forma, chamar a atenção, sinalizar esperança.” Já na primeira edição, muitos amigos do circuito da música internacional aceitaram o convite. “Universidades, consulados ajudam muito. Esse ano teremos o professor no Berkeley Music School David Haughey, que foi meu aluno no Colorado. Ele toca bem tanto Prokofiev quanto jazz e bossa nova; canta e se acompanha no cello! Acho invejável.”
A ideia de família não é só metafórica no Rio Cello. As duas filhas de David, Mariana e Carina, estão na equipe. Mariana é produtora; Carina, artista plástica, comanda o Cello Tinta, outra programação que estimula grupos de jovens a pintar e desenhar na inspiração da música e acontece, dia 15, com Lars Hoefs e David Chew (cellos) e Flávia Torga (percussão). Mais família: o gaúcho Hugo Pilger vai se apresentar com seu filho Emanuel (“Uma delícia! Grande cumplicidade!”, diz Hugo), dia 12, no Museu da República. Esse ano estreia ainda o Cello Kids, braço do festival dedicado às crianças que aprendem o instrumento – incluindo o neto de David, Vicente. “Ronaldo Alves, um dos professores da escola Rio Cello, que funciona o ano todo na comunidade Dona Marta, em Botafogo, vai comandar essa parte”, conta Chew. “A escola tem mais de 120 alunos, parte deles estará no dia 15 no Museu da República e 30 deles estarão tocando, aproximando a criançada e o público do cello. Teremos um luthier que vai até mostrar um cello aberto.”
Comemoram-se também os 20 anos do Cello Dance, combinação de música de dança, com dois eventos nesse combo – a abertura, com a bailarina Chris Cecconelo, o celista Lui Coimbra, os violinistas Karolin Broosch e Thiago Cosmo, o grupo Amores do Rio, a Camerata Laranjeiras e os corais Cantos da Urca e Cantos do Largo. O programa é uma homenagem a Tom Jobim – profundo admirador de Villa-Lobos - e a Vinicius de Moraes No encerramento, a primeira bailarina do Municipal carioca Bettina Dalcanale vai dançar O Canto do Cisne Negro, de Villa-Lobos, tocado por David Chew, no gramado do museu. Foi Bettina quem fez o primeiro espetáculo do Cello Dance.
Já plantei muitas sementes. Hoje há violonceladas do nosso jeitinho pelo mundo. E ano que vem vou fazer um Brazilian Weekend em Londres, com a obra de Villa-Lobos
David puxa o assunto para lembrar o maior violoncelista brasileiro de todos os tempos, Antonio Meneses, falecido em 2024. Antonio esteve presente em todas as edições do evento: “Nas poucas vezes em que não participou, mandou seus melhores alunos”, lembra. “Eu não sei nem por onde começar a dizer quantas saudades tenho do Antonio. A gente adorava cozinhar juntos. Antonio chorava de rir em nossa cozinha." Nasceu dentro do festival o vídeo com as sonatas de Vivaldi com os dois músicos e a cravista Rosana Lanzelotte, gravado em 2014. “Ano que vem, se tudo der certo, eu quero fazer um concurso internacional no âmbito do festival e dedicar o prêmio a Antonio Meneses. O legado do Rio Cello tem estreia ligação com o grande artista, o grande amigo e a grande personalidade que o Antonio sempre vai ser.”
Antes do início do projeto no Rio, o festival faz um pit-stop em Volta Redonda, cidade industrial fluminense a 130km da capital do estado, como faz há duas décadas. “Com a regente Sara Higino, a gente leva vários professores internacionais para dar aula para os jovens do projeto Volta Redonda, Cidade da Música, que tem mais de 4 mil alunos. Também faremos por lá dois concertos, com Blas Rivera, Michel Bessler, Bernardo Fantini e muitos outros”, lembra David. “E eles vêm ao Rio no dia 12 para tocar na igreja da Candelária.”
David não para de projetar novos caminhos. Além da âncora que é o festival, e da escola que funciona permanentemente, há uma série de projetos em andamento. “Já plantei muitas sementes. Hoje há violonceladas do nosso jeitinho pelo mundo”, ele ri. “E ano que vem vou fazer um Brazilian Weekend em Londres, com a obra de Villa-Lobos.”
Seja como um carinho, ou um doce lamento, a voz do violoncelo já tem sua tradição no Rio de Janeiro como ferramenta de educação e de divulgação da boa música. “A música tem poderes curativos. A música pode ajudar pessoas que, às vezes, não têm esperança porque não têm palavras. A música é a linguagem que ajuda as pessoas”, encerra David Chew.
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