Com alta qualidade e eletricidade contagiante, Orquestra Jovem do Estado tocou o Concerto para piano de Amy Beach e a Sinfonia nº 1 de Mahler
É uma alegria grande ouvir a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo. Sua qualidade é alta, e ela traz um elemento a mais: uma energia entusiasmada, muito direta, quase física, que às vezes falta em orquestras profissionais. Seus músicos estão num momento de formação, em que tudo é conquista: o repertório, a experiência de tocar numa grande sala como a Sala São Paulo, o contato com regentes e solistas. Tudo isso cria uma eletricidade que contagia.
Além disso, as orquestras jovens de alto nível tendem a responder com rapidez às ideias do regente. Não existe ainda aquela cristalização de hábitos orquestrais que transparece em conjuntos profissionais marcados pela rotina. Sem contar o aspecto humano: uma orquestra jovem nos lembra que a música continua sendo transmitida de geração em geração, como prática viva. Muitas vezes, as obras soam mais convincentes com orquestras jovens porque são investidas por impulso e risco.
Entre as numerosas qualidades do maestro Cláudio Cruz está a de trazer ao público partituras raramente executadas. No concerto de domingo, dia 8, ele precisava de uma compositora: o dia Dia da Mulher oblige à justa homenagem. Foi buscar uma americana, Amy Beach, ela própria pianista virtuose, que escreveu um concerto para seu instrumento, estreado no ano de 1900.
O concerto de Amy Beach é uma obra lírica e inspirada. Ele participa do mesmo clima que, na virada do século, também se encontra em Rachmaninoff. O piano é virtuoso, com passagens largas, arpejos, oitavas e texturas densas, um virtuosismo que serve à expressividade dos afetos. Uma obra que não se comporta como um concerto clássico, onde a dialética entre exposição, desenvolvimento e recapitulação é muito controlada. Sua escrita tende mais para uma forma rapsódica, quase narrativa, em que as ideias se sucedem com bastante liberdade.
É original também em relação a muitos concertos românticos, nos quais existe uma oposição quase teatral entre piano e orquestra, como em vários momentos dos concertos de Liszt ou de Tchaikovsky. Em Beach ocorre algo diferente: o piano emerge do tecido orquestral e volta a ele com naturalidade, obtendo um equilíbrio na respiração musical. Beach escreveu o concerto para ela própria tocar, o que talvez explique o conhecimento muito concreto do que funciona bem no diálogo com a orquestra.
O concerto se beneficiou com a brilhante participação da pianista Lígia Moreno, capaz de colorir a obra com luminosidade de arco-íris
O concerto se beneficiou com a brilhante participação da pianista Lígia Moreno, capaz de colorir a obra com luminosidade de arco-íris. De lambuja, ela ofereceu como bis, uma radiante Widmung, canção de Schumann, transcrita por Liszt.
A Sinfonia nº 1 de Mahler concluiu o programa. Aqui, vou ter que voltar a empregar algumas vezes a palavra “rapsódico”.
Primeiro, porque a Sinfonia nº 1 alterna paisagens sonoras muito diferentes, num processo narrativo de liberdade muito sutil. A música de Gustav Mahler vive de flexibilidade fina, ou seja, pequenas suspensões, dilatações, retomadas súbitas de impulso. Sem isso, a música pode até soar correta, mas perde justamente aquilo que a torna viva. Por sinal, Mahler, como regente, era conhecido por modificar continuamente o tempo, às vezes de maneira imprevisível, numa respiração elástica. É, portanto, uma sinfonia “rapsódica”.
Ora, Cláudio Cruz é exatamente o maestro de que essa sinfonia necessita. Ele tem uma personalidade – coisa não muito comum – e essa personalidade é exatamente “rapsódica”. Ele é o contrário do “quadrado”. Sabe sustentar o fraseado das melodias, sabe empregar incríveis rubatos e variações de andamento, sabe como tornar viva e pulsante aquela grande obra.
E aí entra a qualidade da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. Isso porque, para uma orquestra, tocar “quadrado” é tecnicamente muito mais fácil. O pulso permanece fixo, os ataques são previsíveis e os músicos podem confiar numa espécie de grade métrica estável. Muitos regentes adotam isso justamente para garantir segurança coletiva. Quando um regente começa a usar rubatos amplos, micro variações de andamento e respirações livres, a dificuldade aumenta muito. Os músicos precisam ouvir constantemente uns aos outros; acompanhar o gesto do regente com enorme atenção; antecipar mudanças de tempo quase intuitivamente. Isso exige uma plasticidade coletiva que nem todas as orquestras possuem e exige também que o maestro confie em sua orquestra.
Ora, a Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo seguia os rubatos com naturalidade, acompanhava a flexibilidade dos fraseados tranquilamente. Isso mostra não apenas entusiasmo juvenil, mas disciplina de escuta, que é uma qualidade orquestral de alto nível.
Enfim, um concerto solar para aquela tarde paulistana de chuvarada.
P.S.: Tenho dois pontos a assinalar ainda.
Grande parte do público era, com evidência, novata em salas de concerto. Talvez tenha havido muita distribuição de convites, talvez os preços populares tenham ajudado a atrair os assistentes. Isso é excelente: expor gente nova à música sinfônica. Mas seria preciso um trabalho de preparação prévia, talvez uma exposição a respeito antes do início.
Acho simpático quando o público aplaude fora de hora: é sinal de que está gostando. Não é esse o problema. A questão é o comportamento na sala. Gente se levantando, mudando de lugar, indo embora, fazendo barulho nas passagens mais delicadas, conversando. Gente que traz crianças muito pequenas, sabe-se lá por quê, já que elas têm que sofrer a tortura da imobilidade por muito tempo. Elas não aguentam, e com razão, protestam, choram.
Creio que seria útil um esclarecimento preliminar, do tipo “o concerto começa com a obra tal, que tem tantos movimentos, que são assim, assado. Depois há um intervalo” - três pessoas me perguntaram, no fim da primeira parte, se a apresentação findara - “e haverá em seguida a obra tal. Prestem atenção nas partes mais baixinhas, é isso que prepara a explosão em certos momentos, etc.”
Ninguém nasceu sabendo sobre nada, muito menos sobre rituais de sala de concertos e a necessidade de concentração para se ouvir música.
Para concluir, o seguinte: a Orquestra Jovem é do Estado de São Paulo. Não do município, nem de qualquer entidade particular. Ou seja, ela é mantida com os impostos pagos por todos os paulistas e, com a qualidade tão alta que possui, deveria circular pelo Estado, que possui teatros pelo interior afora, e pode também fazer convênios com municípios. Porque é uma pena que um tal concerto, de tal qualidade, seja apresentado uma única vez.
[O concerto foi transmitido ao vivo e pode ser assistido no YouTube - clique aqui para acessar.]
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