Com Hans Werner Henze, nunca estamos diante de música fácil, banal, corriqueira, e somos lembrados de que nunca se deve permanecer passivo
O compositor alemão Hans Werner Henze nasceu no dia 1º de julho de 1926, há exatos cem anos. Figura controvertida, sobretudo na tribo pós-weberniana da segunda metade do século XX. Morreu feliz, realizado, aos 86 anos, em 27 de outubro de 2012. Na Alemanha, não na Itália, país que adotou desde meados dos anos 1950, após ser enxotado dos célebres Cursos de Verão de Darmstadt, capitaneados por Stockhausen e Boulez. Um grande compositor absolutamente antenado com o seu tempo. Sua obra, numa avaliação ampla, sempre representou um exercício de liberdade de um homem que atravessou os horrores do nazismo e da Segunda Guerra Mundial – quando ela terminou, estava com 19 anos – e viveu na pesada atmosfera da Guerra Fria entre as duas superpotências, cada uma rosnando para a outra que tinha arsenal nuclear suficiente para destruir o mundo centenas de vezes. Era impossível permanecer passivo, explicou o compositor numa preciosa entrevista de 2003 à Radio France.
Isso estava já em sua primeira resposta, depois de contar que esteve nos Cursos de Verão de Darmstadt em três anos, entre 1955 e 1957. “As duas primeiras como estudante, a terceira como professor. Compreendi imediatamente que estávamos criando uma escola, um estilo cuja ambição era dominar o mundo. Achava isso frustrante porque, tendo sofrido sob a ditadura na minha juventude, ansiava por liberdade de pensamento e independência criativa. Então, senti a necessidade de me isolar e encontrar meu próprio caminho, longe do centro oficial da música. Foi difícil porque fui rotulado de traidor, já que havia traído a causa! Isso não foi nada agradável para mim, pois me fez duvidar do meu trabalho, da justificativa para minha busca estilística. Também fui acusado de ser um ladrão.”
Direto ao ponto. “A vanguarda defendia a ideia de purismo, que eu não entendia porque amava muito o teatro. Se você trabalha com teatro, a música não pode permanecer pura: ela carrega vida, drama, amor, morte, felicidade, tristeza. Portanto, deve ser capaz de expressar e representar uma ampla gama de emoções.”
Compôs 16 óperas, a primeira delas Boulevard Solitude, em 1952. Quinze anos depois, Boulez, declarava à revista Der Spiegel que seria ótimo “incendiar os teatros de ópera” em sua cruzada pela música pura, abstrata. Henze via a questão de outro jeito: “O que me interessa na ópera é que ela reúne todos os modos de expressão artística: pintura, arquitetura, direção cênica, arte vocal, música em todos os seus aspectos e a possibilidade que oferece, como um marionetista, de inventar formas teatrais”.
Mas Henze também explorou a fundo a sinfonia. Suas dez provam, argumenta, que ela é “uma forma comparável ao romance para um escritor (...) Não devemos rejeitar a forma sinfônica, mas sim nos esforçar para respeitá-la, para encontrar maneiras de superar a desconfiança e os medos”.
Em 1952, ganhou bolsa de estudos para estudar na Itália. Deveria voltar para a Alemanha em 1956. “Mas para fazer o quê? Participar de mesas-redondas sobre a utilidade da música dos doze semitons? Não!”
Convocado em 1944 pelo regime nazista, foi operador de rádio, mas pouco tempo depois acabou capturado pelos britânicos, permanecendo preso até o final da Segunda Guerra Mundial. Fez questão de contar que “mais tarde me filiei ao Partido Comunista, depois de testemunhar os eventos de 1968, quando finalmente meus compatriotas, especialmente os jovens, estavam se rebelando contra o status quo e um vento de liberdade soprava, uma liberdade que sempre carreguei dentro de mim. Era a primavera da renovação, e me comprometi com os ideais de Che Guevara e fui para Cuba, onde me apresentei com a Orquestra de Havana e onde pude compor bastante”.
Foi em Cuba, em 1969-1970, que compôs El Cimarrón, propondo uma nova forma de teatro musical centrada na autobiografia de um ex-escravo em Cuba. Ledice Fernandes de Oliveira Weiss, no artigo “A composição de El Cimarrón de H. W. Henze -- liberdade e referencialidade em uma narrativa musical” (2018), mostra como “o texto original foi tratado para sua versão musical, e como a escrita vocal e instrumental é tratada e se combina a essa dramaturgia para constituir uma ‘narração’ .Observa-se, ainda, como o pensamento politizado do compositor induz escolhas composicionais tais como as diferentes formas de notação (grafismo, indeterminação rítmica), a escrita musical textural e a linguagem majoritariamente atonal. Enfim, identificam-se procedimentos referenciais com relação à cultura geral e cubana, que se propõem a uma releitura ao mesmo tempo distanciada e humorada destas culturas”.
Ou seja, não estamos diante de música fácil, banal, corriqueira.
Faltou falar de sua paixão pelas músicas do passado, sobretudo as do barroco e do período clássico. Ela concretizou-se em várias transcrições, reelaborações e transfigurações de obras-primas dos séculos 17 e 18 por meio de novas texturas orquestrais. Ele transcreveu Il ritorno d’Ulisse in patria, de Monteverdi; o oratório Jephte, de Carisssimi, e a ópera buffa Don Chischiotte della Mancia, de Paisiello.
Em 1982, era diretor artístico da Accademia Filarmonica Romana. Naquele ano, concebeu um evento musical que incluía o Concerto para flauta, harpa e cordas K. 299, de Mozart. Para completar o programa, propôs sua própria reinterpretação da Fantasia de C.P.E. Bach, que descreveu assim: "Mantendo exatamente os valores das notas do original, decidi transcrever a fantasia para teclado com acompanhamento de violino, de C.P.E. Bach, para flauta solo, harpa e cordas. Meu objetivo foi projetar o material harmônico extremamente interessante e expressivo desta composição em um aparato instrumental maior e, assim, tornar suas estruturas harmônicas – voltadas para o futuro – mais evidentes e bem delineadas. As cordas podem ser apresentadas de duas formas diferentes: seja como quarteto e quinteto de cordas, ou como quarteto de cordas e o naipe completo de cordas. Como se poderá notar, também procurei conferir maior fluidez e um caráter concertante à sonoridade das cordas, evocando o espírito da música de câmara do início do período clássico”. Ele intitulou a transcrição de I Sentimenti di Carl Philipp Emanuel Bach.
Um interessante álbum de 2023, do selo Brilliant Classics, Travestimenti, faz uma atraente amostra deste talento pouco conhecido de Henze, com solistas e a Orquestra de Pádua e do Veneto, regida por Marco Angius, e outras duas “reinvenções” de Henze: sua bem sacada transformação de três sonatas de igreja para órgão e cordas de Mozart em movimento único (K. 336, K.67 e K.328) em uma suíte para 14 instrumentos, incluindo oboé d’amore e viola d’amore, usando a então popular fórmula concertante rápido-lento-rápido instituída por Vivaldi na primeira metade do século XVIII. Foram executadas durante a Missa, entre a leitura da Epístola e de um dos Evangelhos, por isso foram chamadas de Mozart Sonate all’Epistola. A transcrição de Henze para 14 músicos estreou em 19 de novembro de 1991, data do bicentenário da morte de Wolfgang.
E, cereja musical deste álbum delicioso, Henze transformou a chacona para violino e baixo contínuo de Tomaso Antonio Vitali (1663-1745) num encorpado “concerto” para violino e orquestra ciaccona “Il Vitalino” de pouco mais de 30 minutos. Está disponível no streaming.
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