Festival Amazonas de Ópera estreia ótimo ‘Salvador Rosa’, de Carlos Gomes

por Nelson Rubens Kunze 17/05/2026

Elenco virtuoso é destaque da encenação; montagem é uma coprodução com o Instituto Musica Brasilis e com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde será apresentada em julho

Se fosse para julgar pelo que vimos na sexta-feira à noite (15/05), no Teatro Amazonas, em Manaus, a ópera Salvador Rosa, de Carlos Gomes, deveria se chamar Isabella. Como em Tosca, de Puccini, é o destino trágico dessa personagem que conduz o espetáculo. A encenação de Julianna Santos reforça essa ideia. Mas o que realmente determinou essa minha percepção foi a extraordinária interpretação da soprano Eiko Senda.

Salvador Rosa, de Carlos Gomes, é a principal atração da 27ª edição do Festival Amazonas de Ópera, que acontece na capital amazonense desde 19 de abril e vai até 31 de maio. Sob direção musical de Luiz Fernando Malheiro e com a participação da Amazonas Filarmônica, do Coral do Amazonas e do Balé Folclórico do Amazonas, a ópera mantém o já conhecido padrão de qualidade do evento. 

Salvador Rosa é uma ópera ambientada na turbulenta Nápoles do século XVII e inspirada na figura histórica de Salvador Rosa, artista que realmente existiu e que se destacou como pintor, poeta e músico. Na obra, Salvador alia-se ao rebelde Masaniello contra a dominação espanhola, ao mesmo tempo em que vive uma paixão avassaladora por Isabella, filha do opressor espanhol Duque d’Arcos. Misturando o drama político com a paixão irrefreável, a ópera transforma Salvador Rosa em um símbolo de liberdade e idealismo.

Baseada em libreto de Antonio Ghislanzoni, a ópera é em italiano e estreou em 21 de março de 1874 no Teatro Carlo Felice, em Gênova. Após a recepção fria que sua ópera anterior havia recebido, a mais “inovadora” Fosca, Salvador Rosa retoma com grande inspiração e competência a linguagem da grande ópera italiana da época, ou seja, do universo de Giuseppe Verdi.

É incrível a “energia lírica” que as produções do Festival Amazonas de Ópera fazem emanar do Teatro Amazonas. Demonstrando mais uma vez a sua veia musical e teatral, Luiz Fernando Malheiro imprime intensidade dramática e faz todos – orquestra, coro e solistas – se equilibrarem organicamente às dimensões relativamente pequenas do Teatro Amazonas. Tudo soa muito bem! Para alcançar isso – além do bom desempenho da Amazonas Filarmônica e do Coral do Amazonas, ambos impregnados de DNA operístico –, é preciso um bom e bem escolhido elenco de solistas. 

E, se for para escolher um destaque, creio que é o elenco como um todo que merece especial reconhecimento. Em primeiro lugar, a já citada interpretação arrebatadora da soprano Eiko Senda. Além de sua competência e maturidade vocal, Eiko entregou uma atuação cênica de grande dramaticidade. Foi igualmente muito boa a interpretação do tenor Enrique Bravo, que fez Salvador Rosa. Ainda que teatralmente menos presente – talvez até por uma escolha da direção – Bravo exibiu voz bem timbrada e soante em todos os registros e protagonizou passagens de grande emoção.

Masaniello foi interpretado pelo barítono Sunu Sun (o cantor venceu, no ano passado, o Prêmio Carlos Gomes oferecido pelo FAO como premiação especial do Concurso de Ópera Cascais, de Portugal). Formado na Alemanha, o jovem cantor conduziu bem o papel em boas intervenções. Com desenvoltura cênica, voz clara e de agudos fáceis, a soprano Maria Gerk foi sucesso no papel travesti do ajudante de Salvador, Gennariello. Também aqui tive a impressão de que a direção cênica optou por realçar a importância de Gennariello no contexto da obra. O baixo Luiz-Ottavio Faria interpretou, com toda a autoridade que a parte exige, o Duque D’Arcos. Com voz potente e timbre amadurecido, Faria revelou-se perfeito no personagem.

É necessário citar também os demais cantores do elenco, que garantiram o nível artístico do espetáculo: Cristhiano Silva (Conde de Badajoz), Humberto Sobrinho (Fernandez), Emanuel Conde (Corcelli), Mirian Abad (Irmã Ines / Bianca) e Roberto Paulo Silva (Irmão Lorenzo). 

A encenação de Julianna Santos funcionou bem e ofereceu espaço propício para uma boa fluência dos acontecimentos. A montagem é criativa e bonita. Amplos painéis de pinturas a óleo de Salvador Rosa são baixados ou suspensos, delimitando diferentes espaços. Uma estrutura metálica oferece um plano cênico adicional. Em algumas cenas, um amplo pano de fundo com a reprodução de uma paisagem marítima pintada por Rosa completa o cenário (cenografia de Renato Theobaldo).

Talvez até pela maneira como a ópera foi concebida – nos dois primeiros atos a narrativa gira mais em torno da rebelião para a partir daí concentrar-se no amor proibido de Salvador e Isabella – achei, no todo, que a encenação cresceu ao longo da apresentação. Sem dúvida, também pela direção mais concentrada, é nos últimos dois atos que o espetáculo ganha uma enorme tensão dramática.

A ótima produção do Festival Amazonas de Ópera recupera e divulga, em alto nível, a pouco conhecida Salvador Rosa, mais uma prova da inspiração e do brilho musical e teatral de Carlos Gomes.

Salvador Rosa é uma coprodução com o Instituto Musica Brasilis e com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde deverá ser apresentada em julho.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Manaus e assistiu à ópera Salvador Rosa a convite do Festival Amazonas de Ópera]

Veja abaixo fotos da montagem de Salvador Rosa produzida pelo FAO (divulgação, Saleyna Borges)

Cena da produção do FAO de Salvador Rosa (divulgação, Saleyna Borges)

 

Cena de Salvador Rosa (divulgação, Saleyna Borges)

 

Cena de Salvador Rosa (divulgação, Saleyna Borges)

 

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