Pianista ucraniana deu intepretação fulgurante ao Concerto nº 3 de Prokofiev em apresentação que contou ainda com a Quinta sinfonia de Beethoven e se encerrou com as Danças Polovetsianas, de Borodin
PORTO ALEGRE - A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre abriu a sua temporada na sexta-feira, dia 7 de março, em sua sede, na casa da Ospa, em clima de festa. Aqui – contradizendo o ator hollywoodiano que classificou as artes clássicas como mortas – o público acorreu com entusiasmo, feliz com a expectativa do novo ano da orquestra de sua cidade. E valeu a pena. O diversificado programa foi coroado com a presença da pianista ucraniana virtuose Valentina Lisitsa.
Lisitsa foi talvez a primeira artista clássica que se tornou celebridade pop a partir de um vídeo que viralizou na internet, há quase 20 anos. Desde então vem desenvolvendo uma brilhante carreira que já a trouxe ao Brasil em diversas oportunidades, tanto em recitais solos em São Paulo e no Rio de Janeiro, quanto como solista de orquestras como a Orquestra Sinfônica Brasileira e a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro. Eu mesmo já a vi e ouvi em São Paulo.
A apresentação de ontem, com a Ospa, mostrou a pianista em grande forma. Com uma técnica transcendental e sensível musicalidade, Lisitsa realizou uma interpretação fulgurante do Concerto nº 3, de Prokofiev.
Prokofiev trabalhou quase 10 anos na obra. Consta que o movimento central, um tema e variações em uma linguagem quase neoclássico, tenha sido esboçado já em 1913. A obra, porém, só estreou em 1921. Aos 30 anos, Prokofiev já era então um compositor reconhecido. Aliás, a estreia da obra, em Chicago, foi feita pelo próprio Prokofiev, o que comprova que ele era também um talentoso instrumentista.
O concerto é uma beleza e, apesar de suas dificuldades, uma das obras mais executadas do compositor. Explorando as potencialidades percussivas do piano, Prokofiev criou uma partitura moderna que combina virtuosismo brilhante, grande energia rítmica e lirismo melódico.
Foi também muito boa a execução da Ospa, em diálogo simbiótico com a solista. Sob condução do maestro Manfredo Schmiedt, a orquestra respondeu à altura da performance arrebatadora de Valentina Lisitsa, em uma apresentação de grande impacto. Muito aplaudida, Lisitsa retornou ao palco para dar um bis, uma valsa de Chopin – linda sonoridade em cristalinas escalas que pareciam colares de pérolas.
Prokofiev foi o ponto alto do espetáculo, que se iniciou com a Quinta sinfonia de Beethoven. A obra, cuja riqueza artística e espírito revolucionário representam um desafio para qualquer orquestra, ganhou uma leitura consistente. No amplo palco da Casa da Ospa, contudo, senti falta, em algumas passagens, de um pouco mais de agógica, talvez com dinâmicas e articulações mais pronunciadas.
A noite se encerrou com uma vibrante apresentação das Danças Polovetsianas, suíte extraída da ópera Príncipe Igor, de Borodin. Regendo de cor, o maestro Schmiedt mostrou-se particularmente à vontade neste repertório – quiçá por sua longa experiência no trabalho com corais. A orquestra e o coro exibiram volumosa sonoridade e souberam realçar as diversas características de cada segmento musical com muita propriedade, levando o espetáculo a um entusiástico final.
A apresentação foi vivamente festejada pelo público, que praticamente lotou a Casa da Ospa.
Mais do que uma bem-sucedida abertura de temporada, a noite também reafirmou a importância, a relevância e o impacto da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Com um efetivo orquestral completo, coro sinfônico, uma sede própria – a Casa da Ospa – e ainda uma escola de música dedicada à formação de novos talentos, a Ospa constitui hoje uma estrutura de produção musical clássica rara em nosso país. Em um cenário cultural frequentemente marcado por dificuldades estruturais, oxalá o poder público garanta condições para um desenvolvimento artístico cada vez maior da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.
[Nelson Rubens Kunze viajou a Porto Alegre e assistiu à abertura da temporada a convite da Ospa.]
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