Em seu novo disco com o Ensemble K, Cosmos, maestra brasileira oferece leitura da obra em que se ressaltam cores e transparências
O que admiro mais em Simone Menezes é, além do enorme talento, a tenacidade e determinação, características de sua personalidade, aliadas a um fino critério de qualidade e originalidade em todos os seus projetos musicais.
Nascida em Brasília 49 anos atrás, estudou flauta e piano na Unicamp. A partir de 2017, estabeleceu-se em Paris, estudou regência de orquestra. Dois anos depois, criou o Ensemble K., um conjunto de catorze músicos. Nos últimos sete anos fez de cada projeto discográfico um novo desafio a ser ultrapassado.
Em 2022, seu projeto de documentário e álbum Metanoia, premiado como melhor documentário do ICMA europeu, é construído em torno da pergunta: “Por que algumas obras e compositores tocam tão profundamente as pessoas, atravessando a barreira de tempo e espaço, como a música de Bach? E por que outras obras e compositores famosos e importantes em seu tempo estão hoje esquecidos?”. Metanoia concorreu, na final, com concorrentes poderosos: um projeto da violinista Janine Jensen com o regente Antonio Pappano; e com um documentário da Filarmônica de Viena e Christian Thielemann.
E, em 2023, o álbum Amazônia – Villa-Lobos e Glass, em que regeu a Philharmonia Zürich, elevou-a com justiça a um patamar invejável no domínio da regência orquestral: regeu a Filarmônica de Los Angeles.
Seus dois últimos álbuns são ótimos exemplos de sua atitude, mesmo quando encara obras muito conhecidas e gravadas zilhões de vezes mundo afora. Ambos propõem desafios específicos: transpor para orquestra de câmara obras gestadas para grande orquestra por seus compositores. No caso, Nikolai Rimsky-Korsakov e Gustav Holst. Mais do que isso. Ela escolheu carros-chefes destes compositores, suas obras mais populares e conhecidas. No caso de Scheherazade, lançado em 2024, ela não se limitou a uma versão de câmara da obra: acrescentou diálogos originais, adaptações livres dos textos das Mil e uma noites. Em abril próximo, teremos a chance de assistir a esta performance ao vivo no Teatro Cultura Artística.
No recém-lançado álbum Cosmos, ela recria em ambiente camerístico a orquestra pantagruélica dos Planetas, que originalmente prevê 16 madeiras, outro tanto de metais, duas harpas, celesta, órgão e farta percussão, além de um mar de cordas. A primeira impressão é que o arranjo de George Morton para 14 músicos implica perda de grandiloquência, sobretudo em Marte e Júpiter. Em compensação, a música ganha em refinamento e sutileza, como em Vênus e Netuno.
Conversamos sobre isso semana passada. Ela admite que gosta deste tipo de desafio: “Gostamos deste desafio, fizemos o mesmo com Sheherazade. Os músicos têm individualmente virtuosidade e sonoridade generosa. Tanto Sheherazade quanto Os planetas são obras de 40 a 50 minutos de música virtuosística non stop, é um trabalho hercúleo para a orquestra”. Quando cada naipe é praticamente representado por um músico, “dobra o desafio”, diz Simone. “Mas gostamos do desafio! Traz uma certa adrenalina típica do Ensemble K. Além disso, temos a possibilidade de explorar detalhes cores e transparência que num mar sinfônico jamais aparecem!”
Cores e transparência. Estes são os diferenciais desta leitura inovadora de uma obra tão conhecida como Os planetas. Ao contrário de Sheherazade, autêntico poema sinfônico, a obra de Holst fica a meio-caminho entre um poema sinfônico, uma sinfonia ou uma fantasia. Mas não é nada disso. Profundamente influenciado pela astrologia, Holst fez perfis sonoros dos planetas. Daí a grande variedade de estilos. Daí a sina que acompanha historicamente a obra composta no ano em que se iniciou a Primeira Guerra Mundial, em 1914, e estreada após seu término, em 1920, é que, mesmo arquiconhecida, raramente é executada na íntegra. Os sete perfis astrológicos mais tocados são os de Marte e Júpiter. Um dos “esquecidos” é um dos mais delicados, o último, Netuno, com vozes femininas. A abertura Júpiter do compositor Nicolas francês Bacri, 64 anos, soa como um contraponto moderno a Júpiter, o planeta mais grandiloquente de Holst.
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